AMARELINHA

Oggy Nzazi Barbosa Zizo, aluno do primeiro ano do curso de Psicanálise e integrante do Grupo Generidades nos premia com sua poesia. Confira.

AMARELINHA

(entre a terra e o céu quem entra?)

Quem são as pessoas

que entram nesse céu?

Esse céu que, nos desenhos,

aprendemos a pintar de branco.

A amarelinha manchada de sangue.

O azul

que talvez nunca tenha sido

a cor mais bonita da colonialidade.

A pedra que lançamos

para avançar uma casa

também escolhe

quem pode seguir.

Deixem uma corpa trans preta entrar.

 

Outrora,

também tacaram pedras em Geni.

E seguem tentando apedrejar

aquilo que desorganiza a norma.

 

Benditas sejam lembradas

as mulheres negras

que transformaram o céu branco

em inferno para o pacto colonial do silêncio.

 

Talvez seja só uma amarelinha.

Talvez apenas uma brincadeira.

Mas há brincadeiras

que revelam a arquitetura do mundo.

Há jogos infantis

que antecipam as leis do pertencimento,

da exclusão,

do avanço permitido

e da queda esperada.

 

Quem pintou a amarelinha no chão

talvez nunca tenha brincado

na própria obra.

 

Você viu a amarelinha desenhada no chão?

 

Você viu

quem desenhou a brincadeira

na porta da instituição?

 

Porque, às vezes,

o inconsciente institucional

também brinca de escolher

quem pode tocar o céu.

Oggy Nzazi Barbosa Zizo é psicanalista e educador popular. Integra o grupo Generidades e é aluno do curso de Psicanálise do Departamento.

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