Blog do Departamento de Psicanálise

O Blog do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes é um dos veículos de comunicação em que circulam informações, produção de conhecimento, experiências clínicas e de pesquisa de seus diferentes membros. A interlocução com o público, dentro e fora do Departamento, é uma maneira de disseminar a troca no campo da Psicanálise e possibilitar a ampliação do alcance das reflexões em pauta. Equipe do Blog: Ana Carolina V. de Paula Santos, Fernanda Borges, Gisela Haddad e Gisele Senne de Moraes.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Pequena reflexão sobre a clínica na quarentena


Como no dia da marmota apresentado no filme Feitiço do Tempo (1993), para as pessoas que estão em isolamento social os dias tem sido sentidos como uma contínua repetição de mesmos fatos, um cotidiano impedido de descontinuidade. Nossa colega Ana Patitucci tece reflexões sobre a necessidade de enlaçar a repetição cotidiana com movimentos de vida.

PEQUENA REFLEXÃO SOBRE A CLÍNICA NA QUARENTENA

A condição humana é trágica. Freud a descortinou em Além do princípio do prazer, ao identificar e nomear a pulsão de morte, formulá-la como o par antagônico da pulsão de vida e considerá-las a base de nossa existência. Ao longo da história da humanidade, essa condição se tornou explícita principalmente nos períodos onde as tragédias inundaram o cotidiano, tal como nas grandes guerras. Vivemos, agora, algo dessa ordem.  

Nesse ano que se completa o centenário do ensaio que marcou a virada teórico-clínica na obra freudiana, eis que o mundo inteiro se vê frente à ameaça da pandemia do Covid-19 e aos enormes desafios que ela encerra. No Brasil, essa grave situação se tornou ainda pior devido ao duplo flagelo que nos abateu: o político e o surto pandêmico. Ambos carregam a marca indelével da pulsão mortífera, que parece correr solta pelo país.   

Desde então, tenho pensado, com uma sensação constante de urgência, nas maneiras de fortalecimento de nossa conexão com a pulsão de vida, seja no campo privado ou coletivo. Neste último campo, as ações políticas solidárias e de enfrentamento ao Covid-19 que estão sendo organizadas pela sociedade civil se multiplicam, o que é um alento. E, na singularidade de nossos consultórios, os sentimentos que são comuns a toda a sociedade se manifestam: incertezas, medos, angústias, raivas, dúvidas e perdas; mas também esperanças, descobertas e as possibilidades criativas de enfrentamento do isolamento social.   

Sustentar as transferências nesse momento de pandemia torna-se desafiador, a meu ver, por estarmos todos, analistas e pacientes, imersos na mesma situação.  

Dentre as várias questões presentes atualmente na minha clínica, abordo aqui algo que tenho percebido nos últimos dias da quarentena, que segue sem data de término: a importância da descontinuidade em nosso cotidiano. Depois de quase dois meses, tem se intensificado as queixas dos pacientes sobre a sensação de que todos os dias é a mesma coisa, de que nada acontece – embora tenham muitas tarefas, domésticas, com os filhos e com o trabalho –, uma repetição sem fim dos dias, como se estivessem presos em um eterno dia da marmota. Com a impressão de presente contínuo, aumentam as irritações, a ansiedade, o tédio, a insônia, o desânimo.  

A recorrência dessas queixas me evocou a lembrança de uma entrevista do filósofo Emil Cioran, publicada há anos atrás na Folha de São Paulo, na qual ele falava sobre a insônia que o acometeu durante anos seguidos e pela qual se deu conta da angústia que dá a vida contínua: a vida se torna insuportável sem a pausa necessária ou aquilo que a descontinua.

Tal reflexão me levou a pensar na experiência de um presente contínuo e de vigília constante, característicos do período de isolamento social, que embaralha nossa vivência do tempo e nos mergulha numa realidade de uma concretude perigosa, sem horizontes. Além de considerar que essa situação difícil pode ainda se agravar pelas perdas traumáticas que a doença e o isolamento impõem.

Dessa forma, podemos aguçar a escuta para mobilizar os recursos psíquicos que possibilite, cada um a seu modo, encontrar as brechas da descontinuidade no cotidiano repetitivo. Pois a descontinuidade configura aqui a possibilidade de abrir espaço interno para o sonho, a associação, a imaginação, um jeito de ampliar os horizontes. Essa é a condição de criar, de construir narrativas – esse recurso tão precioso de ser acessado em uma análise – sobre o que é vivenciado, com maior ou menor intensidade traumática. Esse me parece, então, um dos modos de fortalecer o laço com a pulsão de vida e tentar evitar que o trágico de nossa condição não se materialize em mais tragédias. 

