Porque hoje é 28 de abril
A
colunista do Blog, Maria Laurinda,
faz uma leitura encarnada destes tempos sombrios, e incita-nos a colocar em ato
uma nova utopia, o resgate de nosso país. Uma leitura necessária. Confiram.
PORQUE HOJE É 28 DE ABRIL
Dia
Nacional em memória das vítimas de acidentes e doenças do trabalho, é
necessário falar sobre as condições do trabalho, do desemprego, da fome e da
orfandade.
É
necessário, também, colocar em ato uma nova utopia.
No
Brasil, a cada 50 segundos há uma notificação de acidente de trabalho. Na
última década foram registrados 33.568 óbitos decorrentes de acidentes de
trabalho; muitos deles, assim como as mortes por COVID, poderiam ter sido
evitados.
A
taxa de desemprego no país é a 4ª. maior entre as principais economias do
mundo; mais que o dobro da taxa média global.
Há
um número crescente de pessoas em situação de desalento e, mesmo as que estão
em vínculo formal, são submetidas a exigências abusivas de desempenho. Efeitos
da precarização, uberização e plataformização do mundo do trabalho.
Meritocracia,
empreendedorismo, competitividade, presenteísmo, são termos que precisam,
sempre, ser acompanhados de uma análise crítica e reconhecidos seus efeitos na
saúde física e mental.
Temos
consciência todos do aumento absurdo dos moradores de rua; basta não fechar os
olhos para as tendas, farrapos e arremedo de colchões espalhados pelas ruas,
pelas praças. A maioria dessa população sem teto, sem trabalho é preta ou
parda.
Cerca
de 19 milhões de pessoas passam fome no país.
Mais da metade da população vive situação de insegurança alimentar,
sendo as crianças as maiores vítimas dessa tragédia.
Temos
hoje muitas crianças, pequenos vendedores ambulantes, esgueirando-se entre os
vãos das fileiras de carros; no meio das ruas. Meninos desamparados; órfãos de
futuro. Crescem como outros, iguais a eles, assumindo os riscos de uma infância
abortada.
Temos
hoje mais de 300.000 crianças e adolescentes órfãos da covid e muitos em situações
precárias. O Brasil ocupa o terceiro lugar nesse índice, atrás apenas do México
(o de maior índice) e dos EUA.
Em
entrevista recente, Christian Laval, professor de Sociologia da Université
Paris Nanterre, coloca uma lente sobre o que vivemos neste momento: “o novo é a
manifestação cada vez mais aberta e assumida do caráter violento e autoritário
do neoliberalismo em qualquer uma de suas variantes históricas e nacionais. O
que vemos agora, em plena luz, é uma nova guerra civil mundial. Uma guerra social,
porque busca enfraquecer os direitos sociais da população; étnica porque
pretende excluir os estrangeiros; política e jurídica, utilizando novos meios
de repressão e de criminalização da esquerda e dos movimentos sociais; cultural
e moral ao atacar os direitos individuais e as evoluções culturais das
sociedades”.
Sim,
essa é uma análise importante sobre o mal-estar do nosso tempo, mas a despeito
desse difícil momento, é preciso reconhecer a força da resistência; as vozes
que se organizam em coletivos de solidariedade, de denúncia, de ocupação das
ruas.
A
sabedoria popular nos diz que uma andorinha só não faz verão. Mas juntas, podem
fazer uma revolução.
João
Cabral de Melo Neto, poetizou: “Um galo sozinho não tece uma manhã: ele
precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele o lance a
outro...para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os
galos”.
Meu
grito, que vai convidando outros, lança os seguintes desejos:
Que
possamos resgatar a alegria e sabedoria dos foliões do carnaval, reconhecendo e
denunciando as mazelas de nossa história atual;
Que
possamos resgatar a força dos coletivos e dos laços sociais;
Que
o Estado da força, das armas, se transforme num Estado que possibilite a
garantia dos Direitos Fundamentais para todos: educação, moradia, trabalho,
seguridade social, arte e literatura;
Que,
ao lado dos povos indígenas, nos tornemos guardiões de seus territórios, da
floresta e da vida;
Que
todos juntos possamos mudar o rumo do país nas eleições deste ano;
Que
lotemos os cinemas para assistir “Medida Provisória”, filme dirigido por Lázaro
Ramos.
M. Laurinda R. Sousa é membro do Departamento de psicanálise, psicanalista e escritora. É colunista do Blog do Departamento
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