A partir de Oswald de Andrade. Memórias sentimentais de João Miramar
Fim da escala 6x1. Outro mundo é possível. M. Laurinda resgata a Terra Brasilis de Oswald de Andrade, guia irreverente para uma outra gramática do viver.
A PARTIR DE OSWALD DE ANDRADE
MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE JOÃO MIRAMAR
Oswald foi escritor, poeta, ensaísta, jornalista. Crítico. Irreverente.
Denunciou, várias vezes, o colonialismo de nossa literatura e a cópia das artes europeias.
Desempenhou papel fundamental na busca de uma linguagem e identidade brasileiras que não deixasse de estar aberta ao movimento das vanguardas mundiais.
Em seu Manifesto Antropofágico, inspirado explicitamente em Marx, Freud, Breton, Montaigne e Rousseau, propôs uma língua nacional diferente do português, dando lugar ao “erro criativo”; um erro que se soma ao canibalismo onde o colonizado come o colonizador tornando-se melhor, mais forte e criativamente brasileiro.
Em tempos de retomada das análises dos efeitos do colonialismo, do racismo, da valorização da cultura dos povos originários, pareceu-me oportuno retomar a “subversão brincante” da construção da gramática e resgatar o tom irreverente desse autor que nos propôs o sempre atual Manifesto antropofágico, publicado em 1928, e cujo verso icônico “Tupi or not Tupi: eis a questão” é representativo de seu movimento.
Na primeira frase do Manifesto, a explicitação do convite à união: “Só a Antropofagia nos une Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”. E, logo a seguir, a positivação das Revoltas: “Queremos a revolução Caraíba. Maior que a revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem”.
Não nos cabe, tantos anos depois, retomar essa positividade em defesa da Soberania Nacional, das Terras Raras, dos territórios indígenas? Relançar olhares inquietantes para cenas miúdas de nossa cidade?
Vamos, então, canibalizar – com ou sem canabis - seu “Memórias Sentimentais de João Miramar”, livro que marca novos e inusitados destinos para a literatura e cultura brasileiras.
Na cidade
Entre sirenes de buzinas carros motoboys zunidos de bicicletas a cidade metalizada insone amadruguece.
No lusco fusco dilúculo gentes nascituras se entubam nos bus, metros, calçadas. Sardinhas ordenadas. Cabeças videoclonadas.
Modern times
Saída do teatro
Boulevar de pessoas gentrificadas. Roupas de vanguarda balanceiam passos - descompassam pensamentos
Nas calçadas soturnas caçambas de lixo proliferam dejetos.
Sementeira de cogumelos.
Frangalhos de trapos recostam-se nos gap das portas.
Dormitam no fustigo dos ventos embalo de tempestades.
Na favela
Petizada chapinha no lamaçal de barro. Fazem vezes-revezes de bandidoxladrãoxmocinho. Atiram-se bolinhas de gude.
Tudo termina em fuzarca.
Incompreensível
De tanto titubear. Misturar lé com cré. Se debater no cipó das letras mal ajambradas, fez a todos.todas.todes pedidos de aclaramento. Disse redisse
acendam candeias de entendimento...
Nomeação
nome ação. Amou o mar suspirosamente. houve por bem chamar o filho como quem chama por ele. Ficou assim Miramar
João veio depois. Era o nome de quem lhe pôs semente.
João Miramar
atravessou mares. viveu na cidade. na favela. artistou. fez malabares da vida.
Tentou juntar lé com cré. vagamundeou
Não deu conta. Escafedeu-se
Tornou-se universalmente
Singular
M. Laurinda R. Sousa é psicanalista, escritora e colunista do Blog do Departamento.
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