Sobre o evento “Existe uma psicanálise brasileira”?

Eva Wongtschowski escreve sobre o evento “Existe uma psicanálise brasileira”? realizado no último 15 de maio no Instituto Sedes Sapientiae, para marcar o início das atividades do recém constituído grupo de trabalho do Departamento de Psicanálise. Confira.

 

SOBRE O EVENTO “EXISTE UMA PSICANÁLISE BRASILEIRA”?

O Grupo de Trabalho recém-formado no Departamento, que leva o mesmo nome do evento, convidou três psicanalistas para falar sobre o tema: Miriam Chnaiderman, Mara Caffé e Rafael Alves Lima.

Cristina Petry abriu a reunião, como articuladora de eventos, evocando Juliano Moreira, Durval Marcondes e Virginia Bicudo.  

Os comentários em torno da pergunta sugerida foram especialmente ricos e esclarecedores. Cada um dos convidados percorreu caminhos que fizeram da pergunta uma conversa que valeu a pena.  

Marcelo Vial (coordenador do grupo junto com Anne Egídio e Marcelo Lábaki), recordou seu caminho pelo Departamento que o levou a se interessar pelo tema e sugeriu que, ao exercer o trabalho de analista, carregamos o mundo para a cena analítica. O mundo aqui representa os psicanalistas que nos antecederam (Freud, Lacan), as teorias que herdamos, mas também o que constitui nossa brasilidade enquanto profissionais.  Lembrou que um dos objetivos do trabalho do grupo é avaliar nossas (brasileiras) contribuições conceituais e pesquisar sobre a prática que exercemos.

Miriam responde à Marcelo sobre sua citação ao texto editado na Revista Percurso (Existe uma Psicanálise brasileira? número 20,1998), lembrando que o texto hoje não faz mais sentido. A pergunta seria outra, se existe uma psicanálise decolonial sendo exercida entre nós, pois o inconsciente é por princípio decolonial; se estamos atentos aos movimentos mundiais conectados com a vida e a criação? Nossa herança – a ancestralidade- e sua defesa vai muito além das fronteiras nacionais, e por ser o inconsciente histórico seria necessário resgatar nossas histórias singulares, e para além, todas as histórias.

Rafael retoma o tema lembrando que nossa longa história escravocrata e a interlocução com as perspectivas ameríndias – nossas heranças- nos obriga a um giro ontológico.  Soma a essas a herança da ditadura e se pergunta por que a psicanálise avançou como avançou nesse período da história. Afirma que ela não só sobreviveu como prosperou, tornou-se uma gramática cultural de interpretação da experiência, seus conceitos passaram a circular como léxico ordinário da inteligência urbana e do senso comum.  Mara começa sua fala se referindo aos desdobramentos da ditadura na sua vida pessoal, pondo em jogo questões como a identificação e sua recusa, o pertencimento e o exílio interno, o amor e o rechaço pelos diferentes Brasis, como consequência deste tempo de violência e medo. E nomear a psicanálise de brasileira envolve uma ideia de identidade nacional, de nacionalismo, que é uma questão delicada, como ela afirma.

Tal qual Miriam, Rafael reitera que a psicanálise brasileira tem um caráter transnacional, mesmo tendo havido uma produção local importante nos anos 70. Para além disso a hiperconectividade transformou o modo como o saber se constrói hoje.  Põe em jogo, como Miriam, a ideia de um inconsciente nacional, e acrescenta que a pergunta formulada pelo grupo de trabalho se constitui em um operador crítico de problemas, forçando deslocamentos e desestabilizações conceituais produtivos. Mara nos relembra várias destas desestabilizações ao citar as produções retrógradas, racistas e homofóbicas de psicanalistas brasileiros que obrigam a uma revisão crítica.  Ela se pergunta se seria desejável a existência de uma psicanálise brasileira e se nos interessa encontrar uma essência de Brasil nas diferentes práticas. Propõe o que chama de prática situada que leve em conta nossa história, a especificidade de cada território e seus recursos, as urgências da clínica, a ética da singularidade.  Refere-se também à necessidade de uma vigilância ética e política em relação às nossas heranças.

Retomamos aqui a insistência reiterada de Juliana Farah, mediadora do evento, pela nossa participação no movimento Levante, que vem a ser uma resposta à vigilância advertida feita pela Mara.

A plateia, ao final das apresentações, faz perguntas /propostas que elencamos a seguir:

Silvio sugere a expressão psicanálise das brasilidades, para facilitar a discussão. Chico, pergunta para quem a psicanálise é pensada, Fernanda indaga se a psicanálise conhece o Brasil, Anne se os psicanalistas brasileiros conhecem o Brasil. Vanessa, pergunta qual é a psicanálise que se pratica no Brasil, como os psicanalistas trabalham Brasil afora. Adriana lembra do valor dado à música brasileira, pensando em estender esse valor a nossa forma de fazer psicanálise. Maria Silvia retomando uma fala de Miriam sobre um evento realizado na França com psicanalistas franceses e brasileiros, pergunta que efeitos nosso modo de fazer psicanálise produz.

Se você ficou interessado nas respostas dos debatedores, assista ao vídeo do Evento na seção Eventoteca do site do Departamento. Vale assisti-lo na íntegra. O som está ótimo.

 

Eva Wongtschowski é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae


Comentários

  1. Obrigada, Eva. Não pude estar no evento e gostei de saber por onde circularam as questões

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