Envelhecência. Entre o estigma e a singularidade do desejo

No dia 28 de junho o coletivo Cinema e Psicanálise nas brechas realizou mais um de seus encontros no Cine Bijoux. A partir do bonito e sensível roteiro do premiado filme iraniano "Meu bolo favorito" Maria Laurinda segue o convite, o tempo, a memória, as brechas, o corpo, o desejo e as transgressões, compondo um lindo texto sobre a evelhecência.  Confiram:

ENVELHECÊNCIA. ENTRE O ESTIGMA E A SINGULARIDADE DO DESEJO[1]

“Sexo, morte e Deus. Penso nisso diariamente...

A libido humana é uma coisa bonita”.

Adelia Prado, aos 90 anos.

M. Laurinda R. Sousa

Levantamentos recentes revelam o crescimento significativo da população acima de 60 anos – cerca de 29,3 milhões de pessoas, o que representa 15 a 16,6% da população total do país. Muitos vivem com trabalho precário, informal, ou, no envolvimento com cuidados domésticos (em sua maioria mulheres).  Se considerarmos o índice populacional acima de 70 anos, ele corresponde a 6,8%, com as mulheres representando 57,8% desse grupo. A expectativa de vida teve, também, um avanço significativo desde 1940: de 45,5 anos para 76,6. (dados do IBGE, de 2024). Desnecessário dizer que essa expectativa varia de acordo com a região pesquisada, revelando diferenças que são efeito da violência e da exclusão no acesso aos direitos fundamentais da vida.

Na discussão dessa temática, temos que considerar além da idade cronológica, os dados subjetivos-singulares do envelhecimento. Representativo desse recorte é o depoimento de Raimundo Carrero, escritor pernambucano (nascido em 1947), falecido recentemente, em junho de 2026, aos 76 anos. Em entrevista realizada em julho de 2012, quando tinha 64 anos, foi-lhe perguntado: você se sente com a idade que tem? E sua resposta anuncia um estigma e uma vivência pessoal de quem sustenta projetos independentes da idade: “Eu faço em dezembro 65 anos, mas, na minha cabeça, eu devo ter no máximo 40.  Amadurecido, correto, justo, mas convencido de que tenho muito que aprender, e tenho muito que amadurecer... A gente aprendeu culturalmente que 70 anos é muito. Que a gente quando chega é muito velhinho. A gente está com tudo no lugar, pronto para começar tudo de novo. É assim a vida”.

 

O filme Meu Bolo Favorito nos oferece uma leitura ético-política sobre esse momento da vida.  Filmado em Teerã, com direção de Maryam Moghaddam e Behtash Sanaeeha, recebeu o prêmio de melhor filme no Festival de Berlim, em 2024. O casal de diretores foi impedido de viajar para a estreia do filme, considerado subversivo pelo regime teocrático do Islã; tiveram os passaportes confiscados e respondem processos pelos atos transgressivos às normas vigentes. A história gira em torno de dois idosos de 70 anos: Mahin (Lili Farhadpour) e Faramarz (Esmael Mehrabi)

O Irã, como sabemos, tem ocupado os noticiários recentes em função de uma guerra que se anunciava como breve e continua se expandindo.  Em fevereiro deste ano, no primeiro ataque americano, no sul do Irã, o bombardeio atingiu uma escola primária matando 156 pessoas (120 crianças: 73 meninos e 47 meninas e 26 professoras e funcionários). No dia seguinte, a manchete do jornal O Estado de São Paulo estampou a frase cruel: “Ninguém vai chorar pelo Irã”. Ataques posteriores resultaram na morte de Khamenei, o líder supremo do país, acirrando os conflitos e se estendendo com a participação de Israel nos bombardeios. Uma história complexa num país reconhecido por sua cultura, mas atravessado há décadas pelo conservadorismo religioso, autoritarismo, repressão violenta, protestos da população e avanços de liberdade.

Destaquei alguns significantes que podem abrir a discussão sobre o filme: O convite. O tempo. A memória. As brechas. O corpo, a sexualidade, o desejo e as transgressões.

