Blog do Departamento de Psicanálise

O Blog do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes é um dos veículos de comunicação em que circulam informações, produção de conhecimento, experiências clínicas e de pesquisa de seus diferentes membros. A interlocução com o público, dentro e fora do Departamento, é uma maneira de disseminar a troca no campo da Psicanálise e possibilitar a ampliação do alcance das reflexões em pauta. Equipe do Blog: Ana Carolina V. de Paula Santos, Fernanda Borges, Gisela Haddad e Gisele Senne de Moraes.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

A Supressão do outro e o Necromovimento

Como explicar um assassinato a queima roupa num clube privado de São Paulo ou um atropelamento no estacionamento ao lado de uma 'balada' num bairro 'nobre' da cidade? Ivan Martins discute a violência como fenômeno que acompanha a história do Brasil e agora adentra o campo social e cultural da classe média. 

 

A SUPRESSÃO DO OUTRO E O NECROMOVIMENTO

Desde quando nos tornamos uma nação de assassinos? Embora retórica, a pergunta poderia ser respondida de forma simples: desde sempre.

Os portugueses chegaram às nossas praias em 1500 para assassinar uma quantidade incalculável de homens, mulheres e crianças indígenas. Foi uma guerra de extermínio pela terra que, a rigor, ainda não acabou. Os mesmos portugueses trouxeram para o matadouro da escravidão 4,8 milhões de africanos, com a ajuda inestimável, a partir do século XIX, da elite econômica e política brasileira. Depois disso houve o genocídio da Guerra do Paraguai, o massacre em Canudos e incontáveis episódios de violência contra o povo rebelado. No século XX, à ditadura do Estado Novo sucedeu-se, depois de breve intervalo, a ditadura militar de 1964, exemplar na tortura e na eliminação física de opositores. Durou mais de 20 anos. Desde a redemocratização, o foco da violência mudou do político para o social. Em plena democracia, mata-se informalmente, aos milhares, os pobres e os pretos, aqueles que foram empurrados pela violência econômica para a marginalidade ou têm a má sorte de viver na proximidade dela, nos guetos periféricos explorados pelo tráfico e pelas milícias. Também se matam mulheres a torto e a direito no Brasil. O feminicídio é endêmico.

Recentemente, já na terceira década do século XXI, assistimos chocados e impotentes, mas não inteiramente surpresos, à escalada da violência em nosso próprio meio, os redutos sociais e culturais da classe média branca.

No dia 13 de agosto, sábado passado, um rapaz de 20 anos foi atropelado de forma selvagem e premeditada na frente de uma casa noturna no Itaim, bairro chique de São Paulo. O homem que jogou o carro sobre Fernando Palomino Zambori, depois de xingá-lo na saída do estacionamento, dirigia uma Land Rover Velar, que custa 570 mil reais. Ele está foragido e Fernando está morto. Semanas antes, ocorrera a morte absurda do militante petista Marcelo Arruda, em Foz do Iguaçu, assassinado a tiros em sua festa de aniversário por um bolsonarista tresloucado. Entre um crime e outro, houve, pelo que me lembro, a morte de um homem negro, pai de três filhos, baleado por um “colecionador de armas” em Mogi Guaçu, interior de São Paulo, depois de raspar no carro dele e tentar fugir. O assassino é empresário e tinha três armas “de colecionador” registradas na polícia. Ocorreu, também nesse ínterim, a morte de um homem de 27 anos na cidade de Jacareí, em São Paulo, depois que um menino de 8 anos disparou acidentalmente a arma “de colecionador” que estava solta no banco de trás do carro, carregada com 12 cartuchos.

A grande novidade no cortejo atual da barbárie é o contexto político. Existe um líder de massas - e uma ideologia abraçada por multidões de eleitores - que legitima o uso indiscriminado de armas e a prática generalizada da violência. Não estamos diante de explosões pessoais de passionalidade e agressividade. Não se trata mais de atos esporádicos e aleatórios de violência. Está em marcha um necromovimento de caráter nacional. Formou-se ao redor da extrema direita, tendo Jair Bolsonaro como centro, uma cultura de ódio e supressão do “outro” que atrai e mobiliza milhões de brasileiros e brasileiras. O “outro” pode ser petista, bandido, corrupto, feminista ou umbandista. Pode ser também o cara que raspou no meu carro ou está empatando minha saída do estacionamento. O certo é que, posto na posição de “outro”, a vida dele não vale mais nada. Pum! Está morto.

Fala-se em polarização, mas não é disso, absolutamente, que se trata. A violência física e simbólica parte apenas de um lado. A mentira organizada de forma industrial nas redes sociais vem de um lado. A recusa explícita do jogo democrático e a ameaça constante de ruptura vem de um lado. Existem dois candidatos disputando com chances a presidência, mas só um deles ameaça incendiar o país se perder a eleição. Onde está o outro polo da polarização?

Para nosso imenso azar, essa coisa fascista – porque é disso que se trata, o culto ao líder, à violência e à morte – infiltrou-se na cultura e fundiu-se, como nos Estados Unidos, a aspectos da religiosidade popular, como a defesa da família. Nesta eleição, temos líderes cristãos associados de forma fervorosa (e paradoxal) a uma forma de governar cujo lema poderia ser “mate e deixe morrer”. Estão aí os quase 700 mil mortos da pandemia e as vidas inocentes perdidas nas ações policiais nas favelas. Elas não nos deixam mentir.

Cabe perguntar, a esta altura, o que há de errado com a nossa cultura para permitir tais crimes, e a resposta, novamente, seria simples: quase tudo.

A nossa alegria e a nossa cordialidade convivem sem constrangimento com a indiferença social em relação à miséria e à sorte dos excluídos. Nossa famosa afetividade anda de braços dados com o racismo e a homofobia. Somos o país que mais mata homossexuais e jovens negros, e o abismo de classes que criamos é único no mundo, verdadeiramente espetacular.  O cimento que mantém de pé essa construção social obscena é a violência, em suas diversas formas: econômica, de classe, racial, policial e, agora, política.

