Em torno de BUGONIA, de Lanthimos

Yorgos Lanthimos, cineasta grego, vem a pelo menos há duas décadas se apropriando da realidade para distorcê-la de forma bizarra, deixando as mais diversas impressões entre seus espectadores. Em sua resenha, Sergio Telles faz uma interessante costura entre os seus dois últimos filmes, “Tipos de Gentileza” e em cartaz, “Bugonia”. Confiram!

EM TORNO DE BUGONIA, DE LANTHIMOS

Sérgio Telles

O penúltimo filme de Yorgos Lanthimos, Kinds of Kindness (Tipos de Gentileza), conta três episódios. O primeiro, mostra um homem poderoso em torno do qual orbitam várias pessoas sobre as quais tem poder e controle absoluto. Os que se negam a obedecê-lo são expulsos do grupo, o que lhes é insuportável e se dispõem a fazer qualquer coisa para a ele retornar. No segundo episódio, a mulher de um policial volta para casa após um certo tempo desaparecida numa missão cientifica que se extraviara. O policial suspeita que aquela não é sua mulher e passa a testá-la com exigências de submissão total que culminam com sua imolação. Quando isso ocorre, chega na casa aquela que ele reconhece como sua verdadeira mulher.  O terceiro mostra um culto cujo líder exerce controle total sobre os praticantes, que seguem um protocolo especial à procura de uma mulher capaz de ressuscitar os mortos.

O fio que liga os três episódios é a servidão voluntária frente a um homem poderoso, na esperança sempre malograda de receber em troca proteção e amor incondicional. Tais narrativas podem ser parábolas de algo que vemos com alarmante frequência e intensidade na atualidade - grupos fanatizados em torno de posições ideológicas e líderes populistas, aos quais se submetem de forma acrítica e intolerante a qualquer pensamento discordante.

Entretanto, o terceiro episódio transcende os anteriores. Inicialmente vemos o culto como um agrupamento psicótico, com a crença delirante de que tem meios de detectar uma mulher capaz de ressuscitar os mortos. No entanto, constata-se que isso não é um delírio, o protocolo usado funciona e é encontrada uma mulher com tais poderes. Ao ser levada a contragosto para o culto, ela morre num estúpido acidente de trânsito. Lanthimos mostra que o homem procura desesperadamente algo que o transcenda, o sublime, o que vai além dele, e quando o consegue não tem como mantê-lo, termina por destruí-lo.

Essa importante questão é retomada em seu último filme BUGONIA. Aqui vemos dois homens convictos de que a morte das abelhas decorre de pesticidas agrícolas de uma empresa controlada por alienígenas, que visam destruir a humanidade. Sequestram a poderosa CEO da empresa por acreditarem ser ela um extraterrestre disfarçado e a submetem a torturas para impedir o sucesso de seus planos de extermínio. O expectador inicialmente pensa que são dois delirantes que capturaram uma personalidade conhecida, importante, invejada como bode expiatório. Mas se evidencia que não é um delírio, eles estavam certos. Haviam, sim, detectado a presença dos alienígenas, a empresária era um deles e as consequências da descoberta são fatais.

Qual é a ideia de Lanthimos? Aqui, como no último episódio de Kinds of Kindness, o ser humano atinge o inatingível, algo que o extrapola, que o excede, algo com o que não tem como lidar. No primeiro caso, o homem destrói o que o transcende, no segundo é destruído por ele. De uma forma ou outra, é a marca de uma impossibilidade estrutural, de um impossível.

Vê-se então que Lanthimos não está apenas especulando sobre as condições do desastre ecológico que ameaça nossa sobrevivência no planeta, nem sobre as relações sadomasoquistas que são a base da servidão voluntária que explica a atitude de pessoas, grupos, multidões frente a chefes onipotentes, imagos do perdido pai da infância, do qual não foi possível fazer o luto necessário. As organizações fechadas de grupos ideológicos, cultos, dogmas, rituais evocam esse clima cultural atual.

Tudo isso está presente nos dois filmes, mas Lanthimos vai mais longe no último filme, ao retomar temas mitológicos, o que se faz presente no próprio título. BUGONIA é uma crença milenar de que as abelhas surgiam da putrefação da carcaça de um boi, imagem que evoca a ressurgência da vida a partir da morte num ciclo incessante. Mais diretamente, o enredo do filme remete a Sêmele, que quis ver Zeus e foi fulminada pela visão; Acteon que viu Artemis (Diana) nua e, por isso transformado em cervo, foi devorado por cães; Tirésias que viu Atena nua e ficou cego (mas capaz de ver o futuro); e Pentêu, que desejava ver Dionisio e foi despedaçado pelas bacantes, que, em transe, não o veem como humano. Entre elas está sua mãe, que arranca sua cabeça, pensando estar lutando com um leão.

As figuras míticas, tal como os dois filmes de Lanthimos, apontam para o impossível do homem ver a verdade sem ser destruído. É um encontro que vai além da sua capacidade de conter, representar, simbolizar. É como se fosse o encontro direto com o Real lacaniano.

Lanthimos não está fazendo apenas uma crítica às loucuras da radicalização ideológica ou política, à submissão acrítica a líderes populistas autoritários. Ele fala da dimensão trágica da experiência humana, da nostalgia pelo secreto, pelo sagrado, algo perdido em nossos tempos de extrema vulgarização, deboche massificado, em que tudo se expõe e é precificado como mercadoria.

Lanthimos não fala apenas da nossa miséria contemporânea, mas da miséria humana - desejar o absoluto, exigir vê-lo e não suportar o que se revela.

Sergio Telles é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, autor de “O psicanalista vai ao cinema” (4 volumes), entre outros.


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