Notícias sobre um Clube de Leitura: Grupo de jovens analistas se reúnem para ler “A Insubmissa” de Cristina Peri Rossi

Bruno Spadoni nos apresenta o recém-inaugurado Clube de Leitura Traço___ psicanálise e literatura, tecendo comentários e reflexões sobre o livro Insubmissa da autora uruguaia Cristina Peri Rossi.

NOTÍCIAS SOBRE UM CLUBE DE LEITURA: GRUPO DE JOVENS ANALISTAS SE REÚNEM PARA LER “A INSUBMISSA” DE CRISTINA PERI ROSSI

Bruno Spadoni

Quando um grupo de psicoterapeutas se reúnem, a fim de pensar a clínica e a teoria psicanalítica nos tempos atuais e decide ler literatura contemporânea juntos, a escolha de um primeiro romance não poderia ser melhor. Talvez porque esse romance uruguaio seja também uma autoficção, gênero literário que é um prato cheio para quem tem o deleite de escutar a singularidade do mundo que habita a cada um. Logo, ler um pouco do universo particular de Cristina Peri Rossi[1] foi um começo animador para o Clube de Leitura Traço___ psicanálise e literatura. 

A ideia desse Clube de Leitura surgiu em um café, com minha amiga Júlia Louzada, psicanalista, ainda em 2024. Nos conhecemos na Equipe Clínica 08 do Aprimoramento Clínico[2], momento rico da formação. A afinidade com a literatura e a forma de ouvir e escrever os casos nos aproximou. Desde então foram muitas trocas e parcerias, como aventuras pela última FLAPPSIP, no Peru. Até que esse ano a convite da livraria Martins Fontes da Consolação, decidimos dar andamento a uma ideia que já havíamos traçado. Assim, organizamos um encontro aberto, para o qual chamamos amigos, colegas e divulgamos nas redes sociais. O primeiro encontro, em março, foi para grupalizar pensar juntos os livros que leremos durante o ano. Fomos em 08 nesse primeiro encontro na qual, além do gosto por literatura, os corredores do Sedes era algo em comum no grupo. Desse modo chegamos ao começo animador em um encontro cheio de trocas sobre as percepções e sensações a partir da leitura. Alguns relatos que traçaram momentos da leitura com a escuta de algum caso. Outros traçaram relação com a própria análise. Um encontro bonito, animado e que fez jus ao livro escolhido para fazer a palavra circular.

Começamos em abril com a “A Insubmissa", que narra  em primeira pessoa a infância de Cristina, uma menina uruguaia, emigrante espanhola, que cresceu nos anos 1940/1950 e que não se conformava com o lugar que era colocada pelos adultos e tão pouco por outras crianças que achavam que sabiam de algo. Sua forte afinidade com os animais e o amor à natureza é um marco desse período. Seu interesse inocente por livros de filosofia e psicanálise, também.

O livro conta de reflexões e questões próprias da infância, mas com a pitada de Cristina, uma garota que lida de forma muito autêntica com a falta, em suas diversas dimensões. Um destaque para a cena do castigo. Na qual, trancada em um pequeno banheiro, decide tomar o pulso de sua situação e cria um jogo para si, brinca com seus recursos internos, em resposta ao sistemático castigo que o pai lhe impunha diante de suas insubmissões. A curiosidade e sagacidade vão dando um tom divertido ao ambiente de constante repressão e silenciamento. E nada parece frear Cristina, talvez o amor… quando se deixa vestir com babados e frufrus para ir ao casamento de sua amada. Sem falar nas concessões que faz por amor à mãe. Lindo como todo esse amor vai sendo parcializado e o encontro dela com a máquina de escrever se torna um momento emocionante para o leitor. Como ela viu a escrita e se viu escritora. Aliás, o lugar que ela dá para o olhar é poesia pura.

