Escuta Ocupação
Nessa semana, nossa colega Fernanda Franceschi nos
apresenta a clínica Escuta Ocupação, criada no início da Pandemia com intuito
de formar uma rede de atendimentos aos
moradores do MSTC e adjacências. Um movimento de um grande sim das clínicas
públicas e da ocupação dos territórios psíquicos. Como diz Milton na canção:
“Caminhando pela noite de nossa cidade, acendendo a esperança e apagando a
escuridão”. Vida longa ao Escuta!
ESCUTA
OCUPAÇÃO
O
Escuta Ocupação[1]
é um dispositivo clínico criado em abril de 2020, no início da pandemia de Covid-19,
para realizar atendimentos individuais, gratuitos e online para moradoras e
moradores das Ocupações Nove de Julho, José Bonifácio, São José, São Francisco,
Santo Antônio e Casarão, localizadas na região central da cidade de São Paulo.
A
maioria do(a)s usuário(a)s nunca tinha tido acesso à uma terapia, muitos não
têm um local onde possam fazer a sessão com privacidade. Algun(ma)s moradore(a)s
passaram pelo projeto pontualmente, usando o serviço para uma única escuta,
como dispositivo de emergência; outro(a)s se vincularam aos atendimentos, sendo
que algun(ma)s vem sendo atendidos desde o início do projeto, o que tem possibilitado
o desenho de processos analíticos.
Atualmente,
o Escuta Ocupação tem dois eixos de trabalho: a atenção e a formação. As
funções do dispositivo são o atendimento direto aos moradores, as reuniões de
articulação presenciais que acontecem nas ocupações com a assistência social, com
o MSTC (Movimento dos Sem-teto do Centro), militância que coordena essas
ocupações, e, eventualmente, com a UBS (Unidade Básica de Saúde) da República e
com os demais equipamentos que compõem a rede da região; as reuniões da equipe,
a intervisão dos casos (supervisão horizontal) e a supervisão institucional.
No
início, estabelecemos uma parceria com uma assistente social da Ocupação Nove
de Julho, profissional que atuava diretamente com os moradores e que
estabeleceu uma profícua relação de transferência com a coordenação do Escuta
Ocupação, sendo responsável por encaminhar os casos para atendimento clínico.
Recentemente essa profissional foi demitida, o que chegou a colocar em risco a
existência do projeto.
A
chegada de uma nova profissional reconfigurou nossa entrada no território e nos
desafia na tentativa de criar uma articulação tanto com a assistência social da
Ocupação Nove de Julho, como com o próprio MSTC, e com a UBS da República, na
perspectiva de construir e formar uma rede de atenção psicossocial que atenda a
demanda crescente por atendimentos, assim como a produção de pensamento a
respeito do que se produz na prática.
O
projeto nasceu a partir de uma inquietação política e do desejo de um grupo de
analistas de oferecer escuta clínica para os moradores dessas Ocupações, a quem
o direito básico à moradia é inacessível, considerando esses territórios em
suas contradições e complexidades e os efeitos trágicos da crise sanitária e
política que vieram escancarar e aprofundar a crise econômica, a desigualdade,
a vulnerabilidade social e o sofrimento psíquico do(a)s moradore(a)s.
O
dispositivo trabalha voluntariamente na perspectiva da Clínica Ampliada, diretriz
proposta pela PNH (Política Nacional de Humanização) e pelo SUS, que aponta a importância
da dimensão da singularidade do sofrimento psíquico e a subjetividade de cada sujeito
constituída nas e pelas relações sociais, culturais e políticas na prática
clínica. Nessa perspectiva, “o sujeito é produto e produtor simultaneamente dos
laços e discursos sociais”[2] e o
trabalho de escuta acontece nessa imbricação entre o intrapsíquico e o social, o
público e o privado.
É
uma aposta na clínica pública de psicanálise que se propõe a escutar o sujeito
e o território e experimentar a prática em sua potência de transformação
política, na direção da democratização do acesso à Psicanálise e da emancipação
e da liberdade dos sujeitos dentro do tecido social.
Escutar
o território é escutar a partir do público, da localização, da história e da
situação atual, escutar como esse coletivo nos constitui e nos subjetiva. Toda
ocupação é lugar de exílio na cidade, uma Nau dos Insensatus (Foucault,
1972) contemporânea, composta pelos excluídos do sistema, aqueles a quem o
Estado nega os direitos básicos, as políticas públicas de proteção social, de
saúde, educação, cultura e segurança. Lugar “segregado” composto por vidas consideradas
menores, corpos matáveis pelo projeto necropolítico (Mbembe, 2018) do governo
fascista atual.
