A Odisseia, de Nolan

Sérgio Telles constrói uma ótima resenha sobre a Odisseia de Christopher Nolan, em mais uma versão desta inspiradora obra de Homero.

A ODISSEIA, DE NOLAN

A Odisseia é um dos pilares de nossa cultura ocidental, um modelo instituinte da narrativa do mito do herói, da guerra, da aventura no desconhecido, do retorno ao lar. Como tal, muito já foi escrito, comentado, estudado, criticado e copiado. A fortuna crítica sobre a obra de Homero é colossal.

O que nos resta a fazer ao ver o filme de Nolan é comentar suas características e observar as modificações que Nolan fez no original de Homero, o que não surpreende nem merece censura. Desde a antiguidade até o presente, inúmeros autores a usaram como inspiração, modificando-a dentro de seus próprios objetivos. A versão mais prestigiosa em literatura recente é o “Ulisses” de Joyce, que transforma o épico de Homero num dia comum de um mero representante comercial perambulando pelas ruas de Dublin. O périplo de Ulisses, a guerra de Troia, o canto as sereias, com embate com Polifemo, a travessia de Cila e Caríbdis, o encontro com a feiticeira Circe, com Calipso, com Nausicaa (episódio suprimido por Nolan), o sempre impedido retorno a Ítaca (tema da famosa poesia de Kavafis) tudo é representado na realidade externa e interna de Leopold Bloom, no dia 16 de junho de 1904.

Vemos, pois, que Nolan tem todo o direito de usar da obra de Homero e recriá-la dentro de seus próprios parâmetros. Sua provocação mais evidente e midiática é quebrar os estereótipos estabelecidos na escolha dos atores para os papéis mais relevantes – Helena é uma atriz negra, Atena é uma latina, o guerreiro Sinon é interpretado por um homem trans. Embora alguns possam ver essas escolhas como concessões indevidas às políticas identitárias, elas têm, sim, uma dimensão educadora contra preconceitos arraigados e dissimulados.

Mas a modificação mais radical introduzida por Nolan é a transformação de Ulisses num homem dividido, angustiado, perseguido pela culpa por seus soldados mortos, assombrado com a destruição da guerra que comandou e, especialmente culpado por ter quebrado as leis de Zeus, com seu estratagema do cavalo de Troia.

Essa é uma característica completamente estranha ao Ulisses de Homero, que se orgulhava de sua astúcia, seus ardis, da esperteza, da capacidade de enganar os inimigos. A sociedade tampouco o censurava por isso, pelo contrário, o louvava e incensava.

O Ulisses esmagado pela culpa em função da destruição própria da guerra, com preocupações pacifistas, como vemos no filme de Nolan, é algo completamente anacrônico, é uma concepção moderna, atual, do herói dividido, angustiado, culpado.

O filme em si é um grande épico, com boas interpretações, cenários impactantes, impressionantes cenas de batalha, como a tomada de Troia.

Críticos censuraram Nolan por ter descaracterizado o papel forte e poderoso das mulheres e deusas na Odisseia – Penelope, Helena, Circe, Calipso, Nausícaa, Atena - atribuindo tal atitude a um suposto misoginismo.  Isso fica especialmente evidente com Circe, que mais parece uma dona de casa mal-humorada do que a formidável feiticeira. E um expectador desavisado reconheceria a grandiosa deusa Atenas, que protegia Ulisses, naquela mocinha meio tímida e muda, que aparece e desaparece misteriosamente a seu lado?

A Odisseia pode ser vista por vários ângulos e um que permanece na versão de Nolan é a do filho em busca do pai.

Homero escreveu a Odisseia entre os séculos VIII e VII AC, Sófocles escreveu Édipo muito depois, cerca de 420 AC. Quatro séculos os separam. Mas Ulisses e Édipo são mitos gregos muito mais antigos, que antecedem de longe suas formas escritas.

A lembrança de Édipo se justifica por fazer um contraponto com Telêmaco na conflitiva pai-filho. Enquanto Édipo mata seu pai (embora o faça sem conhecimento de causa, desde sempre sabia que estava predestinado a praticar esse crime), Telêmaco e Orestes, pelo contrário, amam o pai e tudo fazem para honrá-lo. Para tanto, Orestes mata sua própria mãe Clitemnestra, que assassinara seu pai Agamenon.

Pode-se perguntar por que, entre tantos mitos gregos, Freud escolheu Édipo como pedra angular da psicanálise. Não foi uma escolha voluntariosa ou ao acaso e, sim, uma consequência de sua observação clínica. Édipo era o mito que mais se aproximava do que percebia nos relatos com seus pacientes.

A mitologia grega simboliza aspectos imutáveis da afetividade e dos desejos inconscientes humanos. Telêmaco, Orestes e Édipo apontam para diferentes e possíveis configurações afetivas e familiares e esse último é o que se mostrou mais presente na realidade psíquica observada por Freud.

Sergio Telles é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e autor de O PSICANALISTA VAI AO CINEMA (4 volumes), entre outros.  

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