E falar de insubmissão não podia ser algo melhor para um grupo que estuda psicanálise. Esse dispositivo clínico que surge escutando mulheres em plena era vitoriana. A psicanálise em sua origem exerceu um papel subversivo, questionando paradigmas da medicina, das relações sociais e de gênero. Poder pensar uma psicanálise insubmissa hoje é essencial, assim como ser crítico à biologização do sofrimento psíquico e à psiquiatria cosmética; poder reconhecer como a colonialidade, o racismo e o sexismo marcam o inconsciente; e questionar às estruturas de gênero e poder que têm domesticado a criatividade, forjando uma sociedade submissa ao consumo, que por vezes se veste de normatividade e geralmente tem como marca central o culto à personalidades masculinizadas. Talvez seja uma forma interessante de pensar a psicanálise, como uma teoria insubmissa. Teoria que sustenta um fazer clínico, esse que de fato tem como efeito oferecer um espaço em que o sujeito possa criar seu lugar no mundo, ser agente de si; e uma escuta em que o sujeito possa contar sua própria história falando em seu nome próprio, como diz Thamy Ayouchi[3].

Cristina Peri Rossi, conta tanto neste livro, quanto nas poesias reunidas em ‘Nossa Vingança é o Amor’ como ser autoral é trabalhoso e insubmisso. Como não seguir padrões definidos e inquestionáveis tem seu preço. Talvez por perceber isso muito cedo, pôde ir se cuidando, se munindo de si mesma para ter claro o seu valor e pagar o preço que for. E como ela mesma diz, poder “escolher aquilo que nos querem impor como um ato de liberdade, não como um castigo”. Parece que dentro de sua liberdade, aos 79 anos de idade, escolhe presentear seus leitores contando a infância de sua menina, que poderia ser lida como um castigo da vida, um infortúnio, mas Cristina tem alegria e muito prazer em ser quem ela mesma criou! Inspiração para muitas insubmissões…

E assim começamos esse grupo, que em maio se reúne para ler “A vegetariana” da sul-coreana Han Kang, e em junho “As Malditas” da argentina Camila Sosa Villada. Aliás, fica o convite! Iremos nos reunir todas às segundas sextas-feiras de cada mês esse ano, exceto outubro, às 18h30 na Livraria Martins Fontes da Consolação, que fica na rua Dr. Vila Nova, 309. Podem me escrever e nossa página no instagram é @psicanaliseeliteratura_ .

Bruno Spadoni é psicanalista e psicólogo clínico, possui formação pelo Instituto Sedes Sapientiae, onde concluiu os cursos de 'Conflito e Sintoma' e 'Psicanálise', além do Aprimoramento Clínico. Atualmente, é aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Sedes e integra o Grupo de Trabalho 'Famílias no Século XXI'.



[1] Cristina Peri Rossi (1941) é escritora, tradutora e ativista política uruguaia, autora de uma vasta obra que inclui romances, contos, ensaios e poesia. Em 1972 exilou-se na Espanha, onde mora ainda hoje, e durante a ditadura militar que governou o Uruguai, de 1973 a 1985, teve sua obra proibida no país. Seus livros já foram traduzidos para mais de vinte idiomas. Em 2021, recebeu o Prêmio Miguel de Cervantes, a maior honraria das letras espanholas. A insubmissa, lançada em 2020, é a seu romance mais recente.

[2]Equipe Clínica 8 - Aprimoramento na Clínica do Instituto Sedes Sapientiae, coordenado por Sílvia Fernandes.

[3] Thamy Ayouch é psicanalista, professor do IIP, professor titular na Université Paris Cité e foi professor visitante estrangeiro na USP. É autor de numerosos artigos e livros em francês, português, espanhol e inglês como: Psicanálise e homossexualidades: teoria, clínica, biopolítica; e Psicanálise e hibridez. Gênero, colonialidade, subjetivações e A raça no Divã - Esteve em 2024 no evento Por uma psicanálise antirracista – Conversa com Thamy Ayouch, organizado pelo Conselho de Direção (2024-2025) que aconteceu no dia 12 de agosto em auditório lotado.

 


Comentários

  1. Parabéns pela iniciativa, tão criadora !
    Gostei demais, também é muito
    corajosa!
    Grande abraço!
    Ana Maria Leal

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