O convite é um dos motes deste filme - talvez o mais significativo, e cheio de filigranas estéticas e políticas. Há um tempo para que ele seja enunciado; algo que vai sendo fermentado a partir de uma realidade acomodada, sonhadora, solitária. Algo que parte de uma conversa de amigas que se encontram para falar da vida, para partilhar a mesa com sabores que elas próprias preparam – “os restaurantes tornaram-se muito caros”,  uma incitando na outra uma possibilidade há tempos emudecida. É certo, há também nesse encontro, uma referência insistente a um corpo que só é reconhecido pelo seu adoecimento, mas que pode ser alvo de risos e de recusa.

 É com surpresa que vemos Mahin enunciando o convite a um possível parceiro; um parceiro solitário como ela. Um convite que nos surpreende pelo inusitado; ele é feito por uma mulher, uma mulher de 70 anos.   Inusitado também pelo que conhecemos dessa cultura.

Mas antes disso, retomemos as cenas iniciais deste filme.

A câmera passeia por uma sala na qual se destaca um relógio antigo na parede. Um relógio como o conhecemos na casa de nossos pais ou avós.  Um relógio que toca as horas, lentamente. E nos remete à temporalidade.

Recentemente, vi duas charges muito representativas desse tempo:

Em uma há um senhor numa loja de relógios. Relógios de todos os tipos expostos na parede. Ele pergunta ao senhor que está consertando um dos relógios: “Você tem algum que seja mais lento?

Em outra, de Tom Cotrim, apresentada por Ruy Castro, em sua crônica na Folha de São Paulo, que ele nomeou “A humilhação diária”: Um velho senhor usando bengala está na mesa de informações com a recepcionista que com um celular na mão lhe diz: O senhor baixa o aplicativo e entra em “gerar código de acesso”. Aqui tem o certificado digital. Faz o login e clica em “escolher o arquivo”. Ele vai pedir um código de liberação de acesso nas extensões JPG, PNG ou PDF.... entendeu? “Sob o cartum um texto: uma sociedade que obriga uma pessoa de 90 anos a usar um smartphone para acessar os seus próprios direitos não é moderna. É uma sociedade que decidiu se livrar de seus idosos”.

De fato, as charges remetem à exclusão, mas posso lê-las também como crítica à velocidade que nos atropela diariamente com demandas, excesso de notícias, falta de tempo para qualquer coisa, fundamentalmente impossibilidades para o silêncio ou para estar com o outro. Uma sociedade dos excessos, da imediatez, do cansaço, do efêmero, e como consequência a dispersão constante e o apagamento da memória e da história.

Voltemos ao filme:

A câmera sai dessa sala com móveis antigos e nos mostra o quarto em que uma senhora, cheia de apoios para o corpo e com venda nos olhos, é acordada no final da manhã e reclama dessa rotina que vem tirá-la de um sono que ela reivindica como seu direito. Essa amiga intrusiva é a que só se ocupa de seus males hipocondríacos. Uma amiga a quem ela também convoca para uma mudança de posição, para uma saída em que possa ver outras paisagens, para além de um envelhecimento marcado pela solidão, pela hipocondria. Poderia ser também marcado pela paranoia: a ideia de que se está sendo roubado de algo importante; uma perda de algo que não pode ser vivido. Isso faria um sentido maior nesse regime totalitário: roubaram meus direitos, coisas importantes da minha vida. Ou, pela melancolia.

Nessa primeira parte do filme, o corpo de Mahim é pesado, lento. Seu olhar é mortiço. Uma brecha se vislumbra quando rega o jardim. Saberemos depois que esse jardim tem uma história. Há cenas semelhantes em Persépolis com a avó de Marjane Satrapi cuidando do jardim.[2]

O sorriso aparece no comentário do jovem trabalhador do supermercado que lhe faz um elogio; alguém a viu! Ela faz compras para o encontro com as amigas, mas não pode levá-las sozinha. E também não sabe como chamar o Uber, ou o 99, ou outra plataforma qualquer; não sabe como lidar com o QR Code. Mas tem outro recurso: um motorista conhecido que leva suas compras até a casa.

