Nas sombras da finitude acompanhada de Clarice Lispector em A paixão segundo G.H.

“O que acontece quando a gente perde o lado confiante de si? Quando o lado esquerdo — o inepto, o desorganizador — reivindica existência? Não se trata de entender. Trata-se de constatar. E de aceitar que os fantasmas, um dia, ganham corpo.” Inspirada, Maria Laurinda conversa com Clarice Lispector. Confiram.

 

 NAS SOMBRAS DA FINITUDE[1] ACOMPANHADA DE CLARICE LISPECTOR EM A PAIXÃO SEGUNDO G.H.

M Laurinda r Sousa - Abril/2026

Aconteceu-me uma coisa que estou tentando entender.

Aconteceu-me uma coisa que me lançou num modo de viver até então incompreensível.

Não, não estou tentando entender.

Não se trata de entender; simplesmente constatar.

Eu vivia confiante no meu lado direito, como se ele, para o sempre, me garantisse a escalada confiante do viver. Eu, ilusoriamente, nada queria saber do lado incipiente, inepto, de mim; como se ele inexistisse em sua potência desorganizadora.

Às vezes, quase num pesadelo, ele solicitava minha atenção, mas eu logo retomava a forma antiga. Conhecida. Domesticada. E seguia confiante. Certa de que o lado direito, que me dava forma e confiança, não falharia. Ausente de tudo que em mim anunciasse desvios inevitáveis de caminhos.

Perda ocasional da memória? ah eu dizia, é só o cansaço; bobagens. Pra que saber o nome do livro que acabei de ler se posso contar o que li?

Como foi mesmo o que li?

Aliás, nem preciso mais lembrar certas coisas. Excessos de imagens, de notícias desnecessárias. Uma desatenção reativa.

Quedas ocasionais? Mas, Deus do Céu, com tantos destroços nas ruas, tantas bombas povoando de corpos caídos nossos chãos, quem não anda levando tombos pela vida?

O tempo, esse ingrato ser, começou a encurtar os dias; por mais que eu corresse, ou me iludisse tentando manter a organização anterior ou meu equilíbrio pretensamente estável, nada parecia caber nas horas do dia. Elas começaram a importunar as horas da noite.

Tudo isso, eu dizia, não atingia a minha montagem humana, aquela que construí na confirmação de mim.

Será mesmo?

Agora eu sei, algo levemente assombroso penetrava levemente nas réstias da minha consciência, mas não cabia em mim.

O mundo inteiro, o mundo de dentro de mim, teria que se transformar para agora, depois do que me aconteceu, eu poder engastar meu novo modo de ser.

Sei que parece exagero, desmesura, que algo tão imprevisto, como a queda de meu lado direito, viesse a mudar meu formato de ser. Mas foi isso que me fez ver que a vida não era só o que eu vivia.

Os fantasmas ganharam corpo.

O lado esquerdo reivindicou seus poderes. Exigiu reconhecimento de carência! de finitude...

Maria Laurinda R. de Sousa é autora de artigos e ensaios sobre psicanálise e literatura, dos livros Violência e Vertentes da Psicanálise e de livros infantis. É colunista do Blog do Departamento.


[1] Texto escrito em função de uma queda que exigiu a imobilização de meu braço direito

 


Comentários

  1. Me emocionei com seu texto! Tão próximo de todos nós que estamos a deriva do tempo vivido! Abraço

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Por um Aquilombamento Afetivo

Carta de Antígona a Ismênia

Quando a fantasia vira realidade: efeitos psíquicos do incesto