Os segredos da neve
Ao revisar seu livro “Violência” junto às leituras de Han Kang (Atos Humanos (2014) e Sem Despedidas (2021), Maria Laurinda faz um link entre o tema da memória e do luto de tragédias históricas e de como o passado violento não é algo superado, mas uma ferida aberta. Confiram!
OS SEGREDOS DA NEVE
A memória quando está realmente viva, não contempla a história; convida a fazê-la.(Eduardo Galeano)
É só nevar que aquele pensamento fica aqui. Mesmo não querendo pensar, ele continua voltando.
A neve que cai hoje, em Jeju, na Coreia do Sul, e continuará caindo intermitentemente (de fato ou no pensamento) não será a mesma que caiu há mais de 70 anos? Nos dias, meses e anos terríveis que se seguiram ao final da II Guerra Mundial? Quando os EUA invadiram a antiga colônia japonesa para se apoderar do que não lhes pertencia? Interferiram nos movimentos legítimos de autonomia, provocaram o extermínio de grande parte da população (mais de 30.000), atribuíram a culpa aos próprios habitantes do lugar e instalaram ditaduras coniventes com seus interesses políticos e econômicos.
Não foi essa mesma neve que cobriu o resto das casas queimadas, as árvores desfolhadas, os animais e pássaros imobilizados, os corpos das pessoas assassinadas nos pátios das escolas, na areia da praia, nas bocas das cavernas onde, (para dentro delas), estão outros corpos, soterrados e desaparecidos?
Depois, transformada em água, misturou-se ao sangue e aos líquidos escoados desses corpos e aguardou o momento de novamente evaporar, levando consigo pequenas partículas desse pó agora avermelhado.
É esse pó que formará o núcleo dos novos cristais de neve. É esse pó - partícula-restante desses corpos, que será levado pelos ventos e ficará à espera de um novo lugar onde ainda seja possível germinar a vida. Um lugar à espera do menino, esperança de futuro, que deveria chegar em casa onde todos o aguardavam. Não chegou. Foi encontrado junto a outros tantos que como ele faltaram aos encontros marcados.
Não estará nesse circuito da neve uma insistência em anunciar que esses corpos mereciam uma despedida?
Depois que você morreu, por eu não ter podido fazer um funeral, minha vida tornou-se um funeral.
Quando em 1980, outra manifestação em defesa da democratização aconteceu em Gwangju, novamente a multidão foi enfileirada, violentada e assassinada. No auditório que abrigava as vítimas da revolta de 18/5, os jovens tentavam limpar e identificar os corpos amontoados e depois os cobriam com um pano branco de algodão. Corpos à espera de parentes que os reconheçam e os coloquem nos caixões descarregados na entrada daquele cemitério improvisado. Também esses jovens não escaparão à crueldade dos que decretaram o isolamento do lugar. Deveriam ter voltado para casa antes que a polícia chegasse; não o fizeram. Por que ficaram? Não saberiam dizer. Apenas sentiram que deveriam fazer aquilo.
Ei, volta. Volta agora que estou chamando o teu nome. Não podes demorar mais. Volta agora.
Não tem ninguém para chegar, mas eu espero. Ninguém sabe que estou aqui, mas eu espero.
Desde que descobri como se formam os cristais de neve, desde que entendi porque parte daquela população de Jeju deixou de comer a carne dos peixes que se alimentaram dos corpos levados pela maré, não consegui deixar de reconhecer esse circuito incessantemente repetido, em outros tempos, em outros lugares... Mudam-se as localizações geográficas, os tempos históricos, mas imagens semelhantes não deixam de nos assombrar.
Nos escombros das cidades, nos materiais retorcidos pelo fogo, nos acampamentos improvisados, nas travessias por águas que acolhem em seu escuro profundo os que se arriscam na busca de uma hospitalidade ilusória, na crueldade contra os que, em suas singularidades, protestam por seus direitos de existência, nos corpos caídos em tantos lugares, vislumbramos o que há de mais sinistro em nossa humanidade. Perversidade política que pretende calar as pulsões de vida, os desejos de autonomia de sujeitos e povos que não se deixam submeter.
Violências que nos atingem, pois, mesmo sem o saber, somos atingidos pelo silencio dessas mortes, pela neve escorrendo no azul acinzentado da noite escura.
Em seus livros Atos Humanos e Sem Despedidas, Han Kang nos apresenta literariamente o horror do genocídio praticado em sua pátria; a violência em pleno dia, sem sentimento de culpa e sem hesitação. Descreve os pesadelos que reavivam as cenas das salas de tortura. As carroças cheias de cadáveres que serão depositados nos bosques. Os diálogos imaginários entre os que sobreviveram. A dor no corpo e na memória que reaparece, se intensifica e impede o caminhar.
Mas ela também descreve os laços de amizade que persistem até mesmo em mundos paralelos, onde a vida renasce e os pássaros, enterrados debaixo da árvore que a tudo assistira, retornam ao antigo poleiro, sobrevoam pelo interior da casa e pousam delicadamente, como flocos de neve, nos ombros das antigas moradoras.
A literatura como estratégia para dar voz ao que por muito tempo ficou silenciado.
Depois que você morreu... As flores da primavera, os salgueiros, as gotas de chuva e os flocos de neve tornaram-se um templo.
P.S. Este texto foi escrito no momento em que fazia a revisão de meu livro sobre a violência e me encontrei com os livros de Han Kang. Um encontro impactante; agudamente feliz. As frases em itálico são recortes dessa leitura. A data de 18 de maio foi considerada como patrimônio documental pela UNESCO, em 2011.
Maria Laurinda R. de Sousa é autora de artigos e ensaios sobre psicanálise e literatura, dos livros Violência e Vertentes da Psicanálise e de livros infantis.
Laurinda que texto impecavel, profundo, triste! E eu não imaginava de fato que há tão pouco tempo, não minha infância de pós guerra, tanta violência estava instalada nesse país (Corria do Sul) que tanto admiro!
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirLaurinda que texto impecavel, profundo, triste! E eu não imaginava de fato que há tão pouco tempo, na minha infância de pós guerra, tanta violência estava instalada nesse país (Corria do Sul) que tanto admiro!
Excluir