O bolsonarismo é um descaramento do que somos como sociedade, uma espécie de explicitação cínica e visceral. Ele emerge numa crise global do capitalismo – a mesma crise que levou Donald Trump ao poder nos EUA e turbinou a extrema direita europeia – e talvez submerja com ela, se tivermos sorte. Mas os bolsonaristas permanecerão entre nós, lembrando que a única alternativa ao fascismo e à necropolítica é o aprofundamento da democracia e a inclusão social dos milhões de brasileiros que vivem à margem da prosperidade e dos benefícios da civilização.

 

Ivan Haro Martins é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

O sentido de um tempo: para sempre e nunca mais

Inspirada pela visita ao Museu de Arte Osório César, sediado no Complexo Juqueri, nossa colega Soraia relembra suas experiências no campo da saúde mental nos anos de 1984/5, período em que o Brasil passava pelo processo de redemocratização. Nesse belo texto a autora nos fala de ações voltadas aos direitos humanos, de memória e da restauração da possibilidade de sonhar.  

 O SENTIDO DE UM TEMPO: PARA SEMPRE E NUNCA MAIS

Soraia Bento


Nos longínquos anos 1984/5 um grupo de jovens universitários que cursavam Psicologia e Medicina, reuniu-se nos porões da FMUSP com um desejo vivo de refletir sobre os caminhos que a área da saúde mental poderia percorrer em um Brasil sob processo de redemocratização. Éramos muito jovens, tínhamos nascido sob as garras da ditadura civil militar e alimentávamos o sonho de viver em liberdade de pensamento com garantia de direitos na diferença. Essa era a perspectiva que orientava nossos olhares, nossos autores estudados e nosso desejo de iniciarmos uma prática clínica. A partir de um relatório da Comissão Teotônio Vilela por Direitos Humanos (CTV), tivemos acesso à investigação de violações cometidas aos sujeitos internos em estabelecimentos de privação de liberdade sob custódia do Estado, como manicômios e prisões. As descrições eram aterradoras e incendiaram a nossa força juvenil a buscar elaboração do traumático vivido através de alguma ação. A verdade inacreditável era verdade, mesmo inacreditável!

Nenhum muro nos deteria sem que pudéssemos questioná-lo empunhando livros e coragem. Iniciamos com duas ações paralelas: conhecer o maior número das chamadas instituições totais entre São Paulo e Rio de Janeiro e infiltrar-nos em uma clínica feminina do complexo Juqueri com a consígnia de que faríamos um trabalho voluntário, passando tempo com as internas para ocupá-las com histórias, brincadeiras e outras coisas que se faziam nos hospitais psiquiátricos com alguma dignidade.

Visitamos a antiga FEBEM, o Manicômio Judiciário, O Hospital Anchieta, Hospital Vila Mariana, Engenho de Dentro, Pedro II, o ateliê onde trabalhou Nise da Silveira... em cada lugar, incontáveis histórias se abriram.

Conhecemos Artur Bispo do Rosário e seus mantos adornados pelos bordados feitos a partir do desmanche de tecidos, de onde retirava os fios de linha. A figura de Bispo do Rosário e seus estandartes era a síntese da resistência contra os processos de dessubjetivação, não da esquizofrenia propriamente dita, mas do confinamento imposto pelo Estado. Se o propósito era retirar todas as garantias identitárias, tornando os pacientes zumbis; ele, ao contrário, era um rei no seu território, diferente de tudo e de todos, sendo duplamente louco porque adoeceu e porque ao romper com o sistema para dar textura e forma às vozes que o acompanhavam, tornou-se artista, único.  Ele vivia entre suas empoeiradas obras deslumbrantes e montanhas de sucata recolhida em um anexo próprio. Aquele espaço despertava encantamento sem tamanho, mas também dimensionava o sofrimento de uma vida apartada do espaço social. Curiosidade, simpatia e admiração nos aturdia nessa visita guiada por ele.                                                           

Sim, romantizávamos muito o saber da loucura e ao adentrar o espaço de horror, encontramos um universo de sobreviventes estropiadas por um processo terrível de alienação: mulheres vestidas com aventais iguais e puídos, andando a esmo no pátio delimitado por muros altos e um avarandado que contornava o belíssimo pavilhão projetado por Ramos de Azevedo. Em poucos passos fomos conhecendo a carência de convívio em que viviam aquelas mulheres. Chegavam pedindo tudo: principalmente para serem tiradas dali, mas também pediam cigarro, bala ou nossos pertences. Queriam nos tocar como se fossemos seres de outro planeta.

Muitas histórias foram ouvidas ao invés de serem contadas por nós, como imaginado inicialmente. Fomos ganhando um pouco da confiança de algumas que resistiram a robotização e a clausura. Nos falaram da Rotunda, lugar onde os “rebeldes” eram confinados em solitárias forradas por estofamento para machucarem-se menos quando desesperavam. Eletrochoques, “sossega-leão” e camisa de força eram as “terapêuticas” adotadas contra rebeldias.

Subversivos, jovens grávidas, gays e lésbicas eram internados pelos familiares por não aceitarem suas escolhas. A força bruta da tortura e do exílio, em prática nos anos de chumbo, condensavam-se nesse abusivo exercício de poder das “famílias de bem” que decidiam afastar aqueles membros desadaptados em relação aos seus valores.

O modo como se estabelecem as relações de poder dentro dos espaços asilares, sem dúvida, passa pelo poder no uso excessivo de medicações antipsicóticas e pela supressão de referenciais identitários e familiares, produzindo sujeitos sujeitados. Na perdição e apagamento de suas histórias, os nexos associativos vão esvaindo-se com o tempo e fabricam-se andarilhos com seus maneirismos, dando voltas em círculo, numa conversa interminável com as vozes que habitavam suas cabeças. Uma mulher de meia idade repetia sem parar seu nome, sua ocupação antes da internação e cidade onde morava. Ficava clara a tentativa de preservar na memória a sua identidade, mas também ficava sugerido o aprisionamento nas referências da anamnese psiquiátrica. Porém, com uma simples pergunta sobre o tempo de permanência no hospital, uma certa singularidade foi resgatada:  - “não sei, mas esse muro já foi pintado algumas vezes”. Qual seria o intervalo entre as pinturas: 10, 15 anos?!  Trata-se de uma bela imagem literária.

