Carta de um cacique aos meninos do Brasil
Em "Carta de um cacique aos meninos do Brasil", em clima de Copa, Maria Laurinda destaca da "paixão" das crianças e seus álbuns na torcida pelo time favorito, à mercantilização do esporte e a tragédia das guerras, com o extermínio em Gaza. Quem sabe uma resposta à carta de Pero Vaz de Caminha, como sinal de resistência histórica à colonização.
CARTA DE UM CACIQUE AOS MENINOS DO BRASIL
No jogo entre Argentina e Egito, além das cenas de racismo que marcaram a disputa, uma outra, mais trágica, atingiu a torcida pela Copa, em Gaza. Mohamed Al-Wahidi, diretor do Comitê Egípcio em Gaza, organizador das transmissões de jogos, foi atingido por um ataque de míssil israelense, momentos antes da partida, como noticiou Jamil Chade em sua coluna do ICL, no dia 9 de julho. Nesse ataque, seus dois irmãos de 8 e 10 anos, também morreram. A notícia dessas mortes, e, especialmente, a desses dois meninos, me fez retomar um texto escrito, logo após a derrota do Brasil no jogo contra a Noruega e partilhá-lo neste espaço.
Esta Copa foi marcada por cenas de muito entusiasmo, por uma coletividade que extrapolou as fronteiras nacionalistas e torceu por países que pouco aparecem nas mídias oficiais. África (com 9 países na fase eliminatória), Caribe (Curaçao) e Ásia Central (Uzbequistão) despertaram interesse e curiosidade sobre suas realidades históricas e geopolíticas. Cabo Verde com seu goleiro Vozinha, para citar apenas um dos países que mais se destacou, conquistou fãs e tornou-se unanimidade na admiração por jogadores que, com poucas condições de recursos para treinamentos especiais e poucas oportunidades para atuar em conjunto, trabalharam com espírito de solidariedade, implicação e garra na tentativa de vencer.
Países com históricos de colonização enfrentaram países colonizados e tornaram redivivos os traços de horror e de resistência dessas experiências de extrema violência.
À margem de todo encantamento com os jogos, um outro motivo de encantamento: o álbum de figurinhas a ser preenchido, os jogos de “bafo” realizados nas ruas e nas escolas, as trocas e procuras pelas mais difíceis.
E motivos, também, de desencanto e preocupação: a mercantilização do futebol, a propaganda presente nas roupas, nas falas dos comunicadores durante o próprio jogo ou nos intervalos das partidas, as tentativas de interferência nos resultados, e, alerta maior: a chamada constante para as apostas: as bets esportivas.
O mundo mágico e atraente da promessa de ganhos imediatos por meio dessas apostas tem trazido consequências muito graves para a vida, com endividamentos compulsórios e alto índice de manifestações de sofrimento psíquico. Já antes da Copa, assistimos a alertas sobre o risco da expansão das apostas no Tigrinho, indicando a criação de regras mais rígidas para sua operação. Alguns jogadores se negaram a fazer esse tipo de publicidade ou até fizeram campanha contra ela. Danilo (lateral do Brasil) ganhou destaque e respeito quando aderiu ao movimento “Block no Tigrinho”. Partilho e incentivo essa campanha.
O texto que se segue foi escrito no clima criado por esta Copa.
Carta de um cacique aos meninos do Brasil
Mata Atlântica, 6 de julho de 2026.
Queridos curumins,
Desde maio vejo todos vocês carregando álbuns e pacotes de figurinhas e nada mais querendo do que encontrar as que faltam, e falar dos jogadores que vocês admiram. As camisas amarelas pintaram dessa cor todos vocês que torcem cada vez que a seleção canarinho está no jogo. Seleção canarinho...
Vocês sabem que o amarelo canarinho tem uma história muito, muito antiga? E que essa cor guarda o brilho de nosso ouro? Pode parecer esquisito que eu me lembre de lhes falar dessa história justo hoje que estão muito tristes com o jogo de domingo. Eu também fiquei. Mas, me lembrei de um outro momento em que o Brasil também saiu cedo da Copa. Foi no ano de 1990 e dois curumins que moravam lá na Palestina e adoravam o futebol brasileiro, tentaram preencher o álbum e sofreram com a vitória da Alemanha. Esta história eu vou contar ao final. Depois que lhes falar do amarelo de nosso ouro, uma outra história que tem mais de 500 anos. Escutem com atenção.
Já lá vão muitos e muitos anos desde que chegaram a estas terras, estranhos navegantes com panos a cobrir-lhes os corpos, e peles de couro sobre as cabeças. Olharam-nos com tanta curiosidade e amedrontamento, que julgamos ser nosso dever de hospitalidade, estender-lhes as mãos e ajudá-los a descer de suas embarcações.