Em outro recorte, na cena do parque, ela desperta para a violência daquele cotidiano: gritos das jovens mulheres que estão sendo levadas pela “polícia da moralidade”.  O uso obrigatório do Hijab e a sua transgressão. Uma referência sem dúvida ao que aconteceu com Mahsa Amini, de 22 anos, detida pela polícia da moralidade, em 2022, e em função de sua morte, nessa prisão, 3 dias depois. Isso deu origem ao movimento de protestos conhecido pelo lema “Mulher, Vida, Liberdade”, com várias manifestações espalhadas pelo país, intensa repressão e muitas mortes. Uma referência também à história de Marjane Satrapi e seu filme Persépolis que em quadrinhos conta o que foi vivido no período da revolução de 79 e as perseguições que se seguiram.  

No filme, curiosamente, Mahim se surpreende ao saber que Faramarz não teve experiências sexuais desde jovem, depois de sua separação: “Pensei que isso não podia acontecer com os homens; que eles não podiam viver sem sexo”; outro mito a ser desconstruído. Uma referência direta à questão do desejo, da sexualidade, da libido na velhice.

Duas associações me ocorreram: um presente no filme Meu nome é Agneta, em que o personagem Einar, um velho excêntrico, vive com “demência” e um quadro melancólico que o prende ao passado e a lutos mal elaborados. O interessante é o grito diário desse velho enlouquecido perguntando por sua libido: Onde está minha libido? Como se a pergunta pela sexualidade nessa idade fosse caso de loucura. É na mesma vertente que um reconhecido escritor japonês, indicado em 1964 ao prêmio Nobel de Literatura, Junichiro Tanizaki, escreveu, em 1961, o “Diário de um velho louco”, um rebelde patriarca de 77 anos que transgride todas as convenções morais afirmando, sem vergonha, seu direito às fantasias e vida sexuais, reconhecendo que a sexualidade existe mesmo num velho impotente. E que o desejo, a libido não tem idade.

Na conversa dos dois (Mahin e Faramarz) vemos a construção de uma parceria e o resgate da memória; uma memória partilhada. Nesse resgate, o prazer das pequenas transgressões, as brechas que se pode criar ao regime persecutório. O próprio filme é, nesse sentido, uma transgressão. Uma transgressão criativa. Nessa partilha a presença do outro cria vida, ilumina os espaços, convida à alegria, à dança, à comida do lugar, ao bolo com uma receita especial à espera daquele que chegou aonde já era, há muito tempo esperado.

Mas também aos temas difíceis da existência: a solidão, a morte, a descoberta repentina da velhice. Talvez seja sempre assim: um dia o espelho, ou um fato, ou um acidente no corpo, nos anuncia a chegada do “sinistro, inquietante, infamiliar”, algo que permanecia oculto e que vindo à luz, nos provoca desassossego, queda narcísica, proximidade da morte, como diria Freud em seu texto de 1919. É de sua própria experiência que nos fala quando vê refletido no espelho de seu camarote, um ancião com roupa de cama e um gorro na cabeça. Vai avisá-lo de que está no camarote errado quando se dá conta que era sua própria imagem projetada no espelho. “Ainda recordo, diz ele, o profundo desgosto que aquela imagem me produziu!”.

Você tem medo da morte? Pergunta Mahim a Faramarz

Não da morte, tenho medo de morrer sozinho. Quem vai me encontrar?

O final do filme, pode ser uma resposta ao desejo desse personagem: não morrer sozinho; ter quem o encontre, quem vele e cuide de seu corpo.

Será que o aumento recente dos residenciais poderia responder a esse desejo? Penso que não. Eles rapidamente se tornam espaços de exclusão, de desinvestimento, de desamparo, com grades, portas fechadas, com vigilância constante, onde a menoridade vai sendo instituída e os sintomas físicos e psíquicos vão se acentuando até que chegue à morte.

Em alguns comentários que li sobre o filme, há um desapontamento com seu final; uma quebra na construção poética que vinha sendo desenvolvida. Um assinalamento moral: “se houve transgressão, procura da felicidade, haverá castigo”. Não o vi dessa forma.  Pensei que era um final ético-político: “Vejam o quanto este regime nos deixa entregues ao isolamento, ao impedimento dos encontros, ao sofrimento”.

