Marte Um e o Brasil Visto de Dentro
Ao
resenhar Marte Um, filme de Gabriel Martins que nos representará no Oscar 2023
e que está em cartaz em São Paulo, Ivan Martins descreve lindamente o encantamento
e o impacto humanizador que o filme produz ao nos revelar o Brasil colonizado
que insistimos em esquecer.
MARTE
UM E O BRASIL VISTO DE DENTRO
Li, faz alguns anos, uma
pesquisa americana que dizia que irmãos, mais do que pai e mãe, são a maior
influência sobre a vida de cada um de nós. Como psicanalista, informado do
papel essencial dos pais na formação da personalidade, faria hoje uma ressalva
à conclusão da pesquisa: os irmãos talvez exerçam grande influência sobre as
nossas escolhas conscientes, aquelas de que a gente se lembra e pode agradecer
ou lamentar. Os pais estão instalados num lugar mais profundo em nós.
Marte 1, o filme do
mineiro Gabriel Martins que vai representar o Brasil no Oscar, ilustra
lindamente a relação entre irmãos.
O menino Deivinho
compartilha com sua irmã mais velha, a universitária Eunice, os sonhos de
garoto estudioso que os pais teriam dificuldade em entender, enquanto ela fala
com ele sobre escolhas amorosas que também soariam estranhas aos pais. A
cumplicidade entre eles permeia o filme e oferece momentos de grande emoção,
daqueles que faz o cinema todo chorar.
Para um sujeito como eu,
que cresceu com duas irmãs mais velhas, esse aspecto do filme é muito próximo e
caro. Minhas irmãs deram exemplo, abriram caminhos e me ofereceram estímulos de
toda espécie, sobretudo intelectual. Pelas mãos delas chegaram os livros e as
revistas. Na companhia delas presenciei conversas e atitudes que influenciam
até hoje. Por meio delas me vieram a arte, a estética e a ética dos anos 60,
referências definitivas.
Mas Marte 1 é muito mais
do que um filme sobre irmãos.
Essencialmente, fala
sobre a vida de uma família pobre na periferia de Belo Horizonte, mas o jeito
como faz isso é novo e, (correndo o risco de ser redundante), tremendamente
inovador. Me ocorre o adjetivo “descentrado”, favorito dos psicanalistas, que
descreve um sujeito que percebe não estar mais no centro da sua própria
existência psíquica. Com Freud revelaram-se as diferentes instâncias que
dominam a vida interior. Marte 1 faz isso com o mundo à nossa volta. Ele retira
o público do Espaço Itaú do centro egóico da vida brasileira e o põe em contato
afetivo com o Brasil da maioria. O outro Brasil. Ou seria o Brasil do outro?
O filme faz isso de
várias maneiras.
Para começar, sai do
cenário habitual de Rio de Janeiro e São Paulo e nos inunda com o delicioso
sotaque mineiro. Ele se desloca da classe média, mas não nos leva à cena oposta
(e familiar no cinema) da favela. Transcorre numa periferia tranquila, onde as
crianças andam de bicicleta nas ruas de terra. Os adultos trabalham em
condições precárias nas casas de pessoas abastadas, mas as crianças e os jovens
estudam. Há pobreza e aperto, não miséria. A política está presente de forma
documental no filme – com notícias de fundo sobre a vitória e a posse de
Bolsonaro – mas perde importância emocional para o futebol. O discurso da
esquerda é esmagado pela ironia. A luta de classes e a ameaça da lei estão
presentes, mas não tomam a cena. A possibilidade de tudo desabar tensiona a
narrativa, (como a vida precarizada), mas as pessoas sobrevivem às provações.
Elas têm uns aos outros, têm amor, têm amigos. Têm motivos para festejar. Elas
sonham. Sobretudo isso: sonham.
Talvez seja desnecessário
dizer, mas é importante sublinhar: os personagens de Marte 1 são todos negros.
O único branco de verdade que tem voz no filme é o ex-jogador de futebol Sorim,
que interpreta a si mesmo e, ironicamente, é argentino. Os brasileiros brancos
aparecem deslocados, no fundo. Mesmo professores e médicos são pretos. O efeito
dessa monocromia reversa é tão bonito quanto perturbador. Nos faz perceber como
é rara a presença negra nas telas brasileiras – mas não só.
Há no filme um jeito “de
dentro” de mostrar a vida na periferia que tem pouco a ver com o olhar
sociológico do cinema tradicional, feito por homens e mulheres da elite. Há um
lugar de fala que vai se mostrando na construção das atmosferas, naturalmente,
do quarto à cozinha, de forma informada e comovida. Eu me lembrei de imediato
de “Amarelo”, a linda música do rapper Emicida, na qual ele diz:
“Permita que eu fale
Não as minhas cicatrizes
Se isso é sobre vivência
Me resumir a
sobrevivência
É roubar o pouco de bom
que vivi”.
Nas entrevistas sobre o
filme surge muito a palavra “sonhar”. Ela é onipresente na fala do diretor
Gabriel Martins, de 34 anos, cuja família e experiência servem de modelo para Marte
1. Há um sonho poderoso na história dele, o mesmo sonho que Emicida reivindica:
“Não as minhas cicatrizes”. Parte do impacto humanizador do filme é nos pôr em
contato com as aspirações dos personagens e perceber que elas nos são
terrivelmente familiares. São nossos sonhos também, assim como os sonhos dos
nossos filhos. Todos queremos amor, autonomia, realização, conforto. Ninguém
pode se dar ao luxo de apenas “sobreviver”. Há que viver em todos os sentidos,
e os sonhos são parte indestrutível da vida.
Quando terminou o filme,
ainda no escuro e chorando, profundamente comovido, gravei uma mensagem para o
meu filho mais velho, que havia recomendado que eu assistisse a Marte 1. Uma
das coisas que eu disse a ele, e repito a vocês, é que eu mal posso esperar
pelo momento em que mais meninas e meninos negros de todo o Brasil segurem a
câmara para nos contar suas histórias – com seu próprio jeito e do seu próprio
ponto de vista. Primeiro, porque farão outros grandes filmes, como Marte Um, um
dos melhores que vi na vida. Segundo, e talvez mais importante, porque essa é
uma das maneiras de fazer com que o Brasil finalmente olhe para si mesmo com
olhos menos colonizados, menos racistas e menos preconceituosos - e se
descubra, quem sabe, um grande país, com um grande povo escuro,
revolucionariamente sonhador.
Ivan Martins
é psicanalista, jornalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor
depois do outro”.
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