Passagens

Próximos à uma eleição em que ou se escolhe manter a Democracia ou se entrega o país às marcas fascistas de nossa história, Maria Laurinda opta por manter a poesia e a abertura para o sonho, para a imaginação e o inesperado. Confira.

 

PASSAGENS
Setembro/2026

No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada; 
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma

João Cabral de Melo Neto

Em todas as distopias e fascismos do século XX, há a proibição à leitura, o controle da Educação e do pensamento. Nas religiões temos uma devoção à palavra, mas muito facilmente essa devoção é à palavra instituída, à palavra já dada. Não à palavra aberta, à palavra do inesperado, à palavra poética. 

Antonio Cândido, na contracorrente dessa tendência, propôs em um de seus ensaios, em 1988, o Direito à Literatura como um dos Direitos Fundamentais, considerando-o um bem indispensável para a formação crítica e para a humanização.

Nestes tempos, tão próximos de uma eleição em que está em jogo a escolha pela Democracia ou a entrega do país às marcas fascistas de nossa história, meu voto inclui a possibilidade da poesia, a recusa da transformação do pensamento em obediência. A abertura para o sonho, a imaginação, o inesperado.

A aposta no porvir de uma vida digna, construída no dia a dia, entre todos. 

I.
As ruas de minha terra
Tinham pedras de brilhantes

não brilham mais

são pedras – só pedras
pedregosas, ásperas
pedras perfurantes

ferem feito facas
os pés dos passantes

II.
O rio Tietê conta 
histórias paulistanas
 
suas águas – outrora limpas
margeiam hoje
monturos de lixos da cidade

III.
No cimento da calçada
um pobre homem – parece -
dormita.

Faz pouco, muito pouco
o frio tomou sua alma

Amanhã, sem reza
sem despedida
Seu corpo, 
fardo na vida,
Por sob a terra
dormita

O tempo
não mais quando

IV.
Este país tem                                                          
gente de sobra                                                              
que mente com lucidez.                                              
 
faz discursos prêt-à-porter                                         
(pra quem os levar em conta)                                    
do alto de sua latrina                                                   
                                                                                        
Tem racismo xenofobia
misoginia aporofobia

Mente bem
Essa gente vigarista

Tem apego aos lugares
feito craca de navio
atravancado no cais

não navega
não deixa passagem

se impõe fortaleza
esquadria
para qualquer utopia

Neste país
Tem gente de montes
que vence a indiferença
 a acídia
a mandância
a maledicência

Diz não ao desfazimento
E se lança a tecer
Da vida o dia a dia

Neste país 
Tem gente que sonha
sonhos vivos, inteligentes
sonhos de consciência 

Neles cabe poesia

V. 
De tanto buscar palavras
o poeta ensimesmado
sofre

Fecha os olhos
pousa na mesa a cabeça

vazios
nadas

Só a caneta, presa nos dedos
fica à espera

o poeta
ensimesmado
perscruta as entranhas d’alma

Persiste

M. Laurinda R. Sousa é psicanalista, escritora e colunista do Blog do Departamento de Psicanálise

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