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Sobre a merencória infância

Não será a poesia uma resposta possível a um mundo em que as mortes, a violência, nos emudecem e nos convocam a uma outra linguagem? A um outro fazer? M. Laurinda aposta que sim. Confira!     SOBRE A MERENCÓRIA INFÂNCIA Eu não falo em civilização num local em que se matam pessoas, matam crianças, matam meninas... Isto é barbárie (Ministra Carmem Lucia) Dados da UNICEF informam que desde outubro de 2023, cerca de 64 mil crianças foram mortas ou feridas na Faixa de Gaza. João Cabral de Melo Neto, em A lição de poesia, faz uma certa ironia sobre o fazer poético, como se vinte palavras, sempre as mesmas, fossem o material de que se nutre o poeta: “... A luta branca sobre o papel/ que o poeta evita, / luta branca onde corre o sangue/ de suas veias de água salgada/...E as vinte palavras recolhidas/ nas águas salgadas do poeta/ e de que se servirá o poeta/ em sua máquina útil. / ... Vinte palavras sempre as mesmas/ de que conhece o funcionamento...” Carlos Drummo...

Prosa cênica: texto para ser falado, de pé, sobre um tapete antigo de família. Meia luz.

Lucia Helena Rodrigues Navarro compõe um lindo texto-poesia em meio ao luto. PROSA CÊNICA: TEXTO PARA SER FALADO, DE PÉ, SOBRE UM TAPETE ANTIGO DE FAMÍLIA. MEIA LUZ. Cena 2: Ar As roupas continuavam a cair e caíam sem parar. De longe, só era possível discernir cores em movimento acelerado. Num instante, um azul claro, muito suave, desprende-se.   Organza de seda transparente, com trama incomum, plissada, corte curto.   O tecido toma corpo, baby-doll azul, sobe e rodopia no ar. Lembro: cada uma vestida, salto alto, pés pequenos, desfilávamos radiantes na frente do grande espelho do closet, de baby-doll azul claro. Giramos, giramos até cair de alegria incontida. Retomamos, agora com certa distância, o olhar para a montanha de roupas. Em um outro lampejo, como um balão iluminado que se enche de ar, toma volume e sobe.   Bege clara, de estampa bem delicada de florzinhas apagadas, organza de seda, tecido ao mesmo tempo fosco e meio transparente, renda amarelad...

Carta de um cacique aos meninos do Brasil

Em "Carta de um cacique aos meninos do Brasil", em clima de Copa, Maria Laurinda destaca da "paixão" das crianças e seus álbuns na torcida pelo time favorito, à mercantilização do esporte e a tragédia das guerras, com o extermínio em Gaza.   Quem sabe uma resposta à carta de Pero Vaz de Caminha, como sinal de resistência histórica à colonização. CARTA DE UM CACIQUE AOS MENINOS DO BRASIL No jogo entre Argentina e Egito, além das cenas de racismo que marcaram a disputa, uma outra, mais trágica, atingiu a torcida pela Copa, em Gaza. Mohamed Al-Wahidi, diretor do Comitê Egípcio em Gaza, organizador das transmissões de jogos, foi atingido por um ataque de míssil israelense, momentos antes da partida, como noticiou Jamil Chade em sua coluna do ICL, no dia 9 de julho. Nesse ataque, seus dois irmãos de 8 e 10 anos, também morreram. A notícia dessas mortes, e, especialmente, a desses dois meninos, me fez retomar um texto escrito, logo após a derrota do Brasil no jogo ...