Amar o futebol – o Brasil – e o repúdio à ditadura: uma breve leitura psicanalítica da Copa de 1970
Ao assistir ao seriado “Brasil 70: a saga do tri” Maria Silvia Borghese revisita a “sua” Copa de 70 que acontece em plena ditadura militar, ainda que dela nada soubesse. Pode assim enxertar nessa que foi uma das maiores conquistas esportivas do país, não só o seu uso político em um dos períodos mais nefastos do país, mas também a alegria de todos os brasileiros. Confira.
AMAR O FUTEBOL – O BRASIL – E O REPÚDIO À DITADURA: UMA BREVE LEITURA PSICANALÍTICA DA COPA DE 1970
Em 1970, eu era uma menina chegando à adolescência. Vivendo em um bairro de classe média, cresci acostumada a festas e almoços nos quintais das casas da minha numerosa família, mistura de italianos e portugueses, amantes da boa mesa e de infindáveis conversas a seu redor. Embora futebol fosse um tema certamente confinado em corações e mentes masculinos, daquela vez as fronteiras tinham sido quebradas. A família inteira estava envolvida e tomada pela chegada da Copa do mundo de futebol que aconteceria no México no meio do ano. Pela primeira vez, a copa do mundo iria ser televisionada a partir de aparelhos que transmitiam imagens em branco e preto. A empolgação era geral, havia um contágio crescente. Meu pai, amante de carros antigos (ou de velharias, como costumávamos brincar entre irmãs e irmãos), mandou pintar seu Chevrolet 1937 = a charanga, a ximbica – metade verde, metade amarelo, metendo-lhe um mastro de dois metros de altura, para nele fixar a bandeira do Brasil.
Àquela altura, pouco se falava com as ‘crianças’ sobre o que acontecia no Brasil, em pleno período dos anos de chumbo da ditadura militar. Minhas preocupações com a situação política de nosso país chegariam anos mais tarde. Nesses tempos, lembrava apenas de ter sido retirada da escola mais cedo em uma tarde de outubro de 1968. Todas as crianças foram mandadas para casa depois de ouvirmos um discurso sobre os estudantes universitários comunistas e ‘baderneiros’ que estavam pela cidade quebrando tudo. O diretor da escola havia dito mais: ‘eram arruaceiros, arremedo de terroristas’. Lembro ainda de repetir essas expressões para os meus pais, que apenas se entreolharam, limitando-se a dizer que a história ‘não era bem essa’, que futuramente compreenderíamos... Nunca mais voltariam a tocar no assunto. E, no período da Copa do mundo de 70, era só festa e paixão pela seleção canarinha, ainda que eu nada entendesse daquele esporte que colocava 22 homens correndo atrás de uma bola para lá e para cá. Decorei, obviamente, o nome dos nossos jogadores, assistia a todos os jogos bem interessada. Minha mãe, nem isso. Ficava andando pela casa e servindo a todas as pessoas que vinham a nossa casa, gritando eventualmente ‘vai brasileiro, vai brasileiro’. Esse era o clima, meio terra em transe.
Com o passar dos anos, as coisas mudariam muito dentro de mim a respeito desses tempos. Essas memórias certamente se borraram e me incomodavam bastante. Em 1975, estava na biblioteca do IPUSP, pesquisando sobre o curso de psicologia, quando chegaram alguns cartazes: o jornalista Vladmir Herzog tinha sido assassinado dentro das instalações do DOE-CODI. Uma fenda se abriu sob os meus pés, um barulho enorme me invadiu, tomou conta de minha cabeça. O que estava acontecendo? Como pretendia entrar em uma universidade sem saber do que acontecia há 11 anos no meu país? Meu ingresso na Faculdade de Psicologia da PUC-SP foi absolutamente disruptivo em relação a minha ‘vergonhosa’ alienação. Engajamento, consciência crítica da realidade, participação no movimento estudantil, monitoria no ciclo básico da universidade, tudo isso me fez revisitar fortemente as memórias da Copa de 70, tinha vergonha do que lembrava, tinha raiva da charanga verde e amarela na qual tinha passeado algumas vezes, subindo e descendo a Rua Augusta em tantas comemorações pelo tricampeonato de futebol conquistado jogo a jogo. Acho que joguei essa história, e todas as suas memórias, no meu baú de esquecimentos estratégicos e lá tinham ficado, até semana passada, quando me deparei com a série Brasil 70: a saga do tri. Não pretendo aqui me ater a sua narrativa, nem trarei ‘spoilers’, como dizem. Apenas, depois de me flagrar relembrando, chorando, odiando e vibrando, coloquei-me a pensar em tudo isso que vivemos no Brasil, quantos sentimentos ambíguos, quanto sofrimento, tantos ‘silenciamentos’, misturados a paixões intensas e fortes emoções.