A partir das nossas conversas, criamos uma festa como projeto de trabalho conjunto. Inventamos a festa a partir das lembranças de músicas significativas que eram aprendidas e cantadas por todos nós. Sem nenhum exagero, foi uma festona com sanfoneiro, pipoca, salsicha e sorvete. Foram 4 meses de preparativos entre buscar patrocínio externo e o convite ao resgate das histórias de vida. Ouvimos que sem homens a festa perderia sua graça e batalhamos pela autorização para a entrada de alguns internos para dançarem com elas. Foi um dia louco e inesquecível...

Histórias, nossas e delas, foram entremeando-se para nos escancarar a força bruta do pulsional. Para conter as intensidades da experiência convidamos Suely Rolnik e Sergio Maida para nos ajudar. Constituiram para nós, uma espécie de casal parental, sabido dessas coisas da subjetividade e de instituições. Foram fundamentais continentes para nossas angústias. Estudamos e vivemos a loucura em nós e no outro. Um de nós sucumbiu e fez um vôo sem retorno, do 11* andar ao chão. A dor de olhar para o lado de dentro de si levou-o ao salto eterno como saída. Nunca esteve confinado entre muros, porém a impossibilidade de viver dentro dos muros interiores, conduziu nosso jovem poeta ao extremo.

Algum tempo depois, o grupo, no formato original, se desfez; resistimos uns poucos, garantindo uma visita semanal ao Juqueri, já sem outro objetivo a não ser estar lá, com elas.

O hiato entre essas experiências e uma visita atual ao Museu de Arte Osório César, sediado no Complexo Juqueri, é imenso, mas condensou-se em um instante, quando a percepção da exuberância arquitetônica, do caminho de asfalto bordeado pela mata e do barulho do trem, reconectou fios que andavam perdidos na memória.

O museu fundado em 1985, foi restaurado depois de um incêndio e reinaugurado no final de 2020. Cem anos antes, o médico Osório César fundou uma escola livre de artes plásticas depois de ficar impressionado com a produção de alguns pacientes. Casado com Tarsila do Amaral, convidou intelectuais e artistas; Flavio de Carvalho esteve entre eles; para influenciarem no fazer artístico, mostrando nova técnicas. É lindo ver a transformação em alguns.

O museu dispõe de um rico acervo com obras de vários artistas que estiveram ali internados.    

A visita, numa linda tarde de inverno, contou com a companhia de uma amiga historiadora e uma monitora local. Conversando sobre os artistas, nossa guia postou-se em frente a uma tela em que uma mulher japonesa era representada múltiplas vezes, como se dançasse em frames. Com os olhos marejados, ela nos diz que o tema comum entre os artistas era a saudade de um tempo e de lugares inalcançáveis. A artista Masayo Seta soube representar como ninguém seu Japão perdido para sempre.

O tempo que corria no complexo Juqueri tinha a densidade do para sempre e nunca mais.  Os lugares de memórias difíceis nos lembram daquilo que não pode ser esquecido, para não ser repetido.

Esses artistas convidam nossos olhares, para reconduzi-los aos seus sonhos de outrora.

Em tempos de ataque à democracia orquestrado por um homem sem escrúpulos, que ocupa o mais alto cargo dentro da nossa República e de uma sensação de atordoamento zumbi da grande massa digitalmente indignada, mas sem maiores manifestações na rua, essas lembranças da juventude vieram à tona. Nós também precisamos restaurar nossos sonhos de democracia e ar respirável para sustentar enunciados nas ruas.

Se “No princípio era o verbo”, no fim há de ser também. O verbo, do ponto de vista semântico, contém a ação. Os sonhos daquela juventude, que subiu no trem e entrincheirou-se com os deserdados da sociedade, não podem ser em vão. Já passamos dos 50 anos de idade, mas estejamos resistentes contra a apatia e prontos para abraçar quem mais vier para tomarmos o trem de hoje.

Soraia Bento é psicanalista, professora e supervisora do curso de Psicanálise e membro do Departamento de Psicanálise

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Era uma vez Pindorama

Mara Selaibe, comenta sobre a importante iniciativa do Departamento de Psicanálise do Sedes de aproximação e de escuta da questão indígena inaugurada pela Revista Percurso que incluiu o tratamento do tema na publicação de número 66 e o evento "Mundos indígenas: o que vive em nós?" realizado no final de junho pelo Grupo da seção Debates de Percurso.

Era uma vez Pindorama

Mara Selaibe

 

“E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

Surpreenderá a todos não por ser exótico

Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto

Quando terá sido o óbvio” 

(Um índio, Caetano Veloso, 1977)


Pindorama: Terra das Palmeiras em tupi-guarani, língua das tribos litorâneas originárias.  Desde que os Pataxó foram abordados pela invasão das caravelas portuguesas e seus 1400 homens desembarcaram, nunca mais Pindorama pode ser Terra livre dos Males.

São 522 anos de extermínio e de sofrimentos atrozes; não seria viável neste espaço recuperar dados que os livros escolares de História jamais contaram, mas que se encontram disponíveis na literatura acadêmica comprometida e, principalmente, impresso na vida dos povos originários destas terras. Monte Pascoal, Ilha de Santa Cruz, Terra de Vera Cruz... Marcada pela aliança entre Estado e Igreja, a vida dos indígenas tornou-se propriedade portuguesa e europeia. A Constituição Republicana de 1891 não mudou as condições dos indígenas. E se a Constituição de 1988 salvaguarda o direito de proteção especial à cultura dos povos indígenas, na prática as atrocidades seguem impunes na maior parte das vezes.

