Um texto de gratidão e reconhecimento a Maria Auxiliadora Vidigal Cavalcanti de Souza – Pituca
"No final de março perdi uma amiga. Durante horas e horas perdi minha montagem humana. Não sei se terei uma outra para substituir a que perdi. Sei, também, que não se trata de substituir..." assim Laurinda começa seu lindo texto recheado pelas boas lembranças de seu convívio com Pituca. Confiram:
UM TEXTO DE GRATIDÃO E RECONHECIMENTO A
MARIA AUXILIADORA VIDIGAL CAVALCANTI DE SOUZA – PITUCA.
M. Laurinda R. Sousa
Abril/2026
No final de março perdi uma amiga. Durante horas e horas perdi minha montagem humana. Não sei se terei uma outra para substituir a que perdi. Sei, também, que não se trata de substituir...
Quando Gisela Haddad me sugeriu escrever sobre ela para o Blog, pensei em muitos caminhos; fragmentos de conversas, cenas das reuniões no Sedes, na casa dela, na minha, nos consultórios, nos encontros psicanalíticos, no grupo com Barbara Heliodora para ler Shakespeare, nas longas conversas sobre a vida, nas confidências da intimidade, na coincidência de termos filhos e primeiro neto com os mesmos nomes, nos tropeços da vida familiar, nas viagens partilhadas, na paixão pela música, pela literatura, nas pessoas queridas que a partir dela constituíram um grupo de intensa troca e amizade.
A música e a arte da cozinha foram como a terceira perna (imaginada por Clarice Lispector em Paixão segundo GH) para sustentar a vida que estava sendo levada pelo seu adoecimento. E que, muitas vezes, apesar de tudo, nos divertiu. Rimos, brincamos, fomos muitas vezes à Sala São Paulo (a música se manteve como alento), aprendemos a caminhar com a cadeira de rodas em calçadas difíceis de transitar. Nos difíceis caminhos a percorrer.
Para falar sobre Pituca (Maria Auxiliadora Vidigal Cavalcanti de Souza) é preciso um coletivo. Por isso imaginei uma conversa em volta da mesa com Adriana Testa, Anna Mehoudar, Dulce Aquino, Elza Marques Lisboa de Freitas, Eva Wongstschowski, Tera Leopoldi, Vera Montagna e o eco de muitas outras vozes; pessoas que partilharam sua vida com ela e que desde a pandemia, quando ela sofreu um AVC, se mantiveram num grupo de apoio e solidariedade. O que se segue, é um recorte dessas falas. Elas me chegaram oralmente ou por escrito. Consegui, também, uma entrevista com Neide (Leoneide de Souza Viana); uma das mulheres que frequentou, desde o início, o projeto em Paraisópolis, há quase 30 anos. Uma fala que pode dizer do efeito que ele teve sobre essa comunidade.
Dulce e Elza partilharam adolescência e juventude com Pituca (Elza, psicanalista que mora no Rio de Janeiro, é uma irmã de afeto desde a infância); uma história viva de viagens, amores, interesse pela dança e pelas artes, participação política. Ela até quis ser vereadora! É Dulce quem o diz: “Nos finais dos anos 80, ela me falou de um convite para trabalhar como voluntária na favela de Paraisópolis. ‘Sempre desejei isso, mas... eu queria mesmo... é ser vereadora’”.
Ela não foi vereadora, mas fez um trabalho político-social significativo e muito criativo. Com a parceria de Natalina Mutarelli, uma psicanalista amiga, construíram a “Casinha” e Pituca caminhou no fluxo de suas utopias de transformação do mundo. Reuniu mulheres da comunidade, com pretexto de ensinar a cozinhar, e ali construiu um trabalho de emancipação feminina e sororidade. Um arquiteto amigo fez o projeto do espaço e André, seu filho, sugeriu o nome: “Gosto de Saber”, referido ao paladar e ao prazer de aprender; uma psicanálise na comunidade, uma psicanálise em volta do fogão; a comida como objeto transicional para um outro encontro possível com a realidade, para reconhecer e aprender a se defender de certas situações de violência que viviam.