A Copa do Mundo de 1970 ocupa um lugar singular na memória brasileira. De um lado, representa uma das maiores conquistas esportivas do país; de outro, tornou-se símbolo da utilização política do futebol pela ditadura militar. Essa dupla inscrição produz um conflito que ainda hoje atravessa a experiência subjetiva de muitos brasileiros: como celebrar uma vitória nacional que foi apropriada por um regime autoritário?
A personagem Therê, em Brasil 70: A Saga do Tri, encarna de forma particularmente expressiva esse dilema. Militante de esquerda e companheira de João Saldanha, ela se vê confrontada com uma situação paradoxal. O Brasil que ela ama é o mesmo país que a persegue politicamente. A seleção que desperta orgulho nacional é a mesma cuja vitória será explorada pela propaganda do regime. O drama de Therê (que foi, posteriormente, também o meu) não decorre simplesmente de uma divergência ideológica. Trata-se de um conflito afetivo profundo. Ela não está dividida entre amar ou não amar o Brasil. Está dividida porque ama.
Obviamente, depois de tantos anos me analisando e estudando psicanálise, minha compreensão sobre essa conflitiva é outra, mas há muito tempo não revisitava esses caminhos percorridos dentro de um carro verde e amarelo. De qualquer modo, senti vontade de escrever, dar a elaborar os restos de memória despertados pela série. A psicanálise há tempos me ajudou a compreender que os vínculos humanos raramente são puros ou unívocos. Sabemos que a relação com os objetos amados é marcada pela ambivalência: amor e crítica, admiração e ressentimento, proximidade e afastamento.
Nesse sentido, a Copa de 1970 coloca muitos brasileiros e brasileiras diante de uma experiência de ambivalência coletiva. Pudemos sentir alegria diante do talento de Pelé, da criatividade do time e da conquista esportiva, ao mesmo tempo em que rejeitamos a instrumentalização política desse sucesso. A questão não é escolher entre uma emoção autêntica e uma manipulação ideológica, pois ambas coexistiram.
Uma das armadilhas das leituras excessivamente politizadas consiste em supor que o entusiasmo popular seja apenas um efeito da propaganda, da manipulação política, a tal máxima marxista ‘o futebol é o opio do povo’. Mas essa interpretação ignora a dimensão psíquica do pertencimento. O futebol já ocupava, muito antes da ditadura, um lugar privilegiado na construção das identificações coletivas brasileiras. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud mostra que os grupos se constituem por meio de identificações compartilhadas. A seleção brasileira funciona como um poderoso objeto identificatório: ela oferece uma imagem idealizada da comunidade nacional, permitindo que pessoas muito diferentes experimentem, ainda que temporariamente, um sentimento de pertencimento comum. A emoção provocada pela vitória não nasce da ‘propaganda’. Ela nasce de investimentos afetivos anteriores à ‘propaganda’. A ditadura tentou capturar essa energia emocional e colocá-la a serviço de sua própria legitimidade. Mas essa captura nunca é completa, ainda bem.