Que nós, analistas, possamos mobilizar e sustentar em nós e em nossos pacientes os recursos psíquicos e afetivos necessários para a construção dessas narrativas e, então, somar os esforços de enfrentamento desse momento difícil e incerto que estamos atravessando.

Ana Patitucci – Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Integra a equipe de entrevistas da Revista Percurso e o Grupo de Trabalho e Pesquisa em Psicanálise com crianças e adolescentes.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Caminhos de uma comunidade psicanalítica


"Quando o absurdo e o caos nos atravessam, temos que nos ocupar deles. Não há lugar seguro, uma outra cena ou um pedaço de oásis a que se recolher. Não há, nesse momento, um suposto saber que nos diferencie e nos encastele."
Thiago Majolo tece seu texto conclamando os cidadãos psicanalistas. Confiram!

CAMINHOS DE UMA COMUNIDADE PSICANALÍTICA

 Sabiam agora que, se há qualquer coisa que se pode desejar sempre e obter algumas vezes, essa qualquer coisa é a ternura humana. 
Albert Camus. A peste


Há 45 anos, exatamente em 1975, as bases para o Curso de Psicoterapia de Base Analítica dava corpo a uma ideia que, no decorrer dos anos, estruturou a ética teórica e clínica do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae. Essa ideia, que na época Madre Cristina compartilhou com Regina Schnaiderman e Roberto Azevedo, propunha uma alternativa à Sociedade Brasileira de Psicanálise na formação de psicanalistas. No berço de seu nascimento, era uma ideia que recuperava uma convocatória que Freud fizera em 1919, no seu artigo “Caminhos da psicoterapia psicanalítica”, ao escrever que chegaria um tempo em que o tratamento do sofrimento psíquico seria um direito de todos, e não um privilégio de poucos. Para que isso ocorresse, a sociedade brasileira da década de 70, vivendo sob o martelo terrível da ditadura, carecia de uma escuta implicada no social, na política, nas manifestações populares, e longe do sacerdócio asséptico de um suposto saber distante da realidade efervescente.

Hoje, 45 anos passados, estamos aqui reunidos à distância, por esse e outros canais digitais, diante de uma realidade não menos dura e assustadora, enfrentando uma pandemia triste e um governo perverso. Temos usado esse espaço do blog, como membros irmãos de um mesmo Departamento, para compartilhar desafios e dores. E é justo que assim o façamos, pois a cada um de nós cabe seus próprios sofrimentos, e esse é um espaço fraterno de trocas.

Mas não nos esqueçamos de onde estamos, daqueles que nos precederam e para quais consagramos nosso desejo de pertencimento ao Departamento de Psicanálise. Essa ideia, que atravessa quase meio século, nos une ainda agora como membros de uma mesma comunidade, dedicada a ampliar as fronteiras da escuta psicanalítica nas suas dimensões teórica e clínica. E é certo de que nesse momento temos todos nós capacidade de fazer muito mais e melhor do que apenas prosseguir no atendimento aos analisandos sob a égide de uma aparente normalidade absente. Como psicanalistas e cidadãos, temos todos recursos materiais e simbólicos para enfrentar com coragem e decência o absurdo do vírus e a perversidade do autoritarismo, a começar pela maneira com que nos relacionamos com nossos atendidos e a posição em que nos colocamos nos encontros com eles.

Durante a peste de Marselha, no século XVIII, o bispo Belzunte, já no fim da epidemia, acreditando ter feito tudo o que podia para sua população, de quem era uma espécie de ídolo, trancou-se em sua casa murada, repleta de víveres necessários para a sobrevivência, esperando resistir ao fim da epidemia. A população, em revolta, passou a entulhar cadáveres à sua porta e, para garantir que ele se infectasse, atirou corpos para dentro dos muros de sua casa.


O conhecimento psicanalítico atravessará os longos fios de fibra ótica e as ondas dos satélites, sustentará os atos analíticos no socorro às vítimas e aos mais ou menos vulneráveis, estará irmanado na conversa horizontal entre analistas e analisandos sobre a mesma realidade que os toca, sem muros que os separem. E, com muito engenho e arte, ao sair do outro lado, estará transformada. Apenas transformada ela poderá seguir sendo ainda útil e relevante.

Não consagrarei este ou qualquer espaço como obra acabada. Assim, o esforço dos que me precederam não terá sido em vão. Dedicarei, com a esperança de companhia de meus membros irmãos, uma busca que vai para muito além do tempo que me cabe viver, na construção de uma psicanálise jamais servil a uma doutrina, nem mesmo à própria, mas constituída por uma prática clínica a serviço do povo.

