Carta de Antígona a Ismênia
Em 2025 mais de 4 mulheres foram assassinadas por dia no Brasil, a maior parte, mulheres negras. Em 2024, segundo a ONU, cerca de 50.000 mulheres e meninas foram mortas por parceiros ou familiares. Uma a cada 10 minutos. O lindo texto de Laurinda nos comove, nos convida a não esquecermos.
CARTA DE ANTÍGONA A ISMÊNIA
M. Laurinda R. Sousa - Março/2026
Estamos no mês de março. Mês em que se reconheceu o Dia Internacional da Mulher. Mês em que escutamos vários protestos e denúncias sobre o feminicídio, o abuso e estupro de crianças e adolescentes. Os índices dessa violência são crescentes e alarmantes. No Brasil, dados indicam que 2025 foi o ano mais violento desde a tipificação do crime, em 2015, com um registro de mais de 4 assassinatos por dia, sendo que a maior parte foi de mulheres negras. Segundo dados da ONU, em 2024, cerca de 50.000 mulheres e meninas foram mortas por parceiros ou familiares; uma a cada 10 minutos.
Desde tempos antigos a mulher tem sido alvo de violência, de ataques à sua integridade, ao seu pensamento, à sua existência. Mas a história de suas lutas e resistências também é antiga. “Eles querem nos matar. Nós insistimos em viver”.
Foi com o reconhecimento dessas histórias que me deparei com a carta que Antígona poderia ter endereçado a sua irmã Ismênia. Uma carta iniciada na antiga Grécia e que nos chega hoje com a pergunta que mantém sua atualidade.
Não te inquietas, irmã, com tudo isso?
Antígona, vocês sabem, é considerada uma das primeiras figuras representativas da resistência feminina ao poder masculino, ao poder do Patriarcado, ao poder do Estado. Seu nome dá título à tragédia escrita por Sófocles por volta de 441 AC.
Esta carta imaginária teve início no momento em que Antígona conversa com sua irmã sobre o decreto que o rei Creonte, seu tio, acabara de proclamar, impedindo o enterro de Polinices, porque ele havia conduzido um exército contra Tebas. Defendendo o trono de Tebas, estava Etéocles, o outro irmão, que se recusara a cumprir o acordo de alternar o poder com Polinices. Como pano de fundo desta tragédia, o veredito funesto pronunciado por Édipo contra seus próprios filhos.
Ouçamos, então, o que ela nos diz:
“Ismênia, irmã querida, desde tempos idos tenho chamado tua atenção sobre o mal que atravessa nossos corpos e nosso lugar no mundo.
A primeira vez, lembras-te? foi em frente ao Palácio Real estando eu indignada e inquieta com a forma com que o poder do então rei impediu o sepultamento de nosso irmão e, mais ainda, ordenou que não se chorasse por ele sob o risco de sanções terríveis aos que ousassem transgredir suas ordens.
Tu me pediste para não falar alto, para não afrontar o poder, para não honrar o corpo de nosso irmão, mas eu te disse indignada que o faria e que não precisavas guardar segredo de meus atos.
Sei bem que Creonte não suportava ouvir a voz de uma mulher que o contrariava; não suportava ser confrontado em seu poder. Por isso me condenou. Condenou-me por medo de perder sua masculinidade.
Também Polinices não quis me ouvir e me pediu para não chorar antes de ir para a batalha. Mas, como podia não chorar sabendo já que ele ia para a morte? Sabendo já que seria eu a cobrir seu corpo. E que em mim, em meu próprio corpo, já estava presente a morte?”
Não te inquietas, irmã, com tudo isso?
Pois, passados tantos séculos desde que tudo isso aconteceu, volto a ouvir a proclamação, dita agora em todos os meios visíveis, em letras destacadas, para que não choremos pelos mortos atingidos por dispositivos caídos dos céus, por construções que se desfazem sobre nossos corpos, esmagando-os e deixando-os irreconhecíveis sob as pedras.
Ontem mesmo, era o dia 28 de fevereiro deste ano de 2026, vislumbrei os corpos de mais de 150 meninas e professoras, vítimas de um ataque a uma escola infantil em Mináb, no Irã. Também em Gaza, também em tantos outros lugares isso aconteceu.
Não te inquietas, irmã, com tudo isso?
Disseram-nos e acreditamos, que não se matam crianças, que não se jogam bombas em escolas. Que não se abusam de mulheres, que elas não serão estupradas, raptadas, violentadas. Mas quem o disse?
Foram sempre eles, os homens. Foram eles que anunciaram o que não devia ser feito e o fizeram.
Não te inquietas, irmã, com tudo isso?
Tu me disseste para não nos esquecermos que somos mulheres e que nos educaram para não enfrentar os homens... só nos restando calar, obedecer... Disseste que ter pretensões ao impossível, é loucura. Disseram-nos, também, que seria um ato de bruxaria e condenaram-nos por isso. Queimaram nossos corpos.
Mas se enganaram: “Eles pensaram que queimavam bruxas. Queimavam mulheres”.
Mas, lembre-se Ismênia, meu nome é Antígona. E tenho voz. E posso me opor a essas leis, a esses olhares que nos desconsideram e nos maltratam. E sou solidária. E quero para mim e para toda a humanidade, uma vida digna e uma morte morrida que possa ser honrada. Não quero uma morte matável sem cova ou ritual de despedida.
Maria Laurinda é colunista do Blog do Departamento, psicanalista e escritora.
Lindo texto Laurinda, parabéns
ResponderExcluirPor coincidência estou estudando
Antígona no seminário da Ética de
Lacan.
Ela não podia ir contra seu desejo de
enterrar o irmão!
Bjs