A personagem Therê se vê obrigada a sustentar uma tensão difícil: preservar seu vínculo afetivo com o país sem se deixar capturar pela narrativa oficial. Essa condição remete a uma questão mais ampla da vida psíquica e social. Nenhum poder consegue monopolizar inteiramente os afetos coletivos. Os sentimentos que unem as pessoas a símbolos nacionais, esportivos ou culturais possuem uma autonomia relativa. Eles podem ser manipulados, mas nunca totalmente produzidos ou controlados pelo poder. Talvez por isso a Copa de 1970 continue despertando sentimentos tão contraditórios. Ela nos recorda que os seres humanos não vivem apenas de convicções políticas, mas também de identificações, desejos, memórias e pertencimentos. E que, muitas vezes, a maturidade psíquica não consiste em eliminar as contradições, mas em suportá-las. Therê representa justamente essa difícil tarefa: permanecer fiel aos próprios ideais sem renunciar aos afetos que a ligam ao país. Sua dor não é a dor de quem está dividido entre dois lados opostos. É a dor de quem descobre que ambos os lados habitam simultaneamente o mesmo mundo interno.
A série ainda me remeteu a um episódio do podcast Radio novelo Apresenta: Na arquibancada. Nele, é tratada justamente a relação entre a Copa de 70, a ditadura e os exilados políticos. Um grupo de 40 brasileiras e brasileiros foram enviados para Argélia, o chamado Grupo dos 40, que foram trocados pelo embaixador alemão sequestrado durante a copa do mundo. Ladislau Dowbor, militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), preso e torturado em 1970, concede um depoimento sobre a ambivalência vivida nesse período, chegando a descrever uma cena surreal: foi levado nu e amarrado a uma cadeira de tortura para assistir a um jogo junto com seus torturadores. Por mais estranho que pareça, ele chega a dizer que, tendo sempre gostado muito de futebol, flagrava-se torcendo pela seleção brasileira, ainda que soubesse que seguia sendo torturado de maneira torpe ao ser levado a assistir a um jogo naquelas condições.
É justamente aí que a experiência dos exilados políticos se torna tão impressionante. Muitos deles relataram ter vibrado com a conquista do tricampeonato mesmo enquanto eram perseguidos, presos ou expulsos do país. À primeira vista, isso parece contraditório. No entanto, do ponto de vista psicanalítico, trata-se de um paradoxo compreensível, pois o amor pelo país não se confunde com a adesão ao governo. O investimento narcísico na identidade nacional pode sobreviver à ruptura com as instituições que a representam. O sofrimento de Therê na série deriva exatamente dessa impossibilidade de separar completamente essas dimensões. A seleção não pertencia à ditadura. Mas a ditadura tentava se apresentar como proprietária da seleção. A alegria não pertencia ao regime. Mas o regime procurava transformar essa alegria em capital político. Essa experiência, a de Therê na série, a descrita pelos exilados, continua reconhecível para muitos brasileiros até hoje.
Confesso que estou bastante desmobilizada para acompanhar a Copa do mundo que se aproxima. Como se empolgar com um futebol patrocinado por Bets? Como torcer por um ‘ídolo’ chamado de menino aos 34 anos? Como se alegrar em um momento social tão comprometido pela polarização social, acirrada pelo recrudescimento do fascismo e do conservadorismo canhestro?
No entanto, para além de arroubos nacionalistas – que, na verdade, abomino -, depois de assistir à Brasil 70: a saga do tri, lembrei-me também que o futebol, as festas em torno dele, as peladas na rua, o álbum, as figurinhas da copa, todas essas coisas fazem parte de nossa cultura, produzem laços sociais importantes, alegram brasileiras e brasileiros. A alegria... ah, a alegria anda tão em falta, não é? Como podemos abrir mão dela? Que venha a Copa! Atire a primeira pedra quem não se empolgar, ainda que muito intimamente, com a cena de um gol do Brasil na TV, levantando aquela torcida verde e amarela, aquela que agita bandeirinhas, comendo pipoca e tomando cervejinha. Isso é muito a cara do Brasil.
Maria Silvia Borghese é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, pós-doutorado em psicologia social pelo IPUSP, autora dos livros “O tempo e os medos” (Blucher, 2017) e “Depressão & doença nervosa moderna” (Blucher, 2024)
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