Sobre isso não falamos quase nada ainda. E devemos falar, precisamos falar, temos de escutar o que cada cidadão brasileiro indígena tem a nos contar e a nos ensinar, a participar e a transformar nesta vida que tem se tornado a cada dia mais miseravelmente reduzida ao capital. O futuro é ancestral, frase de Ailton Krenak que reverbera pela beleza, precisa ser muito bem compreendida por nós. Trata-se da História da vida neste país – e não apenas nele.

Nessa direção inconteste, o Grupo da seção Debates de Percurso – Revista de Psicanálise inaugurou – no interior deste Departamento de Psicanálise – um diálogo público explicitamente voltado para nossas questões atuais e mais urgentes desde 21 de abril de 1500...  Quem esteve presente na manhã de sábado, dia 25 de junho último, para acompanhar e participar do evento Mundos indígenas: o que vive em nós?[1], transmitido pelo canal do YouTube do Instituto Sedes (e lá segue disponível), possivelmente desfrutou de horas que marcaram suas reflexões e reverberarão daqui em diante para a busca de outros encontros dessa ordem.

Temos ainda mais a agradecer ao Grupo de Debates da revista Percurso uma vez que, antes desse memorável evento, trouxe, em seu número 66, um Debate que nos introduziu a esse tema, incluindo outras vozes e perspectivas.[2] [3]

Os participantes da mesa abordaram a gravidade do que segue se passando no Brasil em relação ao extermínio genocida e aos ataques constantes aos povos indígenas, invisibilizados, traumatizados e desconhecidos da grande população do país. Essa catástrofe humana vem do período colonial e recebeu enorme agravo no período da ditadura civil-militar, conforme podemos ler no Relatório Figueiredo[4], mais de uma vez citado por Renata Tupinambá. Contudo, Renata também sublinhou a força dos “lugares de pensamento indígena”: conceitos, filosofias, cosmopolíticas, manifestações culturais que sustentam a existência e a resistência de todas as coletividades ancestrais e atuais por mais de cinco séculos.

Os presentes puderam dialogar também com os depoimentos dos não-indígenas que mantiveram ou mantêm algum grau de convívio profissional com algumas tribos. Luiz Bologhesi em suas andanças e permanências junto a tribos Yanomami que participaram das gravações de seus filmes, evidenciou as tentativas frequentes, desde a colonização até o presente, de submetimento desses povos a modelos culturais eurocêntricos e como se dá ainda hoje a correlata resistência ativa ou silenciosa que exercem.

Na posição de antropóloga e indigenista, Juliana Rosalen generosamente compartilhou parte de suas experiências junto a povos Waiãpi, no Amapá, tendo como foco o que “aprendi sobre a formação das pessoas” junto a eles, ao longo de mais de duas décadas.

Pataxó, Tupinambá, Guarani, Yanomami, Wajãpi... são povos diferentes, com cosmologias e culturas diversas, com tradições e histórias singulares. E são fontes de brasilidades “pindorâmicas” pouco ou quase nada conhecidas entre nós. Porém, agora, neste Departamento, são fontes de desejo de aproximação na medida em que, afinal, como nos ensina Eduardo Viveiros de Castro “Hoje a população urbana do país, que sempre teve vergonha da existência dos índios no Brasil, está em condições de começar a tratar com um pouco mais de respeito a si mesma, porque, como eu disse, aqui todo mundo é índio, exceto quem não é.”[5]

Mara Selaibe é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae.

[1] Com a participação de Luiz Bologhesi (diretor dos filmes Ex-Pajé (2018) e A última floresta (2021), disponíveis na Netflix), Juliana Rosalen (antropóloga, sócia fundadora do Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena) e de Renata Tupinambá, cujo nome indígena é Aratykra (jornalista da etnia Tupinambá, difusora das culturas indígenas), mediados por Lucila de Jesus Gonçalves (psicanalista e autora de Na fronteira das relações de cuidado em saúde indígena (2011) e Ponte (2018)).

[2] Debate O que vive em nós, com a participação de Emerson Souza Guarani, Juliana Rosalen, Lucila de Jesus Mello Gonçalves, Preiscila Ambrósio Moreira, Thiago Barbalho e Maria Rita Kehl.

[3] Numa feliz coincidência, é preciso marcar que no número 67 da mesma Percurso – Revista de Psicanálise do Departamento de Psicanálise do Sedes, consta a entrevista Pergunte aos indígenas, realizada pela equipe de entrevista junto ao antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro!

[4] Relatório Figueiredo – Jader de Figueiredo Correia foi o procurador da República que entre 1967 e 1968, a pedido do ministro do Interior à época, Afonso Augusto de Albuquerque Lima, apurou, em mais de 7000 páginas, as violências cometidas contra os povos originários a partir de 1950. Violências cometidas diretamente pelo Estado ou por fazer vistas grossas frente aos crimes cometidos por fazendeiros. O Relatório só foi reencontrado em 2012, no Museu do Índio/RJ. O texto está disponível na internet e também há o livro Relatório Figueiredo – Genocídio Brasileiro, de Alvaro Ricardo de Souza Cruz, editado em 2018, pela Lumen Juris.

[5] Eduardo Viveiros de Castro   No_Brasil_todo_mundo_é_índio.pdf   (agosto, 2006)

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Escuta Ocupação

Nessa semana, nossa colega Fernanda Franceschi nos apresenta a clínica Escuta Ocupação, criada no início da Pandemia com intuito de formar  uma rede de atendimentos aos moradores do MSTC e adjacências. Um movimento de um grande sim das clínicas públicas e da ocupação dos territórios psíquicos. Como diz Milton na canção: “Caminhando pela noite de nossa cidade, acendendo a esperança e apagando a escuridão”. Vida longa ao Escuta!

ESCUTA OCUPAÇÃO

O Escuta Ocupação[1] é um dispositivo clínico criado em abril de 2020, no início da pandemia de Covid-19, para realizar atendimentos individuais, gratuitos e online para moradoras e moradores das Ocupações Nove de Julho, José Bonifácio, São José, São Francisco, Santo Antônio e Casarão, localizadas na região central da cidade de São Paulo.

