Sonhar a Morte - Resenha de “Luto e Trauma - Testemunhar a perda, sonhar a morte”
Adriana Omati nos apresenta excelente resenha do livro Luto e trauma - testemunhar a perda, sonhar a morte, escrito por Luciano Bregalanti a partir de sua pesquisa de mestrado.
SONHAR A MORTE - RESENHA DE “LUTO E TRAUMA - TESTEMUNHAR A PERDA, SONHAR A MORTE”
Adriana Omati
O livro “Luto e Trauma - Testemunhar a perda, sonhar a morte” de Luciano Bregalanti publicado pela Blucher em 2023 nasceu da pesquisa de mestrado do autor sob orientação de Paulo Endo, na Universidade de São Paulo. Acompanhei a produção de Luciano, amigo querido e interlocutor da clínica de longa data, no processo do mestrado sempre que possível. Exatamente porque sei de sua potência não só no consultório, mas como quem produz o que Endo chama no Prefácio de “texto necessário e elegante”. Sabia que iria encontrar o que Luciano fez nesse livro antes mesmo de o abrir, a saber, uma produção cuidadosa, clínica, crítica quando necessário e principalmente, generosa com o leitor.
É com essa generosidade que Bregalanti inicia a introdução do livro, narrando um sonho que teve com seu próprio avô, figura querida que incentivou o neto a fazer aquilo que não tinha podido fazer: estudar. Este primeiro relato, que são as primeiras palavras do livro, me remeteram instantaneamente aos meus marcantes próprios sonhos, transcorridos ao longo do ano de 2024, onde me encontrava com meu pai falecido em janeiro do mesmo ano. Reler esta produção para escrever esta resenha para o Blog do Departamento foi um reencontro muito bem vindo com o luto, o testemunho, a perda, o trauma e o sonho, temas trabalhados com excelência e fôlego por Bregalanti.
Este trabalho se dá em seu texto através de uma cuidadosa revisão da obra freudiana ao longo do tempo - mas não de maneira isolada-, principalmente no primeiro capítulo intitulado “Da melancolia ao luto”. Luciano trabalha, claro, o texto de Freud de 1917, ainda que não restrinja em absoluto o desenvolvimento da teoria freudiana a ele. Encontramos também neste capítulo uma revisão do conceito de melancolia, passando pela Ilíada, ascídia dos monges da Idade média e outros autores contemporâneos. Encontramos depois no mesmo capítulo uma revisão do autor acerca do processo de luto, especialmente apoiado em Ariès, para exemplificar a passagem de um processo anteriormente vivido com ênfase nas representações coletivas para a individualização pessoal do processo do luto. Bregalanti se dedica em trazer a história dos conceitos de melancolia e luto, e aproxima ambos, antes de dedicar-se a Freud em “Luto e Melancolia”. Nas palavras do autor: “Que Freud tenha eleito o luto como processo ‘normal’ cujo modelo serviria como base para a compreensão da melancolia, explica-se pela longa tradição entre esta e a perda. Mas assim como inseriu a psicanálise em um lugar único nos estudos sobre a melancolia (...), Freud igualmente acabou por conferir à sua disciplina uma posição inédita na longa tradição do pensamento ocidental sobre a morte as formas culturais e psíquicas que lhe dão diferentes destinos” (Bregalanti, p.36-37).
Bregalanti retoma as perdas de pessoas queridas de Freud, -com especial atenção à morte de sua amada filha Sophie, na epidemia de gripe espanhola em 1920- e as entrelaça com o momento de sua produção teórico-metodológica ao longo deste livro, mas de forma mais explícita neste primeiro capítulo. O autor não deixa de fora as contribuições dos grandes interlocutores de Freud, evitando que a teoria psicanalítica deixe de reconhecer a importância do diálogo dos discípulos com o pai da psicanálise. São principalmente destacados Abraham e Ferenczi, especialmente no decorrer do segundo capítulo do livro, intitulado “O luto entre Freud, Abraham e Ferenczi”.
Como ressaltado pelo autor neste capítulo, assim como por Endo na Introdução do livro, é Abraham o responsável por sublinhar as insuficiências da clínica psicanalítica em relação ao processo de luto. É também deste discípulo e interlocutor de Freud a inestimável aproximação da operação de introdução no processo de luto “normal”, como tentativa de retenção do objeto perdido, da melancolia propriamente dita. É explicitada no texto a tentativa de Abraham de criticar cuidadosamente seu mestre, naquilo que acredita que este deixou insuficiente em sua teoria. Se para Freud não houvesse nada inconsciente na perda no luto normal, a ambivalência da perda de objeto seria domínio exclusivo do luto patológico e da melancolia. Este não é, como afirma Bregalanti “ponto pacífico entre Abraham e Freud”. Esta discordância também pode ser encontrada na base de outra entre os dois psicanalistas: a auto censura melancólica. Neste capítulo pode se acompanhar a confusão e mal entendidos entre Freud e Abraham que para Bregalanti e também Torok (1995)* “não pode ser por acaso” e possivelmente denota a dificuldade de adentrar na natureza do luto.