Ele também me remeteu à delicadeza do texto de Freud: “Sobre a transitoriedade”, de 1916. Escrito no final de 1915, no segundo ano da I Guerra Mundial, e que também faz uma referência ao texto publicado posteriormente: “Luto e melancolia”. Escrito, portanto, no mesmo clima de guerra que nos atravessa hoje em dia. Referindo-se a um passeio ocorrido em 1913, Freud inicia o texto descrevendo a beleza da paisagem e o olhar melancólico do poeta que o acompanhava (Rainer Maria Rilke) sem poder regozijar-se com ela, pois, dizia ele, logo desapareceria. Tudo lhe parecia carente de valor devido à sua efemeridade. A isso Freud recruta dizendo que a finitude não retira o valor das coisas, pelo contrário, ele estava dado pela escassez no tempo. Ainda que todo o belo desaparecesse, seu valor estaria determinado unicamente por sua significação para nossa vida sensitiva e é, portanto, independente da duração absoluta.  Vendo que esses argumentos não atingem seus interlocutores (Lou Andrea Salome os acompanhava), Freud levanta outra hipótese: é a antecipação do luto daquilo que se vai perder, que impede o gozo pelo belo transitório. E termina o texto com um voto otimista, com um desejo imaginário: o de que ao final da guerra, os bens da cultura destruídos, possam ser de novo reconstruídos e sobre um fundamento mais sólido e mais duradouro do que antes.  A história não o confirmou.

De uma forma menos ilusória, António Lobo Antunes, escritor português, nos dá o relato de seu encontro com o luto de um corpo rondado pela morte e do que aconteceu depois de sua recuperação: ele nos descreve realisticamente o que viveu em seu corpo quando foi hospitalizado em decorrência de um câncer no intestino em 2007, aos 64 anos. “Um trapo indefeso entregue ao vazio e à morte que o rondava...não tinha sequer forças para alcançar a campainha e chamar a enfermeira, chamá-la para quê?” Interessante é o fato de que carregou consigo o desejo de terminar o romance que estava escrevendo. Havia ali, nas brechas, à espreita, um sonho, um projeto.  Três anos depois, em 2010, já refeito, termina a crônica em que fala dessa internação e que nomeou: “Assuntos a tratar depois de ter morrido”. Nessa época anda às voltas com um novo livro, mas faz a si próprio uma advertência: “Não esqueças o vazio, Antônio, nunca esqueças o vazio: continua a tentar enchê-lo devagar” (p.137).

Será que, seguindo Lobo Antunes, poderíamos dizer a respeito deste filme: “Não se esqueçam do que ficou enterrado; impedido de ser vivido.  Não se esqueçam de nossos mortos. Não se esqueçam!”.  Não será para isso que a cena final nos convoca?

 

 

Referências bibliográficas:

Antunes, António Lobo. Quinto livro de crônicas. Alfragide, Portugal: Publicações Dom Quixote, 2013.

Freud, S. (1916 [1915]). “La transitoriedade”. In Obras Completas. Argentina: Amorrortu, 1975, v. XIV

............. ( 1919) “Lo Ominoso”. In Obras Completas. Argentina: Amorrortu, 1975, v. XVII

Tanizaki, JunÍchiro. Diário de um velho louco. São Paulo: Estação Liberdade, 2016.

 

Maria Laurinda R. de Sousa é autora de artigos e ensaios sobre psicanálise e literatura, dos livros Violência e Vertentes da Psicanálise e de livros infantis. É colunista do Blog do Departamento.



[1] Recorte de texto apresentado no evento promovido pelo Coletivo Cinema e Psicanálise nas brechas, realizado no dia 28/6/2026, no cine Bijou:  um debate sobre o filme “Meu bolo preferido”, de 2024. Debatedoras: Delia Catulo Goldfarb e M. Laurinda R. Sousa. A mediação foi de Isildinha Baptista Nogueira. Sou imensamente grata pelo convite a mim endereçado.

[2] Persépolis, de Marjane Satrapi, faz uma tela de fundo para muitas das cenas deste filme e para o que se passou com sua família no Irã com a Revolução de 1979. Marjane viveu exilada na França e faleceu em junho deste ano. Outro filme seu, Frango com ameixas, remete à história de seu tio. Outro filme que trata do que aconteceu durante a Revolução islâmica do Irã é O último poema do Rinoceronte (2012), dirigido por Bahman Ghobadi, baseado nos diários do poeta iraniano Sadegh Kamangar e com uma fotografia intensa e poética.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Por um Aquilombamento Afetivo

AMARELINHA

Carta de Antígona a Ismênia