Thiago Majolo é psicanalista e mestre em História Social pela USP, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e membro da Comissão de Debates da Revista Percurso.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Efeitos desse Tempo


Em Efeitos desse Tempo, Yone Maria Rafaeli trata do descompasso que vivemos. Da brecha funda que se abriu entre tempos, entre o lembrado e o não sabido. Já que sabemos pouco, cuidemos do perto.

 Foto créditos - J. Enrique R. B. Pico

Efeitos desse tempo.                                                      

Ainda tenho quatro bananas.

Ainda tenho 2 horas para chegar em casa, tomar banho, me arrumar e chegar ao cinema...

Nossa!  Combinei com a Cléo que estaria no café do teatro as 19:30 horas... Estou atrasada, mas já estou chegando...o trânsito está péssimo, mas o waze me diz que em meia hora eu chego.

Cenas de janeiro de 2020 no calendário.  Não passou tanto tempo assim, mas no registro das memórias elas estão bem longínquas.  São cenas que não fazem links com as experiências do momento.  Não tem sessão de cinema para ir, não tem mais café marcado com as amigas.

A nostalgia do vivido retorna quando minha irmã diz na tela do celular:  vou te mandar uma receita de bolo deliciosa e que é uma porção individual – lógico que é essa que eu preciso, já que estando eu sozinha, o último bolo que fiz teve que ser congelado, pra não comer tudo sozinha, antes que estragasse por falta de convidados.

Recebo a receita: bolo de rum. Mas será que tenho rum aqui em casa?

Sim, aquela garrafa que comprei na viagem à Cuba. Viagem maravilhosa!  Passeios pela ilha de Fidel: Havana, Varadero, Santa Clara, escadarias de música, mar do Caribe, todos juntinhos dentro de um carro, cantando com o motorista cubano – que alegria!!!  Cenas sem data para se repetir?

Hoje pela manhã escuto no Podcast Café da manhã, sobre os passaportes da imunidade – o planeta entrando em nova era para podermos circular pelo mundo. Agora, há risco de formarmos castas a partir dos controles sanitários.

Novas referências para se relacionar.  Sem abraços, sem beijos, mas máscaras, álcool gel, distanciamento físico e social.

Todas as telas que se abrem me fazem lembrar e relembrar a cada minuto, que sou grupo de risco, que posso ser riscada da vida como os quase 11 mil mortos. 

Tristeza e dor da perda dos entes queridos, que ficam sem poder ser ritualizada, dor que dói e vai doer mais e mais....

Dor de ver nossa herança musical indo....

Resposta do tempo: “sussurra que apaga os caminhos... aprisiona e liberta... o tempo... ele zomba de quando chorei, ele sabe passar e eu não sei... sussurra que apaga os caminhos... mas eu desperto, eu posso, ele não vai poder me esquecer.”

Túnel do tempo; quem me dera agora eu tivesse alegria, alegria, para caminhando contra o vento, houvesse uma Roda Viva, com voz ativa pro nosso destino mandar.

Mas eis que chega o destino e leva o tempo a girar, sem direção. Não posso no meu destino mandar.

Prepara o seu coração pras coisas que ainda não sei contar, tempo de ver a morte sem chorar, que está fora do lugar, vai dando voltas no meu coração, em Disparada.

Hoje, eu só sei que daqui a 4 dias, vou ao mercado comprar bananas.

Yone Maria Rafaeli é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, ex-membro do Serviço de Psicologia da Derdic-Puc-SP.  É coorganizadora do livro Audição, Voz e Linguagem: a clínica e o sujeito. São Paulo: Cortez, 2006.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Clausura


"Clausura"! Neste texto Cristiane Gonzalez fala sobre o enclausuramento neste momento de isolamento social. A autora aborda a questão do encontro e do desencontro com o Real, com a realidade e com o outro que se ouve e se vê de longe.

CLAUSURA
Cristiane Gonzalez

Comecei com a quarentena em primeira pessoa. Minha visão particular do isolamento, em casa, sozinha, e tomada pelo trabalho que acelera além do limite, oprime e atropela, desconectado do que acontece lá fora. A lógica corporativa, dos objetivos antes que as pessoas, se reafirma e acentua a sua natureza cindida. Pandemia, que pandemia? Cumpram-se os prazos!

O texto nem chegou a tomar fôlego, cortado no primeiro filtro. Da total e concreta insanidade em que estamos imersos, desviar o foco para a loucura corporativa se revelou o delírio do delírio. De repente era eu que dava mostras de romper com a realidade.

E se nada mais parece cabível perante esse Real onipresente e esmagador, restaria ele mesmo como tema. A começar pelo título – Pandemia – me lancei a dissecar essa ameaça colocada por um predador invisível à população dominante do planeta.

