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A procura de uma língua que possa chamar de sua

Maria Laurinda homenageia a escritora moçambicana Paulina Chiziane, primeira mulher a publicar um romance em seu país, e primeira mulher africana a receber o Prêmio Camões. Confiram!   A PROCURA DE UMA LÍNGUA QUE POSSA CHAMAR DE SUA Não tenho língua, ela me disse. Falou com tanta convicção, tanta certeza, que cheguei a pensar ser delírio minha escuta. Seja por minha expressão de espanto, seja porque queria me fazer entender o que dissera, ela continuou. A língua que falo não me pertence. Ou seria melhor dizer não pertenço à língua que me impuseram. Era outra a língua que falávamos. Com ela contaram-se muitas histórias. Com elas cresceram meus ancestrais.   Quando foram retirados à força de sua terra e levados para lugares distantes, em travessias por mares desconhecidos, junto com pessoas de línguas diferentes, foram atingidos por intensa tristeza. Por aquilo que depois os especialistas nomearam como banzo, nostalgia. Alguns pereceram em alto mar e foram...

Ser mulher

Maria Laurinda nos presenteia com sua poesia em "Ser Mulher". Confiram   Lendo Adélia Prado: O meu registro fundamental é o cotidiano, religioso... A poesia é reveladora do real. Sou uma mulher desdobrável. O futuro precisa de uma nova gramática Ela virá da arte e da poesia. Rita Segato   SER MULHER Ter dobras insondáveis No dentro de mim E com gestos libertinos Com querências agnósticas Desdobrar-me   Abrir minhas formas cindidas Sair das sombras da noite Expor os segredos do corpo Seus ocos, cheiros, rugidos Seus filamentos trêmulos Seus clamores e desejos - a sofreguidão de seus apelos   Não aceitar injunções Pedidos em demasia Entregar-me ao despudor Com alegre ousadia   Dobrar-me? Só às miudezas do dia Aos que no frio, pedem guarida no exílio, refúgio na solidão, aconchego no desamparo, compaixão nos corpos violados, proteção Aos que vivem em guerra, a paz   Ver na p...