A maioria do(a)s usuário(a)s nunca tinha tido acesso à uma terapia, muitos não têm um local onde possam fazer a sessão com privacidade. Algun(ma)s moradore(a)s passaram pelo projeto pontualmente, usando o serviço para uma única escuta, como dispositivo de emergência; outro(a)s se vincularam aos atendimentos, sendo que algun(ma)s vem sendo atendidos desde o início do projeto, o que tem possibilitado o desenho de processos analíticos.

Atualmente, o Escuta Ocupação tem dois eixos de trabalho: a atenção e a formação. As funções do dispositivo são o atendimento direto aos moradores, as reuniões de articulação presenciais que acontecem nas ocupações com a assistência social, com o MSTC (Movimento dos Sem-teto do Centro), militância que coordena essas ocupações, e, eventualmente, com a UBS (Unidade Básica de Saúde) da República e com os demais equipamentos que compõem a rede da região; as reuniões da equipe, a intervisão dos casos (supervisão horizontal) e a supervisão institucional.

No início, estabelecemos uma parceria com uma assistente social da Ocupação Nove de Julho, profissional que atuava diretamente com os moradores e que estabeleceu uma profícua relação de transferência com a coordenação do Escuta Ocupação, sendo responsável por encaminhar os casos para atendimento clínico. Recentemente essa profissional foi demitida, o que chegou a colocar em risco a existência do projeto.

A chegada de uma nova profissional reconfigurou nossa entrada no território e nos desafia na tentativa de criar uma articulação tanto com a assistência social da Ocupação Nove de Julho, como com o próprio MSTC, e com a UBS da República, na perspectiva de construir e formar uma rede de atenção psicossocial que atenda a demanda crescente por atendimentos, assim como a produção de pensamento a respeito do que se produz na prática.

O projeto nasceu a partir de uma inquietação política e do desejo de um grupo de analistas de oferecer escuta clínica para os moradores dessas Ocupações, a quem o direito básico à moradia é inacessível, considerando esses territórios em suas contradições e complexidades e os efeitos trágicos da crise sanitária e política que vieram escancarar e aprofundar a crise econômica, a desigualdade, a vulnerabilidade social e o sofrimento psíquico do(a)s moradore(a)s.

O dispositivo trabalha voluntariamente na perspectiva da Clínica Ampliada, diretriz proposta pela PNH (Política Nacional de Humanização) e pelo SUS, que aponta a importância da dimensão da singularidade do sofrimento psíquico e a subjetividade de cada sujeito constituída nas e pelas relações sociais, culturais e políticas na prática clínica. Nessa perspectiva, “o sujeito é produto e produtor simultaneamente dos laços e discursos sociais”[2] e o trabalho de escuta acontece nessa imbricação entre o intrapsíquico e o social, o público e o privado.

É uma aposta na clínica pública de psicanálise que se propõe a escutar o sujeito e o território e experimentar a prática em sua potência de transformação política, na direção da democratização do acesso à Psicanálise e da emancipação e da liberdade dos sujeitos dentro do tecido social.

Escutar o território é escutar a partir do público, da localização, da história e da situação atual, escutar como esse coletivo nos constitui e nos subjetiva. Toda ocupação é lugar de exílio na cidade, uma Nau dos Insensatus (Foucault, 1972) contemporânea, composta pelos excluídos do sistema, aqueles a quem o Estado nega os direitos básicos, as políticas públicas de proteção social, de saúde, educação, cultura e segurança. Lugar “segregado” composto por vidas consideradas menores, corpos matáveis pelo projeto necropolítico (Mbembe, 2018) do governo fascista atual.

As relações de poder impostas pela lógica hegemônica neoliberal que categoriza raça, classe, gênero para justificar hierarquias em nome da normatividade, produz efeitos de domínio coletivos, subjetivos e singulares, tanto no campo macropolítico e social como na micropolítica das próprias ocupações.

A pandemia atravessou esses territórios e impôs um estado de emergência cujos efeitos traumáticos agudizam a situação de vulnerabilidade com aumento da miséria, do desemprego, de situações de violência de gênero, homofobia, racismo, adicções, suicídios, casos de depressão, ansiedade e todas as formas de manifestação do sofrimento, exigindo uma elaboração psíquica dessas experiências.

Nesse contexto em que o público e o privado se misturam, que a experiência de uma vida coletiva e compartilhada tensiona a experiência do privado e da subjetividade, há um desamparo do sujeito frente ao discurso capitalista que produz uma destituição psíquica (Setubal, 2021) ao impor uma forma de ser e de agir conforme essa lógica dominante.

A proposta de escutar o sofrimento desses moradores e moradoras no laço analista-analisando é uma tentativa de fazer frente a esse discurso e garantir o direito à fala, criando espaço para emergir o sujeito do inconsciente, seu sofrimento e sua singularidade, a partir da confiabilidade e da garantia de sigilo.

Essa atuação ética-clínica-política aponta para uma abertura epistemológica e para a não-hierarquização dos lugares de fala seja da equipe, seja dos sujeitos atendidos e para invenção de condições de possibilidade para que esses sujeitos venham a falar em nome próprio.

A escuta clínica como intervenção social é um exercício permanente de construção e interrogação da própria clínica e da teoria psicanalítica que a sustenta que é, também, atravessada por outros discursos, seus campos de saberes e seus efeitos. É uma clínica ampliada que não pretende dar conta de todos os desafios do campo social, mas aposta na democratização do acesso ao tratamento psicanalítico e na potência de escutar o sujeito do inconsciente e seu território, assumindo a prática psicanalítica como dispositivo de insurreição micropolítica (Rolnik, 2021).