Subitamente acuados e enclausurados no topo da cadeia alimentar, assistimos a acontecimentos até então impensáveis, das vacas invadindo as praias da Córsega, ao tubarão baleia que se aventura pela Baía da Guanabara. E a julgar pela singularidade dessa ameaça adaptada sob medida ao homo sapiens, é de se conjecturar se não seríamos apenas as vítimas da vez, submetidas ao movimento natural de reequilíbrio ambiental que de tempos em tempo atinge algumas espécies, em geral menos nobres que a nossa.

Estanquei no terceiro parágrafo, constrangida pela pretensão científica e fundura de poça.

Finalmente, sem encontrar voz, tomo emprestada a voz de um vizinho, que noites atrás rompe o silêncio da quarentena gritando a plenos pulmões, A casa é minha e não quero mais você aqui!

Uma cena longa e dramática. Sem raiva, ele urrava de dor, sempre a mesma frase, repetida muitas vezes, contaminando a vizinhança com a sua angústia. Não se ouvia contra argumentação, e nem parecia haver uma. Repetia sem variantes, apenas aquela declaração de desejo, e não desejo, que parecia endereçada mais a si mesmo que ao outro.

Vesti aquele personagem trágico, que ao afirmar a sua pretensa superioridade traía, ao contrário, o quão assustado estava diante da própria vulnerabilidade. Não queria mais o outro, na sua casa, mas vacilava terrivelmente ao encarar a perspectiva apavorante do confinamento solitário.

Fantasiei as pequenas traições do outro, sua falha em demonstrar o reconhecimento esperado por ter sido recebido ali, naquela casa – possivelmente uma casa melhor que a sua própria – agindo com naturalidade e desenvoltura flagrantes, e denunciando desse modo a fragilidade do arranjo.

Aquela frase, repetida tantas vezes, a casa é minha e não quero mais você aqui, era o último recurso dele para afirmar a validade de uma dívida que o outro não reconhecia, e que por isso expunha a sua própria.

No dia seguinte, com o sol entrando pela janela, escancarada na noite da véspera num impulso de pouca coragem, ele sonha com o mar. Com os pés enterrados na areia morna, se dá conta de que não escuta o rumor característico e constante do mar, mesmo quando muito calmo, e estranha. Uma brisa leve alivia o suor que escorre pelo seu pescoço, mas a brisa não tem cheiro de mar, o que derruba a fantasia do sonho. Mar sem cheiro não é mar. Será que perdi o olfato?

Pela altura do sol já é bem tarde. Preciso ligar no trabalho, dizer que não me sinto bem, logo vão notar que estou offline. Não é nada, apesar de ter perdido o olfato. Não, aquilo era sonho, não tem mar nenhum aqui, nem areia, só esse sol rachando.

Digo que não estou bem, não preciso dar detalhes, se bem que o protocolo nestes dias é o de escrutinar o bem e o mal-estar de todos, como se fosse informação de interesse coletivo e domínio público. Vão querer saber.

Surtei, em maiúsculas. Armei um barraco épico, enchi a cara, tomei uma cartela de comprimidos. Estou aqui, torrando, e não consigo me livrar do maldito sol.

Abandono o texto no dia seguinte, perturbada pela frieza impregnada no tom, pela ausência de alma. Não me reconheço naquele aparente embrutecimento.

O personagem analisa a reação dos vizinhos. Os que pediam calma, os que reclamavam silêncio, e os que, como eu, simplesmente acompanhavam sem dizer nada, todos de algum modo participando do seu drama, pegando carona em sua catarse. Aponta que lavaram a alma, como ele, apenas sem correr nenhum risco, a uma distância segura.

Fecho o computador e saio para o mercado carregando um incômodo, refletindo sobre esse amortecimento das emoções que a escrita denuncia.

A imagem que se forma é a de uma comporta, como as que regulam o nível dos canais, e que a cada mínimo transbordamento da maré, movem as suas engrenagens e, suspensas, fecham um pouco mais o sistema, e impedem alagamentos de outro modo incontroláveis.

Uma defesa, erguida para a contenção de um excesso ameaçador, além do suportável, e potencialmente capaz de arrastar tudo, mas não chego a decifrar sua natureza, nem razões.

Dobro e a esquina e, num sobressalto, dou com a ambulância estacionada alguns passos adiante.

Continuo pela mesma calçada, ou atravesso para o outro lado da rua?

Os socorristas vão entrando pelo prédio paramentados com a proteção possível, e possivelmente insuficiente, e me comovo por eles. Aperto o passo pensando em quem espera no apartamento, desesperando sem ar, e me desespero também, por um minuto. Então oscilo, da comoção pelo outro, para o alívio culpado, de ser o outro.