As
relações de poder impostas pela lógica hegemônica neoliberal que categoriza
raça, classe, gênero para justificar hierarquias em nome da normatividade,
produz efeitos de domínio coletivos, subjetivos e singulares, tanto no campo
macropolítico e social como na micropolítica das próprias ocupações.
A
pandemia atravessou esses territórios e impôs um estado de emergência cujos
efeitos traumáticos agudizam a situação de vulnerabilidade com aumento da
miséria, do desemprego, de situações de violência de gênero, homofobia,
racismo, adicções, suicídios, casos de depressão, ansiedade e todas as formas
de manifestação do sofrimento, exigindo uma elaboração psíquica dessas experiências.
Nesse
contexto em que o público e o privado se misturam, que a experiência de uma
vida coletiva e compartilhada tensiona a experiência do privado e da subjetividade,
há um desamparo do sujeito frente ao discurso capitalista que produz uma
destituição psíquica (Setubal, 2021) ao impor uma forma de ser e de agir
conforme essa lógica dominante.
A
proposta de escutar o sofrimento desses moradores e moradoras no laço
analista-analisando é uma tentativa de fazer frente a esse discurso e garantir o
direito à fala, criando espaço para emergir o sujeito do inconsciente, seu
sofrimento e sua singularidade, a partir da confiabilidade e da garantia de
sigilo.
Essa
atuação ética-clínica-política aponta para uma abertura epistemológica e para a
não-hierarquização dos lugares de fala seja da equipe, seja dos sujeitos atendidos
e para invenção de condições de possibilidade para que esses sujeitos venham a
falar em nome próprio.
A
escuta clínica como intervenção social é um exercício permanente de construção
e interrogação da própria clínica e da teoria psicanalítica que a sustenta que
é, também, atravessada por outros discursos, seus campos de saberes e seus
efeitos. É uma clínica ampliada que não pretende dar conta de todos os desafios
do campo social, mas aposta na democratização do acesso ao tratamento
psicanalítico e na potência de escutar o sujeito do inconsciente e seu
território, assumindo a prática psicanalítica como dispositivo de insurreição
micropolítica (Rolnik, 2021).
Equipe
do Escuta Ocupação:
Ana
Goldenstein, Ana Paula Pacheco, Andrea Bivar, Ariane Leal Montoro, Beatriz
Figueiredo Mello, Camila Coelho, Deborah de Paula Souza, Fernanda Franceschi, Janaína
Bechler, Luciana Roos, Priscila Galvani, Raphael Galuppo Borba e Rita Alvares.
Supervisão
Institucional: Maria de Fátima Vicente.
Referências
bibliográficas:
· AYOUCH, Thamy. Psicanálise e Hibridez,
2020 https://youtu.br/pV7_lpfWhT0
· BRANT, Sebastian. A nau dos
insensatos. São Paulo: Octavo, 2010.
· FOUCAULT, Michel. História da loucura
na Idade Clássica. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972.
· GUIMARÃES, Daniel. Convite à prática
pública de psicanálise. Outras Palavras.net.
·
MBEMBE, Achille. Necropolítica.
São Paulo: n-1 Edições, 2018.
· SETUBAL, Tide. Territórios Clínicos. Uma
escuta psicanalítica entre o singular e o social. In Percurso 67: p. 35 – 42:
dezembro 2021. Instituto Sedes Sapientiae.
· ROLNIK, Sueli. Esferas da Insurreição.
Notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: n-1 Edições, 2018.
Agradecimentos:
Maria
de Fátima Vicente, Rita Alvares, Maria Carolina Accioly, Dedé Ribeiro, Luciana
Pires, Luciana Roos, Ariane Leal Montoro, Beatriz Figueiredo Mello, e especialmente
à Ana Carolina Vásárhelyi de Paula Santos, pelo convite para escrever no blog.
Fernanda Franceschi
é
pedagoga, psicanalista, Mestre em Psicologia Clínica pelo Núcleo de
Subjetividade da PUC/SP e faz parte da equipe do CAJU (Coletivo de Psicanálise,
Adolescência e Juventude).
[1]
O nome do projeto foi inspirado no Escuta Sedes,
mas são propostas distintas de atendimento. O Escuta Ocupação é uma proposta
independente, não é ligada ao Instituto Sedes Sapientiae, ainda que a
maioria das analistas da equipe tenham feito ou estejam fazendo sua formação
teórica e clínica no instituto.
[2] SETUBAL, Tide. Territórios Clínicos. Uma
escuta psicanalítica entre o singular e o social. In Percurso 67: p. 36:
dezembro 2021.
Comentários
Postar um comentário