A procura de uma língua que possa chamar de sua

Maria Laurinda homenageia a escritora moçambicana Paulina Chiziane, primeira mulher a publicar um romance em seu país, e primeira mulher africana a receber o Prêmio Camões. Confiram!

 

A PROCURA DE UMA LÍNGUA QUE POSSA CHAMAR DE SUA

Não tenho língua, ela me disse.

Falou com tanta convicção, tanta certeza, que cheguei a pensar ser delírio minha escuta.

Seja por minha expressão de espanto, seja porque queria me fazer entender o que dissera, ela continuou.

A língua que falo não me pertence. Ou seria melhor dizer não pertenço à língua que me impuseram.

Era outra a língua que falávamos. Com ela contaram-se muitas histórias. Com elas cresceram meus ancestrais.  Quando foram retirados à força de sua terra e levados para lugares distantes, em travessias por mares desconhecidos, junto com pessoas de línguas diferentes, foram atingidos por intensa tristeza. Por aquilo que depois os especialistas nomearam como banzo, nostalgia.

Alguns pereceram em alto mar e foram jogados nas águas sem que os cantos sagrados pudessem ser entoados e seus corpos devidamente velados. Outros, que por aqui chegaram, tiveram seus nomes mudados e os senhores, apossando-se de seus corpos, pretenderam também roubar suas histórias e suas línguas. Se resistiam a isso eram açoitados e supliciados.

Era frequente a tentativa de entregar-se ao mar, lançar-se às águas numa tentativa desesperada de fazer a travessia de retorno.  Ou, devorar a terra com a ansiedade de encontrar o sabor do lugar de origem.

O mais curioso, disse-me ela, foi a descoberta de que podiam escutar o som vindo das profundezas das águas. Imagino ter sido assim que algumas histórias se preservaram. Às vezes, sonho com esse som que me chega com o barulho forte das ondas quebrando-se nas areias da praia. Tenho tentado decifrá-lo.

Ao escutá-la, lembrei-me do som da estranha baleia azul, identificado pelos pesquisadores da marinha dos EUA. É um som muito diferente do emitido pelas outras baleias, por isso, ela ficou conhecida como “baleia solitária”, aquela que não encontrava resposta a seus chamados, tornando-se inaudível aos seus pares.

Foi um som também inaudível que Paulina Chiziane nos fez conhecer quando nos legou seus escritos, suas histórias e suas falas.  Primeira mulher negra, africana, a publicar um romance, rompendo, em 1990, aos 35 anos, o poder de uma história colonial, patriarcal e de branquitude.

De nossos ancestrais, disse Paulina, recebemos uma história de poder da mulher africana; uma história de poder que foi usurpado pela colonização. Tentaram romper nossa herança e nossa força. A Educação era restrita às mulheres brancas; às mulheres negras não era dado esse direito. Suas vozes, para esse poder ilegítimo, não existiam; eram inaudíveis. Foi com a independência de Moçambique que consegui publicar meu primeiro romance... houve coragem suficiente para sonhar com a liberdade que temos hoje. Para o equilíbrio do mundo, ela conclui, falta a voz das mulheres nos livros que contam as histórias das civilizações.

Estava vagando nessas lembranças, quando a jovem à minha frente, me interpelou: Você entende, agora, por que eu não tenho língua?

Vi, em seus olhos, uma tristeza que vinha de longe, das muitas gerações que a antecederam. Mas reconheci, também, a força de uma investigação de quem procura pela sua origem, por uma cultura e uma língua que possa chamar de sua.

 

P.S. Quando recebeu o Prêmio Camões, em 2021, Paulina Chiziane fez questão de falar com os jornalistas em sua terra, em frente a uma fogueira. Foi assim que ela aprendeu as primeiras histórias contadas por sua avó, como era tradição em Moçambique.

 

Maria Laurinda R. de Sousa é autora de artigos e ensaios sobre psicanálise e literatura, dos livros Violência e Vertentes da Psicanálise e de livros infantis. É colunista do Blog do Departamento.


Comentários

  1. Homenagem mais que merecida ! Que história inspiradora !

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  2. Que delicadeza de texto! Uma verdadeira trama de crochê para essa bela homenagem. Parabéns, Lau!

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