Num movimento já familiar, a comporta se ergue, fechando um pouco mais.

Cristiane Gonzalez Gomes é psicanalista e engenheira, mestre em Sistemas de Informação. É aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Nelson Rodrigues e o Problema Econômico do Psiquismo


Nossa colega Gisele Senne de Moraes evoca trechos de duas perturbadoras crônicas de Nelson Rodrigues sobre a gripe espanhola para pensar a angústia nos dias atuais.

Nelson Rodrigues e o Problema Econômico do Psiquismo
Gisele Senne de Moraes

Em meio às recorrentes mensagens virtuais, recebi um link para uma página do site da Biblioteca Nacional com o seguinte título: “Quem não morreu na Espanhola? - Memórias de Nelson Rodrigues no Correio da Manhã”, onde são lembradas duas crônicas deste autor sobre a gripe espanhola (“peste”). Nelson Rodrigues tinha seis anos quando a “peste” assolou o Rio de Janeiro. Suas agudas palavras nos conduzem para memórias de uma tragédia. Recomendo a leitura das crônicas, publicadas nos dias 08 e 09 de março de 1967, no Correio da Manhã (link no final do texto).

“A morte estava no ar e repito: - difusa, volatizada, atmosférica; todos a respiravam”, disse o autor. Esta passagem me fez pensar no comentário de um paciente que disse, no início da pandemia, ter a sensação de que um tsunami nos espreitava. Já havia tensão no ar, notícias de mortes advindas do desamparo chegavam então da Itália. Note-se, não se tratava de qualquer morte, era a morte resultante da incapacidade do humano em oferecer cuidados; que impunha aos representantes da medicina uma escolha impossível; abafada, solitária e difícil de engolir. Semana após semana, ouvimos a repetição do mantra de que agora a onda chegaria, o que talvez tenha contribuído para o acúmulo de tensão no ar. Na atmosfera, a morte ainda não dominava, havia mais a incerteza sobre o porvir, algo, diga-se, inerente à vida, mas que tratamos de esquecer para podermos ter alguma sensação de constância.

Agora nos acompanham o crescimento das mortes, com rostos desconhecidos ou não, além do excesso de números, gráficos, projeções, opiniões de especialistas... Somados a um sem número de incertezas que permanecem: funcionamento do vírus, (in)capacidade de nossos sistemas de saúde, polifonia de discursos sobre o enfrentamento da tempestade, que já nos assola... Tudo isso aumentando a tensão em nossos ares. 

Fiquei imaginando o acúmulo de tensão no ar, difusa e volatilizada, tal como energia sem objeto. Isso é Freud, lembremos do Pequeno Hans, cuja fobia fornecia objeto (ligação) ao acúmulo de tensão. Na inexistência de objeto, a angústia pode entrar em jogo massivamente. Em Silvia Bleichmar, que acompanha Freud, essa tensão poderia ser compreendida como uma energia caótica produtora de agitação, inclusive corporal. Lembremos, com Freud e Bleichmar, que o psiquismo humano busca conciliar as diferentes instâncias com o menor gasto energético, prerrogativa do princípio do prazer/desprazer. No entanto, o caminho depende da capacidade que cada psiquismo possui para lidar com o acúmulo de tensão. Esta ideia talvez nos forneça alguns elementos para refletirmos sobre diversos fenômenos que acompanhamos em nossas clínicas: da dificuldade de concentração à certa confusão relacionada à temporalidade, por exemplo. Não cabe aqui aprofundamentos, citei Bleichmar pois ela traz contribuições para estas reflexões.

Diante da possibilidade de angústia massiva, algo capaz de implodir nosso psiquismo, podemos lançar mão de uma série de defesas psíquicas. Poderia haver na negação do risco, talvez presente em muitos dos que parecem não temer contágio, uma defesa psíquica? Ou poderia a preocupação exclusiva com a economia, em pessoas que possuem condições financeiras, ter algo de defensivo, talvez angústia deslocada da possibilidade real de morte? Não sei, em psicanálise, cada caso é um caso.

Traduzo uma frase de Carlos Schenquerman sobre sua experiência durante os terremotos de 1985, que arrasaram a cidade do México: “Um pouco como brincadeira, um pouco sério, já esgotado pela tensão vivida e pela montagem dos acontecimentos históricos que determinam o que Freud chamou de séries complementárias, eu disse: ‘Basta, acabem conosco de uma vez” (p.10). A certeza do fim se mostrava, por um átimo, menos sofrida que a angústia da incerteza.

