O luto e o Big Brother Brasil

Ligia Ungaretti discorre sobre a importância do luto ao analisar um episódio do Big Brother. Confiram: 

O LUTO E O BIG BROTHER BRASIL

Todo o meu tempo antes dedicado à televisão foi colonizado pelos streamings. Quase nunca vejo TV aberta. As notícias (que tenho) da programação dos grandes canais chegam através de cortes que as redes sociais me oferecem. Hoje me apareceu uma postagem do Tadeu, apresentador do Big Brother Brasil, contando para a Ana Paula, participante da 26 edição do programa, da morte de seu irmão.

Os elogios ao corte mencionado são muitos e faço coro a eles. Foi tocante ver ambos se solidarizando pelo processo duro que os dois estão vivendo, podendo contar a própria história de dor, ainda que muito brevemente. Dito isso, arrisco falar aqui de um incômodo que senti assistindo a esse trecho do programa.

Ana Paula perdeu o pai há poucos dias e, apesar da dor, decidiu permanecer no reality show, assim como Tadeu, que perdeu o irmão nessa semana e decidiu não faltar às gravações do programa por nenhum dia.

Foi esse o ponto que mais me chamou atenção, porque o luto vivido pela morte de um ente querido requer trabalho, dedicação mesmo. Claro que cada um vive esse processo à sua maneira e seguir trabalhando pode ser uma via de elaboração possível, mas me incomodou que em rede nacional, a abdicação ao direito pela licença ao luto fosse de tal forma enaltecida e admirada… O orgulho por não faltar ao trabalho apesar da morte de alguém próximo.

A licença por luto - de apenas dois dias - é prevista em lei, portanto é direito dos trabalhares registrados. Não é o caso de muitos de nós e sim, podemos entender ela como um privilégio. Mas criar uma aura que a deslegitima seria de interesse de poucos, e esse é o ponto de atenção.

Fazendo uma analogia a outras situações de licença (guardadas as devidas proporções) seria como premiar uma puérpera que vai ao trabalho logo após parir ou um acidentado com ferimentos graves que não falta um só dia ao serviço.

Numa sociedade neoliberal que todo e qualquer sacrifício do trabalhador é estrategicamente comemorado por aqueles a quem interessa tal sacrifício, lutar pela preservação do direito ao espaço para o luto é uma luta necessária.

Foi bonito ver a cena do Tadeu acolhendo a Ana Paula através da própria história, porque contar do próprio luto pode sim ajudar alguém enlutado, assim como ouvir do luto do outro pode ajudar no nosso próprio trabalho de luto. Foi o que vi acontecer no BBB26 e me alegro que tanta gente tenha assistido a essa cena.

Mas a Globo não é inocente e sabe que esse tipo de conteúdo gera um engajamento altíssimo - vide eu, que não acompanho o programa, pensando longamente sobre ele em pleno feriado. Mas, apesar disso, me alegro de ver duas pessoas de olhos marejados compartilhando suas dores de morte na televisão; me emociono com o espaço dedicado a isso.

Que possamos ter cada vez mais lugares para contar e compartilhar nossas histórias de morte, de dor e de luto. Seja em rede nacional, seja de licença e recolhidos em nosso próprio lar.

Ligia Ungaretti Jesus é psicanalista, mestre em Psicologia Social pelo IPUSP, e aspirante a membro do Departamento de Psicanálise


Comentários

  1. Parabéns Lygia
    Concordo com sua reflexão.
    A Rede Globo, exorbita!

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  2. realmente, num mundo neoliberal o desempenho como premissa básica e incessante é parte do sofrimento psíquico cotidiano. A solidariedade na dor é humanamente necessária, mas se vira espetáculo, dá o que pensar e escrever. grata pelo texto

    .

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