 

 

 

Equipe do Escuta Ocupação:

Ana Goldenstein, Ana Paula Pacheco, Andrea Bivar, Ariane Leal Montoro, Beatriz Figueiredo Mello, Camila Coelho, Deborah de Paula Souza, Fernanda Franceschi, Janaína Bechler, Luciana Roos, Priscila Galvani, Raphael Galuppo Borba e Rita Alvares.

Supervisão Institucional: Maria de Fátima Vicente.

Referências bibliográficas:

·       AYOUCH, Thamy. Psicanálise e Hibridez, 2020 https://youtu.br/pV7_lpfWhT0

·      BRANT, Sebastian. A nau dos insensatos. São Paulo: Octavo, 2010.

·  FOUCAULT, Michel. História da loucura na Idade Clássica. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972.

·       GUIMARÃES, Daniel. Convite à prática pública de psicanálise. Outras Palavras.net.

·        MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 Edições, 2018.

·   SETUBAL, Tide. Territórios Clínicos. Uma escuta psicanalítica entre o singular e o social. In Percurso 67: p. 35 – 42: dezembro 2021. Instituto Sedes Sapientiae.

·     ROLNIK, Sueli. Esferas da Insurreição. Notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: n-1 Edições, 2018.

Agradecimentos:

Maria de Fátima Vicente, Rita Alvares, Maria Carolina Accioly, Dedé Ribeiro, Luciana Pires, Luciana Roos, Ariane Leal Montoro, Beatriz Figueiredo Mello, e especialmente à Ana Carolina Vásárhelyi de Paula Santos, pelo convite para escrever no blog.

Fernanda Franceschi é pedagoga, psicanalista, Mestre em Psicologia Clínica pelo Núcleo de Subjetividade da PUC/SP e faz parte da equipe do CAJU (Coletivo de Psicanálise, Adolescência e Juventude).



[1]  O nome do projeto foi inspirado no Escuta Sedes, mas são propostas distintas de atendimento. O Escuta Ocupação é uma proposta independente, não é ligada ao Instituto Sedes Sapientiae, ainda que a maioria das analistas da equipe tenham feito ou estejam fazendo sua formação teórica e clínica no instituto.

[2] SETUBAL, Tide. Territórios Clínicos. Uma escuta psicanalítica entre o singular e o social. In Percurso 67: p. 36: dezembro 2021.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Linha de frente: elos entre Bruno Pereira, o SUS e milicianos

No texto de hoje do Blog do Departamento de Psicanálise, nossa colega Mira Wajntal nos ajuda a ouvir o silencioso movimento de ocupação e corrosão de serviços públicos do país, convocando-nos a reagir com a força da presença de nossos corpos. Confiram!

 

LINHA DE FRENTE: ELOS ENTRE BRUNO PEREIRA, O SUS E MILICIANOS

Mira Wajntal


De coração dilacerado, mas com o corpo inteiro, assisto as maiores chacinas do país. Mariele, executada; Bruno e Dom, vítimas da selvageria de uma “terra sem lei”. Sim, há muitas outras vítimas, inúmeras, tantas que nem conseguimos listar. Um verdadeiro horror. Sim, estamos na casa dos 670 MIL mortos oficialmente contabilizados pela Covid! Fora os não contabilizados. Uma tragédia inadmissível! Há e haverá muitas sequelas desse período, na área da saúde e na esfera social e política. Restará muita desolação.

Temos que ir às ruas! É urgente! A pandemia foi para o regime antidemocrático mais eficiente do que o AI-5 para ditadura, nos impedindo de nos juntarmos, colocarmos nossos corpos em cena e resistir. Protegidos pelos modernos recursos de comunicação, que nos mantém em contato com os outros, mas, numa dimensão mais íntima, sem estarmos com ninguém, tiramos nossos corpos de cena. Não estou colocando a era digital como vilã, mas temos que manter uma redobrada atenção sobre o uso que fazemos dos recursos disponíveis. Atenção! Será que participamos, de fato, de alguma resistência apenas pela via virtual?

Bruno foi morto porque estava lá. Seu corpo estava na cena. Deixou filhos muito pequenos órfãos porque estava lá. Sábado, dia 18 de junho, o Sindicato dos Servidores Públicos organizou um ato clamando por justiça e homenageando a memória de Bruno e Dom. Conversando com os servidores da FUNAI, que são Servidores Públicos, concursados e com direito de exercer a função, dei-me conta de que nós, do SUS, temos muito em comum. Eles já são espécies em extinção. Nós, do SUS, espécies em vias de extinção. O nosso extermínio já vem desde o fim do século passado. Naquela ocasião, quando começou a caça aos Servidores Públicos, estavam sendo criados os conselhos tutelares, que fazem parte do estado, mas são geridos por uma lógica, por vezes, muito esquisita. São eleitos pela comunidade, mas quase ninguém sabe de sua eleição, e praticamente ninguém conhece seus candidatos. Mas há comunidades muito bem organizadas, que colocam seus representantes na linha de frente dos conselhos. Têm uma estratégia “colonizadora” muito eficiente e conhecida desde que os Jesuítas chegaram nessas terras – são as ”franquias religiosas”, regidas por líderes não teólogos. Sim! Elas dominam boa parte dos conselhos, agem como estado, regem-se pelos próprios valores e têm uma ação moralista, cujo intuito é tornar as famílias seus rebanhos. Foi a mesma estratégia da pessoa, creio que não concursada, que ocupou a vaga de Bruno Pereira quando ele foi exonerado do cargo que possuía na FUNAI, responsável pelos povos isolados.

O SUS, seguindo a funesta trilha da FUNAI, vem sendo cada vez mais terceirizado por Organizações Sociais, que, na teoria, devem ser reguladas e fiscalizadas pela Administração Pública, consequentemente, por seus servidores em extinção. Não é preciso dizer que, assim como a FUNAI, cujo contingente de recursos e trabalhadores é ínfimo, o SUS, em termos de regulação e fiscalização, está próximo disso.