Voltemos a Nelson Rodrigues: “A peste deixara nos sobreviventes, não o medo, não o espanto, não o ressentimento, mas o puro tédio da morte. Eu me lembro de um vizinho perguntando:-‘Quem não morreu na Espanhola?’”. O tédio indiferença diante da morte poderia, neste relato, estar em composição com uma escolha pela vida? Novamente, não sei. Tudo que me cabe, por enquanto, é dar asas para minha imaginação, ela pode sair por aí e voar. E fiquei aqui, mais uma vez, imaginando. Agora sobre o quanto da tragédia vivenciada pelo menino restou na força do texto rodrigueano.

Referências Bibliográficas:
Schenquerman, C. (2010). Prólogo. Em: Bleichmar, S. (2010) Psicoanálisis Extramuros: puesta a prueba frente a lo traumático. Buenos Aires, Argentina: Editorial Entreideas.

Gisele Senne de Moraes é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Sedes, doutoranda e mestre em psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

O divã de Drummond

Rafael Pinto Morais é estudante do primeiro ano do Conflito e Sintoma do Departamento de Psicanálise. Escreve neste artigo, através da leitura de alguns poemas de Drummond, a respeito da travessia que tem que ser encarada por aqueles que não são tão covardes para serem otimistas.
Não estamos plenos. Nos sentimos impotentes e desamparados. E daí?

