Todo mundo é filho de mãe e pai

Assistir ao filme "O Filho de Mil Homens" é navegar pela poesia. É quase inevitável. Marcelo Labaki, no entanto, reconstrói suas cenas em um passo a passo delicado, sublinhando a importância de cada um de seus personagens na vida uns de outros. Confira!

TODO MUNDO É FILHO DE MÃE E PAI

Marcelo Lábaki Agostinho

O filme “O Filho de Mil Homens”, de grande beleza estética, impressiona em seu transcorrer: nas montanhas rochosas; no calçamento das ruas vazias; no azul onipresente do céu, do mar, na casa de Crisóstomo e na cortina de vidros; na casa de Antonino, nas borboletas e na Pietá. A beleza ressurge nas caixas multicoloridas dos bolos confeitados por Francisca, na sua cama enorme e nas paredes de papel florido, diferente dos afrescos, pinturas rupestres, da casa de Isaura.

As personagens ocupam espaço dentro de um sonho maior. Cada uma em seu capítulo, a espera que eles dialoguem entre si e terminem por se entrelaçar. Mas algumas coisas impedem esse entrelaçamento.

Já na epígrafe, percebe-se que este é um filme sobre vontades realizáveis, desde que legítimas, e que exigirá de mim um óbvio mergulho em mares profundos. Mas um analista não mergulha impunemente, leva sempre consigo a busca por destroços que deem sentido às vidas cheias de lacunas.

A história se inicia com um sonho em forma de música: uma mulher força a entrada de uma casa incrustada nas pedras, sempre elas, e encontra um homem morto e um menino assustado. Pela enorme quantidade de latas vazias de atum espalhadas pelo chão pressentimos que já faz algum tempo que eles estão ali. Como trilha sonora ouvimos o som de um disco emperrado, fazendo a agulha da vitrola ir e voltar infinitamente no trecho que diz: “e a pessoa que eu sonhava vai aparecer; e a pessoa que eu sonhava...”

A primeira associação é um questionamento: por que razão alguém que vive à beira-mar comeria atum enlatado? Pensamos, então, num menino enlatado, ou entalado? Saberemos que se trata de Camilo, filho de Francisca, que morre no parto. Foi criado como neto pela doutora que fez o parto, que também morre. Seu marido passa a cuidar do menino, fazendo para ele seu prato preferido: peixe com geleia de jabuticaba – não mais com peixe fresco, mas com atum enlatado. Surge assim o responsável pelo enlatamento alimentar, entre outros enlatamentos.

O filme segue e a metáfora do disco riscado se multiplica. Percebemos que todos vivem emperrados, impedidos de estabelecer vínculos de qualquer natureza.

 

Capítulo I - Quando se sonha tão grande a realidade aprende

Quem é Crisóstomo? São João Crisóstomo (sec. IV) Arcebispo de Constantinopla, célebre orador por sua eloquência. Eloquência? Não o nosso Crisóstomo, célebre por seus silêncios. Homem solitário, que chegou aos 40 anos, com um filho de pano. Em uma pescaria, ao colocar uma concha no ouvido, ele se viu dentro do mar nadando entre âncoras, correntes, cadeados e gaiolas, coisas feitas para prender e amarrar. A concha não servia para ouvir o mar, mas para cair em si e descobrir segredos. Ao filho de pano ele ensina tudo, até a alegria, quando lhe prega botões vermelhos na boca sorridente. Crisóstomo chora, talvez a falta de um filho real. Escreve e distribui bilhetes ao léu. “Pai sem filho, procura filho sem pai.”

Nessa noite, além da concha, Crisóstomo lança mão de seu segundo recurso: o grito. A que serve gritar? Ele então se vê oniricamente rodeado por um cardume de filhos. A concha se ilumina, as estrelas e a luz que delas emanam lhe fazem auto fertilizar o ventre, assistido por uma figura feminina que bem poderia ser sua própria mãe.

