Poiética. A escola que queremos

Quer conhecer um pouco da estória do livro recém-lançado "A escola que queremos. Utopias desejantes" organizado por Alcimar Alves de Souza Lima, Esméria Rovai e M. Laurinda R. Souza? Confira

 

POIÉTICA. A ESCOLA QUE QUEREMOS

Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos

...para que a manhã, desde uma teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

João Cabral de Melo Neto


Ou construímos escolas de qualidade,

ou teremos que construir penitenciárias.

Darcy Ribeiro

Poiética. Poesia. Ética. Política. Em defesa da Democracia; sempre em construção.

Essas seriam boas palavras-condensação para o encontro realizado no sábado, 12 de junho de 2026, na Livraria da Vila. Um encontro para o lançamento do livro A escola que queremos. Utopias desejantes, publicado pela Editora Blucher.[1]

Quiseram as circunstâncias que o lançamento ocorresse num momento muito favorável: estamos às vésperas das eleições e a Educação, como sabemos, é pauta sempre presente nas campanhas políticas. A pergunta para a qual é preciso resposta diz respeito à Educação que queremos. Quais são as utopias que vislumbramos e pelas quais nos tornaremos responsáveis?

Neste mês tivemos, também, a 28ª. Bienal Internacional do livro – literatura, ficção, ciência, poesia convocaram olhares e interesse dos mais de 750 mil visitantes. E, no Itaú Cultural, abriu-se uma exposição sobre Anísio Teixeira, defensor de um projeto pedagógico pioneiro na educação brasileira em defesa de um ensino público de qualidade, laico, gratuito e universal. Mês em que se comemora, ainda, o nascimento de Paulo Freire (19/9/2021), reconhecido como Patrono da Educação Brasileira e um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial.

Outra marca importante deste lançamento diz respeito à escolha que nos foi oferecida pela editora: um lançamento online com a possibilidade de atingir muitas pessoas, ou, um lançamento presencial?

A escolha dos autores pela presença foi decisiva: foram as falas encarnadas, os afetos corporificados que marcaram a tônica da potência desse encontro.

O dia chuvoso, as ruas interditadas, a manhã que convidava à evitação da cidade, não impediram o calor emotivo e produtivo das presenças e da escuta dos autores falando do percurso de cada um pelo tema que escolheram, dos impasses vividos nas escolas por onde transitaram, das estratégias criativas para despertar a curiosidade, o interesse, as perguntas dos alunos. E do cuidado necessário para que os enigmas não sejam respondidos pela imediatez da inteligência artificial; tornando possível a suspensão do tempo para que o acaso, o não saber, possa surgir e produzir novas respostas, novas poéticas. Fez-se ato o poema de João Cabral de Melo Neto.

Este texto, escrito para o Blog do nosso Departamento, é um convite à leitura deste livro. Meu desejo é que o clima descrito acima possa envolver e tornar instigante essa leitura. Dele, posso, apenas, apresentar fragmentos, “gritos dos galos que convidam ao enlace de outros gritos, para que se vá tecendo o amanhã”:

Ana Lídia, Wellington e Aurélio, nos contaram do grande desmonte provocado pelo neoliberalismo nas escolas públicas, e da necessidade e importância da articulação com os serviços existentes no território do qual a escola faz parte. Trabalho tecido com muitos desafios, suor e implicação. E com sofrimento, visível em seus relatos.

Silvio resgatou a história de um projeto educacional que marcou minha juventude: o Colégio Equipe e a luta persistente por uma escola de qualidade que foi respondendo aos impasses e demandas das adversidades políticas e tentando tornar-se realmente inclusiva. Nessa proposta, a presença do legado dos Colégios Vocacionais – experiência pioneira da década de 60, extinta pela ditadura deste país e da qual participaram Alcimar (como aluno) e Esméria (como professora).

Lincon transformou em ato sua proposta de uma poesia capaz de desafiar os parâmetros, regulamentados pelas plataformas, para uma escola burocrática e romper com o mito de um tempo cronológico impossível de cumprir. A ele interessa o Kairós, o desenvolvimento de aulas criativas, fantásticas e autorais. Propôs ao grupo um trabalho de 5 minutos: com 5 frases vinda dos presentes, criou-se um poema!