Estamos diante da extinção dos setores que protegem a vida: saúde, povos originários e floresta. No SUS, a gente sempre diz que quem atua junto à população são os profissionais da linha de frente. Isso mesmo, linha de frente, como na guerra. Nossos corpos sempre ali, na batalha! Corpos mais do que exigidos, cansados, ameaçados e, muitas vezes, mortos. Bruno, presente! Mariele, presente! É redundante dizer quantos de nós morremos na pandemia do SARS-COV 2. É inútil revelar o temor de cada servidor em deixar seus filhos para ir para a linha de frente.

Sim! É muito confortável tirar o corpo de cena. É bem melhor não estar na linha de frente. Mas, ao procedermos assim, estamos entregando o nosso patrimônio mais caro - a própria vida! Mas para que e para quem estamos entregando nossas vidas?

Está mais do que na hora de colocarmos nossos corpos em cena. Está mais do que na hora de retomarmos nossa função social e a condução da vida, da justiça, dos povos originários e da floresta. Do contrário, estamos imersos na pretensa comodidade dessa profunda inação, somente assistindo de camarote a deterioração do meio-ambiente, da cultura e da vida.

Mira Wajntal é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, membro do GTEP, Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e servidora pública concursada por 30 anos. 

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Tempos de luto. Tempos de luta

Num momento político tão importante no mundo e, sobretudo no nosso país, o texto  "Tempos de luto. Tempos de luta", escrito pela nossa colunista M. Laurinda R. de Souza, nos traz algum alento, alguma esperança ao apontar os destinos possíveis do trabalho do luto. Aproveitem a leitura! 

 

TEMPOS DE LUTO. TEMPOS DE LUTA

Ao iniciar este texto, marquei a data:  2020. Hesitei. Em que ano estamos? 2020/2022? Hesitação tão significativa que imagino possa ter acontecido com vocês também. Efeito da pandemia? Efeito também do desejo? De que este tempo não tivesse ocorrido.

Efeito perturbador por revelar a sequela das experiências traumáticas destes dois anos. Anos em que registramos um aumento significativo do sofrimento psíquico com queixas de cansaço, perturbações do sono, ansiedade, problemas de memória, depressões, perda da noção de tempo e espaço, aumento da violência doméstica, aumento do uso de álcool e outras drogas, desemprego, fome. Efeitos da pandemia e muito também de um entorno violento e nada hospitaleiro. Entorno que nos produz desassossego, indignação e revolta.

O que é possível fazer?

Na década de 70, anos também assustadores, Madre Cristina, figura tão importante de nossa história institucional, tinha em sua sala uma gaiola com um pássaro dentro. No entanto, ao contrário do esperado, a porta da gaiola ficava aberta. Perguntei-lhe, afetuosamente, por que a porta aberta? Ela, com prontidão, me respondeu: quando se fica muito tempo preso, não se sabe mais voar.

Depois de tanto tempo isolados, saberemos voar? Depois de tanto tempo submetidos ao horror deste governo saberemos reconstruir o que perdemos?

Meu desejo é que o espírito dos Goliardos, esse espírito destemido e de potência nos acompanhe na construção possível de uma outra realidade Que esse espírito nos acompanhe, também, como lenitivo à melancolia e desesperança, provocadas pelas imagens e notícias que povoam cotidianamente o nosso mundo, e nos colocam face a face com o terror e a morte.

Em 1980, André Green, publicou um texto que se tornou referência em Psicanálise: A mãe morta. Nele, afirmava que a diferença entre as análises atuais e as de outros tempos estava localizada nas questões do luto. A figura da “mãe morta”, podendo ser deslocada para uma série de outros objetos amados e perdidos, reais ou irreais, como já demonstrara Freud em Luto e Melancolia. O atual referia-se àquela época em que foi escrito o texto, mas pode facilmente ser transportado para os afetos que vivemos hoje. Vivemos tempos de luto!

Lutos advindos das mortes por Covid – hoje próximas de 700.000

Lutos pelos ataques aos ideais de um país que vislumbrava e experimentava conquistas nos direitos humanos e no desenvolvimento da cultura e das artes, da educação, da justiça e da democracia.

Lutos pelas mortes e atos violentos decorrentes do Racismo, da xenofobia, da misoginia, dos que ousam manifestar sua diversidade sexual.

Luto pelo genocídio indígena e pela ocupação de suas terras. Nesta semana, no dia 25/4, o estupro e morte de uma menina yanomami de 12 anos por um grupo de garimpeiros, tornou-se mais uma imagem do horror desse genocídio. 

Lutos pela visão assustadora de corpos no chão, cidades demolidas, efeitos das guerras intermináveis, e, agora, mal o mundo vislumbra uma diminuição da pandemia, a guerra entre Rússia e Ucrânia.

Não é possível permanecer indiferente a essas tragédias e violências, a menos que o cinismo, a perversão e a hipocrisia nos blinde os olhos e a consciência. 

Não vou aqui retomar palavras que nos causam indignação, constantemente enunciadas por quem teria o dever de solidariedade, mas que, ao contrário, minimiza os efeitos desses lutos e nega com sarcasmo as violências sofridas.

Vou, antes, partilhar com vocês, um conto de Tchekhov que reli recentemente e que trata do vazio provocado pela ausência da solidariedade diante de uma dor que nos angustia. O conto chama-se, justamente, Angústia.  Foi escrito em 1886   e tem como epígrafe, uma pergunta: A quem confiarei a minha dor?

É preciso lembrar que na década de 1880 a Rússia era um enorme império. Mais de 80% da população vivia no campo, subordinada aos senhores feudais. O incipiente início industrial levou um grande contingente de trabalhadores para as cidades que ficaram, também, submetidos a péssimas condições de trabalho. O conto de Tchekhov inscreve-se nesse clima de pobreza e revolta. 

Trata-se da história de um cocheiro, Iona Potapov, que sob a neve, permanece com seu trenó e seu cavalo, num lugar central da cidade barulhenta e apressada, à espera de passageiros que lhe paguem pela subsistência. Carrega consigo uma dor. Perdeu o filho e não consegue encontrar quem possa escutá-lo.