O vento, que levara o bilhete, volta trazendo um menino: Camilo.

Homem, menino e filho de pano, sentados no sofá, estabelecem uma relação ao jogar bola, um brinquedo da infância do homem.

Se Crisóstomo questiona, Camilo responde: “É assim que se faz”, mostrando a segurança típica dos preconceituosos, com respostas herdadas do avô.

Quem cuida de quem? O homem troca caixote por cadeira. Depois improvisa um chuveiro, e se o banho está frio ele esquenta a água. O jogo da jabuticaba se mostra quando o menino quer atum enlatado com geleia de vidro, ao que o homem responde: “Pra que comprar geleia se eu sei fazer?” Camilo aprova, e diz: “ Nunca conheci minha mãe. Eu ia gostar de ter uma mãe. Você podia arrumar alguém.” Crisóstomo replica: “Mas eu e você não está bom? Não tá inteiro?” Camilo acrescenta que está, mas podia ser o dobro.

Crisóstomo, mesmo sem saber, atende ao desejo do filho. De novo na areia a concha se ilumina e luzes partem de seu ventre. Como fogos de artifícios não queimam em vão, alguém, em algum lugar, vai receber esse chamado.

 

Capítulo II - O amor dos infelizes

História de Francisca, uma flor de pessoa, com 80 cm de altura, sempre rodeada por amigas protetoras. Protetoras? Elas não querem que Francisca abra a porta para homens de coração grande porque podem desarrumar seus órgãos. Mas Francisca diz: “Um pouco de afeto dá para enganar o coração.”

As amigas, trazendo de volta a imagem do disco emperrado, procuram a doutora, que designa a anã pelo próprio nome e reconhece sua sexualidade ao anunciar a gravidez. Só pode ser fruto de violência, elas dizem. Francisca apresenta uma lista com o nome dos homens com quem se deitou. O filho nasce, ela escolhe o nome de Camilo e morre. Ficam as lacunas.

 

Capítulo III - Pensava que era frágil e imprestável como as flores

História de Antonino, homossexual, que vive trancado em seu quarto, protegido pela mãe, Matilde. Ela reza para a Pietá e lava a toalha suja de sangue do filho atacado pelos homens por quem sentiu desejo. A vizinha não se conforma e questiona por que ela não se livra do filho, dizendo que se não for ela a matá-lo alguém se encarregará disso, lembrando da história de uma mulher que foi empalada por gostar de mulheres.

A mãe, pronta ao sacrifício, chega até a esconder uma faca, assim como Abrahão fez com Isaac, mas termina por desistir. Em seu discurso repete que a vida é isso, casar, ter filhos e um neto. Na lacuna da paternidade de Antonino, arrisco um palpite: o Espírito Santo.

 

Capítulo IV - Os homens eram todos iguais. A diferença era coisa apenas das mulheres.

Isaura era filha de um pai sem nome, especialista em cadeados, e de Maria, mulher que acordou com a síndrome do sotaque francês no dia do noivado da filha. Para se curar, recorre a simpatias. Seu disco se engancha na frase: “O amor estraga tudo.” A sexualidade da filha pode ter trazido o sotaque como sintoma histérico da dona de bordel que ensina a prostituta a não se apaixonar pelo cliente. O pai diz que o amor é espera.

Passa o tempo. Isaura se casa com Antonino, mas na noite de núpcias o marido foge. Isaura sai à sua procura. Vemos no céu os fogos de artifícios que não queimaram em vão.

 

Capítulo V - Os quase felizes

Crisóstomo abre a janela e vê Isaura, vestida de noiva, sentada nas pedras repetindo que o amor estraga tudo.

Ele diz: “também falo sozinho e quando tá doendo eu venho aqui e grito alto”. Então é pela dor que ele grita. Ela grita. Ele a convida a voltar.