Há ainda outra série de dificuldades de comunicação, desta vez com outro interlocutor e Freud: dessa vez, é Ferenczi, outro inestimável colaborador de Freud. Vemos no final deste capítulo uma bem feita e clara retomada dos conceitos de introjeção e incorporação ferenczianos, assim como sua antecipação do conceito de narcisismo. Através desta contextualização vemos a passagem para o terceiro e primoroso capítulo deste livro, intitulado “Luto e Trauma”. Como afirma Endo na Introdução, é Ferenczi o “imprescindível interlocutor” de Bregalanti.
Neste capítulo, o autor retoma a aproximação do luto dito normal e o trauma, citando o movimento libidinal comum a ambos da retirada da libido e do interesse dos objetos para concentrá-los no ego, assim como a temporalidade do “só depois”. Bregalanti explicita outra diferença nesta dança conceitual entre Abraham e Freud acerca do luto, já que este primeiro “não se contentava com as formulações acerca do luto normal, intuía também que o traumático inexoravelmente estaria em ação no luto” (p.123). Na obra de Ferenczi, Bregalanti percorre os caminhos da teoria sobre o trauma, os estruturantes e os desestruturantes, passando pelo conceito de confusão de línguas exemplificado neste texto com maestria. Neste capítulo, o trauma é articulado com a noção de testemunho e, portanto, com o estudo da problemática da memória em psicanálise. Fica neste capítulo evidente a atualidade e a relevância deste livro, a partir das violentas mortes em violação de direitos humanos por parte do estado e da busca por reconhecimento da memória de desaparecidos no Brasil. Aqui é ressaltada a importância do aporte psicanalítico que “carrega originalidade de introduzir um universo intermediário e lacunar de memória inconsciente, da qual o sonho é o maior expoente” (p.154). Havendo fornecido a base a partir da qual o método analítico foi forjado, o sonho é um dos pilares de sustentação de uma modalidade testemunhal original”. Há no sonho uma abertura para a clínica do luto privilegiada, uma vez que estes “abraçam o trauma de modo como provavelmente nenhum outro fenômeno” (p. 25).
É no quarto capítulo, “Sonhos Pandêmicos: os mortos, os vivos e os confins do luto” que Bregalanti traduz sonhos enviados ao Inventário dos Sonhos, projeto do qual participou e que formam agora um acervo de potentes testemunhos sonhados durante a pandemia de Covid-19 no Brasil. Este capítulo emociona, remete a um tempo coletivamente traumático, onde o processo de luto coletivo passou pela necropolítica do Estado e seus efeitos de denegação. Se lê nessas transcrições a angústia do coletivo através do individual, e as marcas da dificuldade de ritualização da morte do período.
Encontramos na escrita de Luciano Bregalanti em “Luto e Trauma” o rigor teórico necessário para o estudo de conceitos fundamentais para pensar a metapsicologia da melancolia, do trauma e do luto, mas esta também é uma escrita que trata de forma por vezes quase onírica de experiências clínicas no consultório particular e nos relatos de sonho. Ao lê-lo antes e novamente, depois da morte do meu pai, me peguei relacionando com o texto de maneiras diferentes, mas nunca pouco convocada. Bregalanti consegue contextualizar a metapsicologia e a psicanálise tanto no mais individual, como o funcionamento psíquico em si mas também no âmbito social e coletivo, assim como o próprio processo de luto não deve ficar restrito a qualquer uma destas dimensões. Retomo aqui a precisão das palavras de Endo: “Por fim, é preciso dizer que não são muitas as pesquisas e reflexões que estão e estarão à altura desses desafios mais fundos que o autor abraça e ante aos quais a psicanálise se vê convocada. Mas certamente este livro, escrito com propósito, rigor e elegância, é uma delas” (p.17).
*Torok, M. 1995. Doença do luto e fantasia do cadáver saboroso. In N. Abraham e M. Torok, A Casca e o Núcleo. (p.215-236). São Paulo, ed Escuta.
Luciano Bregalanti é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Doutor e Mestre pelo Instituto de Psicologia da USP, com estágio doutoral na Universidade de Paris; autor de “Luto e Trauma: testemunhar a perda, sonhar a morte”. (ed Blucher, 2023).
Adriana Omati é psicanalista e psicóloga com especialização em Saúde Pública e Psicopatologia pela Faculdade de Saúde Pública da USP, Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e membro do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae.
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