O DIVÃ DE DRUMMOND
Por Rafael Pinto Morais*
Considero Elegia 1938 o poema de maior beleza da chamada fase social de Carlos Drummond de Andrade. E desconfio que não esteja sozinho. Em uma série de vídeos de renomados artistas recitando Drummond, que pode ser acessada no Youtube,  Caetano Veloso tem em mãos justamente esse poema. Em uma primeira tentativa de enunciá-lo, Caetano não consegue: com voz embargada, ele suspira e seus olhos se enchem de lágrima. Ao invés do poema, silêncio, uma dor, o corte para o segundo take, e só aí aparece a bem sucedida declamação. 
Ao longo de Elegia 1938, o eu lírico apresenta-se em tensão com a realidade objetiva.  A temática do desconcerto está presente. O mundo caducou. Seus heróis, imortalizados em estátuas nas praças, preconizam virtudes e a concepção, mas, frente ao leve contratempo de uma garoa, fogem acovardados para a proteção de bibliotecas. Qualquer demanda por formas e ações que possam servir de conforto ou guia não é contemplada.
Porém, engana-se quem vê nessa imagem algum indício de fraqueza. Não há rachaduras na engrenagem social. Esse Outro tem a força da Grande Máquina - fria, impessoal, indecifrável à compreensão dos sujeitos, irretocável às suas ações. Todas as manhãs, o despertar repõe em cena o eu lírico pequenino e impotente, que não deixa de ter sua parcela de responsabilidade, já que se entregou à burocracia da repartição, à literatura, à conversa com os mortos. O tempo de semear já passou, e resta ao coração orgulhoso certa resignação: “Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição porque não pode, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan”.
O cenário do poema seria totalmente desolador se não fosse pela presença de pequenos vestígios que remetem à possibilidade de mudança das coisas presentes. Sim, os ventos da revolução, ainda que de modo singelo, se fazem ouvir.  Em certa passagem, o leitor se depara com a menção a uma felicidade coletiva que pode surgir em outro século. No último verso, escondida entre vírgulas, a sorrateira palavra sozinho faz o apelo singelo à união dos homens para que protagonizem o grande combate que reconstruirá tudo.
Aqui Drummond aparece filiado a uma longa tradição na filosofia política que elege o medo e a esperança como afetos centrais a partir dos quais se pode descrever/prescrever as experiências políticas. Se aos olhos do sujeito o mundo é sombrio e capaz de triturar cada expressão de uma singularidade, cada gesto espontâneo; se o temor assola os homens cujas mãos estendidas encontram o vazio, resta a esperança de uma proposição de conteúdo positivo. A ela se deve recorrer; por ela se deve lutar.  
A psicanálise nos ensina uma dinâmica bem mais interessante: a da política do desamparo, seus riscos de alienação e possibilidades de separação. Freud nunca afirmou a existência de uma normatividade imanente a partir da qual se constroem os sentidos para a vida. Desse modo, não apenas nos primeiros processos de constituição do sujeito, mas também ao longo de suas mais variadas experiências, o desamparo é a condição primordial e o ponto de partida para algum tipo de compromisso com as determinadas formas e reivindicações da civilização. Para os sujeitos, os resultados podem ser mais ou menos felizes, podem trazer maior ou menor abertura ao exercício da liberdade. Tudo depende de como lidam com seus embates internos e externos.
Lacan, mais adiante, afirmará que o verdadeiro ganho de uma análise surge quando o sujeito reconhece seu desamparo e a impotência do Outro em lhe dar qualquer sustentação. Nessas condições de afirmação da indeterminação, da contingência e do reconhecimento da fragilidade de si e do Outro, o desejo está liberto: ele passa a operar em um registro diferente daquele em que somente empreende a incessante busca por satisfação nos processos de objetificação.
De modo geral, em psicanálise não há muito espaço para o par indissociável medo- esperança. A reassunção do desamparo evita que o sujeito se deixe enredar na repetitiva procura por reparação, cuidado, plenitude, que mais paralisa do que impele a uma travessia. Problematizam-se as ações que são levadas adiante à luz dos preceitos e das prescrições do dado objetivo.  Dissipam-se as expectativas de um futuro sempre por vir, cujas imagens estão justamente marcadas pelo temor - e covardia - diante dos perigos presentes. Coloca-se em suspensão tudo o que é posto pela fantasia que se constrói a título de refúgio. De modo geral, não há mais lugar para o didatismo, para a positividade que pode, com sua força totalitária, fechar o universo da criatividade, da espontaneidade e da pluralidade.
Voltemos agora a Carlos Drummond de Andrade para lhe fazer justiça. O tom de sua poesia muda com a publicação de Claro enigma, em 1951. A irreverência modernista, a vontade de comunicação e o ímpeto de ação transformadora dão lugar à desordem, à dissolução, ao desengano. Em outros termos, o medo e a esperança são trocados pelo desamparo - e sua potência. Vejamos apenas dois casos.
No poema Amar, o amor é nossa condição, e aparece prescindindo de quaisquer condições para que se atualize. O que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?  O sujeito deve apenas se lançar, sem promessas, sem medidas, sem fantasias, sem esperar nada em troca, ou até mesmo sabendo que receberá ingratidão. A entrega aos seres e às coisas do mundo - valorosas, pérfidas ou simplesmente nulas - é o que verdadeiramente importa. O ato possui um fim e um valor em si, e não fora, em algo que está situado no além. E como se esse gesto não fosse corajoso o bastante, ainda que haja falta de amor, ainda que haja tal secura, deve-se amar o que poderia saciar mas não está presente - a água implícita, o beijo tácito. E como se isso ainda não bastasse, deve-se amar mesmo a própria sede infinita.  
Em outro poema, surge uma personagem conhecida na literatura, a máquina do mundo. Aqui ela se abre majestosa e circunspecta a um eu lírico desenganado, que caminha por uma estrada pedregosa de Minas. Cabisbaixo, ele parece não buscar os segredos da existência, porém todos estão ali, escancarados diante dele. A máquina do mundo convida à contemplação da natureza mítica de todas as coisas; sussurra uma irrecusável oferenda: vê, comtempla, abre teu peito para agasalhar a riqueza sobrante a toda pérola, essa ciência sublime e formidável, mas hermética, essa total explicação da vida, esse nexo primeiro e singular, o que foi pensado, os recursos da terra dominados, as paixões, os impulsos, os tormentos, e tudo o que define o ser (...) a ordem geométrica de tudo, etc.
O poema termina com o eu lírico afirmando que agora é outro, um ser diferente daquele que tudo perscrutava e pouco apreendia. Assim, baixa os olhos, desdenhando toda a oferta que se apresenta. A máquina do mundo, repelida, recompõe-se, e ele segue vagaroso de mãos pensas, avaliando suas perdas, pela estrada mineira.
Penso que A máquina do mundo não faz o retrato de um puro abatimento, de uma simples acídia sem grandes consequências. Arrisco uma leitura: este novo eu lírico de Drummond aprendeu algo com os projetos fugidios e as empreitadas frustradas do antigo. Há aqui o alerta de que pouco importa o que está dado previamente por uma voz alheia. Os sentidos que advêm do Outro, ainda que possam ser reveladores de alguma verdade secreta das coisas, ainda que possam servir até para dominá-las em algum grau, se aceitos, cobram o alto custo da alienação. Desse modo, é preciso caminhar pelas estradas pedregosas de Minas, é preciso voltar-se às vivências próprias, avaliar as perdas do passado para, quem sabe então, poder significar o mundo a partir de si e agir na esfera terrena, em que bem ou mal está dada a luta de cada dia. A crítica literária afirma que, em Claro enigma, Drummond é um escritor, acima de tudo, maduro. Nada mais correto.
Ainda, resta uma questão: o que fez Drummond se afastar do medo e da esperança rumo ao desamparo e seus desdobramentos? Encontro uma possível resposta neste trecho de uma entrevista concedida pelo poeta ao jornal Folha de S. Paulo, em 1984:
Posso dizer sem exagero, sem fazer fita, que não sou propriamente um escritor. Sou uma pessoa que gosta de escrever, que conseguiu talvez exprimir algumas de suas inquietações, seus problemas íntimos, que os projetou no papel, fazendo uma espécie de psicanálise dos pobres, sem divã, sem nada. Mesmo porque não havia analista no meu tempo, em Minas.