Iara, que escreveu em parceria com Laurinda Ramalho, apresentou-nos o plano Langevin-Wallon, proposto na França, ao final da II Guerra Mundial, cujos princípios e fundamentos – Justiça, dignidade igual para todos, orientação e cultura geral, deixaram raízes consistentes para a Democracia que queremos hoje. Em sua fala, o esforço e valor da pesquisa consistente em Educação.

Rita tem uma forma atraente de falar da matemática e de como ela provoca “coceira nas ideias”. A matemática está em tudo que compõe o universo; nas moedinhas que as crianças contam, no tamanho dos sapatos, na medida dos espaços, na articulação possível com outras disciplinas. Eu poderia, também, incluir aqui o número dos sorrisos que ela faz ao nos instigar a reconhecer a importância dessa matéria.

Paulo, um arte-educador polivalente, falou-nos da importância do “estar com a arte nas ruas”, convocar a brincadeira, a partilha. É cenógrafo, bonequeiro (seus bonecos imensos são um atrativo em exposições e nos carnavais), contador de histórias e educador na Escola Municipal de Iniciação Artística, uma experiência que admiro e que conheci há vários anos atrás, quando meus filhos a frequentaram. Uma escola aberta à arte, à participação de todos. Foi com vivacidade que ele nos falou de suas artes e dos impasses vividos com a política.

Marito, nos apresentou seu projeto da escola como espaço de cuidado e CURA (Consciência, Unidade, Respeito e Autonomia). Contou-nos de sua vinculação com espaços de precariedade e violência e da delicadeza generosa necessária para os encontros criativos. Hoje, atua como gestor de políticas públicas. É muito promissor saber que há educadores experientes e implicados nessa função.

Danilo, também com muita delicadeza e entusiasmo, contou-nos dos encontros itinerantes com a Educação. Seus trajetos por escolas ora bem equipadas, ora sem condições para atividades básicas. Em todas elas, o olhar e a participação curiosa das crianças e dos jovens. Emocionou-se e nos emocionou ao falar do abraço e das palavras de gratidão de uma criança: “Foi o melhor dia da minha vida”!

Julia, José Carlos e Joyce(laine) não puderam estar presentes. Mas falamos, de forma reconhecida, de seus escritos.

Julia articula os campos da pedagogia e da psicanálise, voltando-se para as questões relativas à inclusão escolar. Sua pergunta é fundamental: O que causa a possibilidade do pensar e o que cria obstáculos a esse processo?

José Carlos traz sua experiência como médico no espaço escolar e nos levanta a indagação sobre os profissionais necessários para compor a esquipe de uma escola.  A integração em rede com os serviços do território, seria suficiente?

Joycelaine defende uma escola que sonha as palavras; a utopia de uma outra escola possível. Uma escola que inclua no seu cotidiano o contar e ouvir histórias, o valor da imaginação e da fantasia. No falar poético de sua história pessoal, partilha com o leitor, a construção do seu “tornar-se educadora”.

E assim, “de grito em grito de cada galo”, fui contando um pouco do enredo deste encontro e deste livro. As vozes que o compõem são análises críticas do que vem acontecendo e nos convidam para o conhecimento de práticas possíveis, seus princípios, seu fazer cotidiano, sonhos e desejos que anunciam outras formas possíveis de educar e de viver.

Uma nota final. Todo este processo – do fazer o livro, do partilhar seu conteúdo, teve, sempre, a presença incentivadora de Esméria Rovai. Ela nos deixou em 8 de agosto de 2025, mas seu legado permanece vivo. Esméria teve participação significativa em projetos educacionais que marcam a história deste país, sendo referência para os de sua geração e para os novos educadores que virão.        

M. Laurinda R. Sousa é psicanalista, escritora e colunista do Blog do Departamento.



 (1) Este livro foi organizado por Alcimar Alves de Souza Lima, Esméria Rovai e M. Laurinda R. Souza e escrito por mais 14 autores: Ana Lídia O. Aguiar, Aurelio Galdino da Silva, Wellington Douglas da Silva; Silvio Hotimsky; Iara Gonçalves de Aguiar Sant’Anna, Laurinda Ramalho de Almeida; José Carlos Machado; Lincon Guassi; Rita de Cássia Domingues Madorno; Julia Anacleto; Marito Melendez; Paulo Farah André; Danilo Tomic; Joycelaine Oliveira.

Gratidão a Flávio Ferraz pelo estímulo e acolhida a mais um volume da trilogia Escola, Espaço de Subjetivação, cuja história está contada na introdução do livro agora lançado.


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