Ela volta e come toda a geleia de jabuticaba. Camilo diz para Crisóstomo comprar uma aliança para Isaura. E explica com suas respostas prontas: “Por que é assim que funciona.”

Crisóstomo arruma a mesa com três pratos. Algo está nascendo no novo jogo da jabuticaba.

 

Capítulo VI - O menino contaminado de memórias

História do velho e do menino, por quem ele pretendia se vingar da morte.

O velho, católico praticante, criava o menino para que fosse o mensageiro da história do amor entre homens e mulheres. É ele quem lhe conta a história da entendida: mulher que gostava de mulher, engravidou e foi viver com o filho numa caverna. Parecia ter endireitado, mas: “essa gente não se endireita nunca”. Pega novamente com mulher, foi arrastada pelos cabelos até a praça e empalada diante da igreja. A história termina com a moral do avô: “Os maricas e as entendidas não prestam prá nada, assim como os drogados, as prostitutas, os surfistas e os cantores. Não quero ver você perto dessa gente. Eles ainda vão ensinar a humanidade a nascer pelo cu.” Mas, que paradoxo, se é justamente através de um cantor que a avó sobrevive...

O filho da entendida, que cresceu sozinho numa caverna, agora sabemos, é Crisóstomo.

 

Capítulo VII - Com o seu inusitado entusiasmo mudava o mundo

Crisóstomo relembra a infância com a mãe que enfileirava conchas, pendurava cortina de vidros e usava um amuleto no pescoço. Objetos de memória que permanecem com o filho.

Isaura tem sua primeira noite de amor com Crisóstomo e ela pergunta se o amor estraga tudo. Ao mesmo tempo ela cuida da mãe pela última vez. No enterro de Maria, Antonino reencontra Matilde. Ela está enterrando uma empregada que deixou a filha, Mininha, aos seus cuidados. Seria Mininha uma nova filha de Matilde, ou a neta tão desejada?

Crisóstomo, por necessidade, lança mão do grito. Antonino tenta, mas não consegue. Isaura grita. Antonino sente-se estimulado, grita e grita de novo mais forte. Assim, com menos dor, estabelecem uma relação familiar.

O povo no mercado - ou um vendedor que traz a voz preconceituosa do povo - pergunta se Crisóstomo está namorando a mulher do maricas. Apanha duas enguias e o alerta maliciosamente, dizendo que é preciso cuidado. Crisóstomo compra as duas enguias, dizendo que terão convidados para o almoço. Camilo reage pedindo para não convidar Antonino.

A seguir param no carrinho de churros, aqueles que o avô deixou de comprar ao ver as unhas pintadas do vendedor. Camilo se recusa porque aquilo é a escória. Crisóstomo compra e o vendedor não cobra dizendo que o velho já tinha pagado. Sentam para comer os churros.

Crisóstomo diz: “Tá vendo essas pessoas? Todo mundo é filho de mãe e pai. A gente vem de tanta gente. É tudo meio-irmão. É tanto sonho que vai passando de um pro outro que ninguém nunca vai tá sozinho.”

Quando Camilo pergunta quem lhe ensinou tudo isso, Crisóstomo responde: “Você!” Nesse momento o filme bem poderia terminar. Mas ele continua num epílogo.

Marcelo Lábaki Agostinho é mestre em Psicologia Clínica pelo IPUSP, membro efetivo da Associação Brasileira de Psicanálise de Casal e Família, e aspirante a membro do Departamento de Psicanálise.

No dia 26 de março de 2026, a ABPCF em seu evento Cinema e Psicanálise de Casais e Família, promoveu um debate sobre o filme O Filho de Mil Homens, sob a coordenação de Sérgio Telles, tendo como convidado Marcelo Lábaki Agostinho.

Esse texto faz parte do  Debate sobre o filme O Filho de Mil Homens promovido pela ABPCF em seu evento “Cinema e Psicanálise de Casais e Família”

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