Desse trabalho, Neide me diz que ela e as outras mulheres sentem muita falta. “As conversas que ela tinha com a gente eram muito importantes. Era muito forte o prazer que ela tinha em estar lá; a gente se espelhava nela, organizávamos os eventos e crescíamos muito na casinha. Ela fez, também, o grupo com os adolescentes; alguns se profissionalizaram e foram trabalhar com o que aprenderam lá. Se alguém tinha um problema em casa, na família, Pituca era uma referência; sempre encontrava um jeito de ajudar, de discutir, orientar, fazer um encaminhamento”.
Outra decorrência de seu trabalho em Paraisópolis foi o grupo de Yoga que existe desde 2011 até hoje. Aconteceu assim: fazíamos parte de um grupo de yoga com a tia de Adriana (outra amiga deste grupo), Myriam Chohfi. No final de 2010, Pituca pediu um presente especial para Myriam – que fosse dar uma aula para as mulheres da Cozinha. Elas se encantaram e desejaram que Myriam continuasse as aulas durante o ano. Myriam não podia, mas os olhares se voltaram para Adriana que também fazia formação nessa atividade. E assim, se constituiu um projeto de yoga aberto para a comunidade, todos os sábados. Um projeto apadrinhado por ela.
Várias vezes falamos da importância de registrar esses encontros; de partilhar essa experiência. Ela se propôs a juntar os escritos deixados nas gavetas e eu me dispus e ajudá-la na escrita final; não conseguimos; ficaram na memória dos que a acompanharam.
Esses projetos foram uma de suas facetas. Há muitas outras; na clínica e na vida institucional.
Se havia um caso difícil, com atravessamentos familiares complexos, todas sabíamos: Pituca seria uma boa indicação de analista. Anna me fala com encanto sobre sua maneira de trabalhar e o jeito mineiro e irreverente de fazer uso de provérbios que “caiam como luva” em certas sessões.
Amiga do psicanalista mineiro Paulo Ceccareli, que foi aluno e amigo de Joyce McDougall, começou o movimento para trazê-la ao Brasil, para a realização de seminários e encontros de supervisão. O primeiro aconteceu em abril de 1994, em S. Paulo (organizado junto com Eva Wongstschowski e Helena Mange Grinover); o segundo em março de 1996. Vera Montagna, que participou dessa organização e foi uma das apresentadoras de um dos casos clínicos para a discussão com Joyce, guarda várias fotos e fitas gravadas desses encontros. Encontros importantes para todos que estiverem presentes nessas discussões e que revelavam o clima de implicação desejante de nosso Departamento. Sim, preciso lembrar que Maria Auxiliadora (Pituca) fez parte do momento inaugural do Departamento. Participou das reuniões para definição de seu estatuto e esteve presente na primeira Comissão Coordenadora. Muitas dessas reuniões aconteceram em seu consultório. Pituca tinha um jeito todo próprio para promover e incentivar movimentos.
Mas é da intimidade de tantos anos, das conversas à volta da mesa em sua casa, do jeito mineiro de juntar amigos e contar histórias, de estar presente sempre que alguém precisava de ajuda, de implicar os amigos a se comprometer com o que julgava importante, que sinto falta. Tive o privilégio de herdar a toalha mineira de sua mesa. Com ela na mesa de minha casa, gosto de juntar e encontrar os amigos. Pituca estará sempre presente.
Maria Laurinda R. de Sousa é autora de artigos e ensaios sobre psicanálise e literatura, dos livros Violência e Vertentes da Psicanálise e de livros infantis. É colunista do Blog do Departamento.
Querida Laurinda
ResponderExcluirQue retrato lindo e autêntico voce trouxe de Pituca. Gostei muito de estar ao teu lado na missa. Relembrei tantas facetas de Pituca sua amorosidade sagaz e tão multiplicadora de vida! Depois o encontro com Tiago seu filho e as filhas de Helena, Marina e Paula, deram uma sensação de continuidade e devir. Obrigada pela partilha de seus afetos amigos!
Laurinda, retrato mais nítido da nossa querida Pi, não tem. Além de toda saudade e de ter acompanhado todo trajeto dela nos bons e maus momentos, devo confessar q não conseguia vê-la na tristeza q ficou. Ficaram os bons momentos, os projetos, os sonhos e o grande amor q tinha por ela. Hoje somos todos Pituca! Que ela esteja em paz, onde quer q esteja, e estará sempre aqui, entre nós!
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