Prosa cênica: texto para ser falado, de pé, sobre um tapete antigo de família. Meia luz.

Lucia Helena Rodrigues Navarro compõe um lindo texto-poesia em meio ao luto.

PROSA CÊNICA: TEXTO PARA SER FALADO, DE PÉ, SOBRE UM TAPETE ANTIGO DE FAMÍLIA. MEIA LUZ.

Cena 2: Ar

As roupas continuavam a cair e caíam sem parar. De longe, só era possível discernir cores em movimento acelerado.

Num instante, um azul claro, muito suave, desprende-se.  Organza de seda transparente, com trama incomum, plissada, corte curto.  O tecido toma corpo, baby-doll azul, sobe e rodopia no ar.

Lembro: cada uma vestida, salto alto, pés pequenos, desfilávamos radiantes na frente do grande espelho do closet, de baby-doll azul claro. Giramos, giramos até cair de alegria incontida.

Retomamos, agora com certa distância, o olhar para a montanha de roupas.

Em um outro lampejo, como um balão iluminado que se enche de ar, toma volume e sobe.  Bege clara, de estampa bem delicada de florzinhas apagadas, organza de seda, tecido ao mesmo tempo fosco e meio transparente, renda amarelada no decote canoa, manga 3/4. Nosso olhar acompanha o desprender-se da camisola até subir ao céu.

Agora, só. Relembro.

A camisola de florzinha segue por outras paragens. (1)

A atriz entra devagar, atravessa uma porta, segurando uma mala vermelha.  Ao fundo, uma luz azul de céu. Veste a velha camisola de florzinhas apagadas, da lua-de-mel materna.  O ventilador ligado ao lado faz com que ela se encha de ar. A atriz coloca a mala no chão, deixando-a aberta. Com cuidado, começa a retirar as camadas das inúmeras camisolas que compõem, sobre seu corpo, histórias. Ouve-se, ao longe cânticos.

Retorno ao momento presente.

Continuamos, as duas irmãs.  Dias, meses, com longas pausas. Separamos, lavamos, classificamos, dobramos.  Os pertences, da outrora linda noiva, encontram destino.

Apresentada no Espaço Sergipe Arte e Cultura.

Cena criada durante um processo de luto.

Lucia Helena Rodrigues Navarro é psicanalista. Participa do GTEP, do projeto de supervisão Ação Afirmativa do Departamento de Psicanálise, e do Espaço Sergipe Arte e Cultura.

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(1) Cena da performance de A Casa Vazia do Viajante, poesia-cênica dirigida por Cassiano Sydow Quilici em 2013.


Comentários

  1. Respostas
    1. Obrigada, Mira! Vou apresentar no próximo Sarau com direção do Fran.

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  2. Cenas delicadas. Um olhar suave sobre roupas que contam histórias de encanto, encontros e despedidas. Belo texto

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    Respostas
    1. Obrigada, Laurinda. Um grande incentivo para mim seu elogio, pois estou começando a experimentar meu desejo de criar pequenas encenações.

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  3. Lucia, que bom te encontrar aqui!
    E encontrar com este texto tão
    lindo nas descrições dos tecidos, ( eu os vi...) , no movimento do jogar , tão dolorido do que e tão cuidado no que fica. Maior abraço!!

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    1. Janete, um prazer te encontrar por aqui também! Fico com o coração aquecido por receber suas palavras tão atenciosas. Abração!

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