Rafael Pinto Morais é aluno do 1º ano do curso Conflito e Sintoma, do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. É formado em Filosofia pela USP e em Letras pela PUC-SP, onde também obteve o título de Mestre em Ciências Sociais.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

O psicanalista na pandemia: alguns riscos


Nossa colega Marcia Arantes discute questões acerca do fazer do psicanalista no momento da pandemia. Estamos todos no mesmo barco? Quais os impactos da pandemia e das sessões online na transferência e na prática clínica de modo geral? Quais são agora e quais serão os efeitos da pandemia sobre a psicanálise?  Confiram!

O psicanalista na pandemia: alguns riscos

Marcia Arantes

A frase “o mundo não será o mesmo após a pandemia” tem ecoado em nossos ouvidos cotidianamente, vinda da boca de jornalistas, comentaristas, profissionais de saúde.

Em nossas práticas como analistas, sentimos os efeitos dessa crise. Alguns desses efeitos são evidentes, como o fato de estarmos atendendo online a grande maioria de nossos pacientes. Outros não são evidentes, e para eles devemos estar alertas. Repercutem na transferência, na nossa escuta, no modo como valorizamos a associação livre e a atenção flutuante.

Pandemia, palavra de origem grega, significa aquilo que pode atingir todo mundo. Sim, ao pé da letra, se aproxima do conceito de Lei, como aquilo ao qual todos estão submetidos como participantes da cultura humana, como seres simbolicamente castrados. Quando se trata de um ‘vírus’, é outra a forma como incide sobre nós. É o que nos escapa, por excelência. Não vemos, não sabemos de onde vem, não sabemos como nos livrar dele, não temos com explicar. É porque é, assim como a morte.

O fato de estarmos inseridos na mesma emergência que o paciente, pode ter um efeito de sedução que nos leve ao engodo imaginário de que ‘estamos todos na mesma’. A dimensão de realidade como simbólico/imaginário pode se diluir.

O analista, para que a análise se desenvolva, ocupa o lugar do suposto saber. É esse lugar que deverá sustentar até que a análise chegue ao fim. Numa situação em que essa invasão virótica domina e determina mudanças evidentes em nossas atitudes, expomos ao paciente nossas apreensões, ou idiossincrasias, o que acarretará um efeito na transferência.

A condição própria do analista, que permite a ele sustentar internamente o lugar do suposto saber, corre o risco de se fragilizar. Identificando-se com o lugar de fragilidade, de impotência, pode se desviar da escuta na qual reside sua potência, e que funda a própria psicanálise.

Recentemente fui levada constatar, a partir de uma discussão grupal, que quando lidamos com pessoas socialmente desfavorecidas, que sofrem de privações gritantes, os limites de nossa possibilidade de atuação podem soar estreitos, nosso trabalho pode parecer pequeno. Sentimo-nos, como cidadãos, convocados a contribuir  para a diminuição dessas privações.

É um momento em que se faz necessária a distinção entre o exercício da cidadania e a função do psicanalista. Para que o lugar do suposto saber se mantenha é condição que a ação concreta na vida do paciente seja suspensa, que o analista aceite essa limitação. Não há como conciliar ambas as vertentes, uma vez que, uma das funções da análise, entre outras, será desvendar os caminhos de satisfação pulsional aos quais o paciente está atrelado, e que limita sua possibilidade de atuar para solucionar os impasses da própria vida.

Essa restrição, a que Freud um dia chamou ‘regra de abstinência’ permanece como um pilar, ao lado da associação livre e da atenção flutuante.   Ai está o ‘ouro’ da psicanálise. Espero, nesse sentido, que a psicanálise permaneça a mesma durante a pandemia, ou durante qualquer outra desgraça.

Continuar o trabalho de Freud de desvendar as armadilhas do desejo, trazer à luz a compulsão a repetição, desfazer os nós da construção do sintoma, das identificações que paralisam e limitam a vida, inibe escolhas e ações, é aí que reside nossa potência como analistas.

A psicanálise herdará marcas e certamente não será a mesma após pandemia, mas não sabemos quais serão. Cabe-nos estarmos abertos e ao mesmo tempo alertas para preservar sua essência.

Marcia Arantes é psicóloga (USP) e psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Sedes e do Grupo de Intervenção e Pesquisa Clínica: da gestação à primeira infância do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae. Foi professora do Curso de Psicanálise do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae (1981 a 1997).