“Não haverá, entre essas milhares de pessoas, ao menos uma que possa me ouvir?”

Tem fome de palavras que o aliviem da angústia que o atravessa e transborda. Ao final, Tchekhov nos diz que o cavalo, ao ouvir as palavras do velho cocheiro, sopra nas mãos de seu dono. Este, então, lhe conta a história desse filho que acabara de morrer.

O lamento de quem vive hoje a tragédia das mortes, da invasão de suas terras, da quebra das barragens, da lama que invade as terras, as casas, os vales e rios, das enchentes provocadas por catástrofes climáticas, pede, como Iona Potapov, que essas histórias sejam reconhecidas. Que algo seja possível fazer para que essas mortes e tragédias sejam evitadas.

E, pedimos todos: que haja punição aos responsáveis por elas.        

Ouçamos um desses lamentos. Ele nos chega pela voz de uma jovem-menina que viveu a tragédia-crime de Brumadinho. Tragédia ocorrida há 1.194 dias.

“Quando a lama chegou, não houve tempo. Minha mãe tentou salvar os poucos móveis da casa desmoronada. Meu pai arrastou o berço com minha irmã pequena. A lama cobriu tudo.

Perguntei: mãe, cadê João?, cadê Pedro?, cadê tia Zeferina?, cadê tio Zeca?

Às perguntas pelos ausentes não houve respostas. Vieram depois quando os corpos foram encontrados. Alguns nunca o foram. Ficaram ali. Tiveram enterro de barro.

“Menina, diz-lhe a mãe, não pergunta mais. Eles estão lá nas covas do deslizamento. Eu, estou aqui à espera da minha que também será coberta pelo barro”.

M. Laurinda R. Sousa é membro do Departamento de psicanálise, psicanalista e escritora. É colunista do Blog do Departamento.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Porque hoje é 28 de abril

A colunista do Blog, Maria Laurinda, faz uma leitura encarnada destes tempos sombrios, e incita-nos a colocar em ato uma nova utopia, o resgate de nosso país. Uma leitura necessária. Confiram.

PORQUE HOJE É 28 DE ABRIL

Dia Nacional em memória das vítimas de acidentes e doenças do trabalho, é necessário falar sobre as condições do trabalho, do desemprego, da fome e da orfandade. 

É necessário, também, colocar em ato uma nova utopia.

No Brasil, a cada 50 segundos há uma notificação de acidente de trabalho. Na última década foram registrados 33.568 óbitos decorrentes de acidentes de trabalho; muitos deles, assim como as mortes por COVID, poderiam ter sido evitados.

A taxa de desemprego no país é a 4ª. maior entre as principais economias do mundo; mais que o dobro da taxa média global.

Há um número crescente de pessoas em situação de desalento e, mesmo as que estão em vínculo formal, são submetidas a exigências abusivas de desempenho. Efeitos da precarização, uberização e plataformização do mundo do trabalho.

Meritocracia, empreendedorismo, competitividade, presenteísmo, são termos que precisam, sempre, ser acompanhados de uma análise crítica e reconhecidos seus efeitos na saúde física e mental.

Temos consciência todos do aumento absurdo dos moradores de rua; basta não fechar os olhos para as tendas, farrapos e arremedo de colchões espalhados pelas ruas, pelas praças. A maioria dessa população sem teto, sem trabalho é preta ou parda.

Cerca de 19 milhões de pessoas passam fome no país.  Mais da metade da população vive situação de insegurança alimentar, sendo as crianças as maiores vítimas dessa tragédia.

Temos hoje muitas crianças, pequenos vendedores ambulantes, esgueirando-se entre os vãos das fileiras de carros; no meio das ruas. Meninos desamparados; órfãos de futuro. Crescem como outros, iguais a eles, assumindo os riscos de uma infância abortada.

Temos hoje mais de 300.000 crianças e adolescentes órfãos da covid e muitos em situações precárias. O Brasil ocupa o terceiro lugar nesse índice, atrás apenas do México (o de maior índice) e dos EUA.

Em entrevista recente, Christian Laval, professor de Sociologia da Université Paris Nanterre, coloca uma lente sobre o que vivemos neste momento: “o novo é a manifestação cada vez mais aberta e assumida do caráter violento e autoritário do neoliberalismo em qualquer uma de suas variantes históricas e nacionais. O que vemos agora, em plena luz, é uma nova guerra civil mundial. Uma guerra social, porque busca enfraquecer os direitos sociais da população; étnica porque pretende excluir os estrangeiros; política e jurídica, utilizando novos meios de repressão e de criminalização da esquerda e dos movimentos sociais; cultural e moral ao atacar os direitos individuais e as evoluções culturais das sociedades”.

Sim, essa é uma análise importante sobre o mal-estar do nosso tempo, mas a despeito desse difícil momento, é preciso reconhecer a força da resistência; as vozes que se organizam em coletivos de solidariedade, de denúncia, de ocupação das ruas. 

A sabedoria popular nos diz que uma andorinha só não faz verão. Mas juntas, podem fazer uma revolução.

João Cabral de Melo Neto, poetizou: “Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele o lance a outro...para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos”.

Meu grito, que vai convidando outros, lança os seguintes desejos:

Que possamos resgatar a alegria e sabedoria dos foliões do carnaval, reconhecendo e denunciando as mazelas de nossa história atual;

Que possamos resgatar a força dos coletivos e dos laços sociais;

Que o Estado da força, das armas, se transforme num Estado que possibilite a garantia dos Direitos Fundamentais para todos: educação, moradia, trabalho, seguridade social, arte e literatura;

Que, ao lado dos povos indígenas, nos tornemos guardiões de seus territórios, da floresta e da vida;

Que todos juntos possamos mudar o rumo do país nas eleições deste ano;

Que lotemos os cinemas para assistir “Medida Provisória”, filme dirigido por Lázaro Ramos.


M. Laurinda R. Sousa é membro do Departamento de psicanálise, psicanalista e escritora. É colunista do Blog do Departamento