Espantaram-se com os gritos de nossas aves e com o amarelo radiante do peito de nossas araras e dos canários da terra.
Quando lhes mostramos, com gestos cordiais, que o amarelo daqueles pássaros era semelhante ao grosso colar que um deles trazia pendurado ao pescoço, e que nossas terras também o tinham em solo sagrado, deixaram de olhar para o céu e quiseram logo saber onde podiam encontrá-lo. Mal sabíamos que esse amarelo haveria de ser expropriado e tornado símbolo de nossa terra.
Queriam saber de nosso viver e por isso mandaram que dois deles seguissem junto com alguns de nós para o abrigo de nossas moradas. Mas não permitimos que ficassem conosco. É nosso costume respeitar os espíritos da noite, nossos irmãos, e não dar guarida a quem desconhece nossas crenças e nossos rituais.
Nos dias que se seguiram eles se aproximaram novamente e nos trouxeram objetos desconhecidos que trocamos por nossos arcos e setas e por pequenos colares de penas coloridas. Eles logo aceitaram nossos presentes e os guardaram numa caixa grande que haviam trazido com espelhos e outras bobagens quaisquer.
Parece que nunca tinham visto tantas cores. Até nossa pele os espantava; olhavam insistentemente para o preto e vermelho com que a pintávamos. Ou será que, não tendo vergonha nenhuma, espiavam nossa nudez com desejo e volúpia querendo, sem o poder dizer, abusar de nossos corpos para os servir e para deles se servir?
Entraram em nossas terras, deliciaram-se com o fruto branco de nossas palmeiras, pescaram nossos peixes e deixaram suas barcas em nosso mar. Com o corte de algumas de nossas árvores ergueram um mastro e fizeram um altar. Assistimos a tudo com profundo respeito, pois, entendemos que celebravam seus rituais. Depois, um deles trouxe uma gaita (assim eles a chamaram) e todos dançaram e cantaram. Nós também o fizemos porque cantar e dançar faz parte do nosso dia a dia.
Tempos se seguiram e o que de nossa parte foi hospitalidade, tornou-se, por parte deles, crueldade. Tentaram escravizar-nos, expulsaram-nos de nossas terras, violentaram nossa mata e nossos rios. Mas resistimos. Até hoje, resistimos.
Eles ainda tentam nos tirar todo o ouro brilhante para ganhar muito dinheiro com ele. Mas, temos segredos e saberes que eles desconhecem. Muitos começam a perceber que a destruição que eles trouxeram só deixou nosso país mais pobre. Também começam a descobrir que há coisas mais importantes.
Tão importantes como foi a história desses dois curumins, Rafat e Fadel, de que lhes falei no início. Eles batalharam muito para preencher o álbum de figurinhas. Quem o preenchesse ganharia vários prêmios: bola, bicicleta, videogame. Para eles, faltava apenas uma figurinha: as pernas de Maradona. Rafat e Fadel eram apaixonados pelo futebol brasileiro e queriam muito que o Brasil ganhasse. Depois de muitas tentativas e muitas brigas, procuraram a figurinha com outro menino que estava tão desapontado com a desclassificação do Brasil, nas oitavas de final, que tinha abandonado a camisa amarela e estava raivoso xingando o país e o time. Não queria nem falar com eles.
Rafat também estava triste, mas reagiu a esse descaso: “Não fale assim do Brasil! Está xingando só porque eles perderam? Você não é homem? Homens permanecem fiéis na vitória e na derrota. Perder faz parte. O Brasil precisa de nós para que possa se levantar! E a próxima copa será nossa!”.
E não é que Rafat estava certo? Brasil foi campeão em 1994. O importante é que o menino ouviu o discurso todo e resolveu dar a figurinha para os dois irmãos.
Mas, vejam só, ao final, depois de ter preenchido o álbum e chegar na loja para receber o prêmio, eles desistiram do Atari tão desejado e ficaram com o álbum para guardar de recordação. Esse álbum tinha um valor mais especial que o videogame desejado, e está guardado com a camisa amarela que eles usaram durante a campanha de 1990.
Quer dizer, estaria, se a Palestina não estivesse desaparecendo...
Mas essa já é outra história.
É verdade que a Palestina, assim como nós, continua resistindo.
P.S. O mote da história dos dois irmãos surgiu a partir do filme “As pernas de Maradona” de Firas Khoury, 2019, que me foi apresentado por Natalia Barbieri, a quem agradeço.
Este texto é uma homenagem aos dois irmãos mortos pelo ataque a Gaza, citado no seu início. E minha manifestação contra o chamado compulsivo para as apostas online.
M. Laurinda R. Sousa é psicanalista, escritora e colunista do Blog do Departamento.
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