Cenas da cidade

Maria Laurinda nos convida a acompanhar as ressonâncias de sua leitura de Short Movies, livro de Gonçalo M. Tavares. Confira.

 

CENAS DA CIDADE

A câmera caminha por cenas que vão da intimidade das casas às ruas das cidades. Umas se entrecruzando com as outras; mescla de subjetividades e coletivos.

Convite à detenção do olhar; interpretações possíveis do vivido.

O que se vive, ultrapassa o olhar.

Os registros que se seguem são ressonâncias do livro de Gonçalo M. Tavares: Short Movies.

I.  A calça                                                                                               

No varal, estendida ao vento, uma calça com uma perna só.

Sentado nos degraus da casa, um homem triste.


II. A boneca

Apoiada na cama, a menina abre o estojo da escola.

Retira o estilete.

Experimenta o corte nas folhas de papel.

Depois, nos pulsos da boneca. Nos braços.

O olhar da menina é aflito. A boca se retrai.

As mãos tornam-se ágeis.

Confundem-se com as da boneca.

O tempo escoa.

Pelo vão da porta, um líquido vermelho também escoa.

 

III. Tempos de IA

No alto da vila, uma igreja antiga. As portas estão abertas.

São pintadas de azul, com faixas brancas nas laterais.

Dentro da igreja há pilhas de livros espalhados pelo chão.

Homens chegam carregando mais livros.

Procuram espaço para formar novas pilhas.

Naquele lugar os livros não podem ser queimados.

Nem digitalizados.

 

IV. Os cães

É uma favela comum. Dessas que se veem espalhadas pelos morros.

Aos poucos, os casebres desceram para a cidade.

Formaram-se cortiços. Vielas.

O fato é que perto dessa favela comum há, todo sábado, uma feira.

Ao final da feira, sobras de frutas e verduras pelo chão.

Todo sábado à tarde, as pessoas da favela disputam esses restos com os cães.

 

V.  O milagre

A mãe entra na cozinha. Olha a pia cheia de louça.

Com ar desolado, faz o lamento diário:

- Jesus passou novamente por aqui! mais um milagre de multiplicação.

 Coloca o avental, envolve a louça na espuma da esponja, enxágua-a com água benta.

Emborca os copos sobre o pano estendido no tampo da pia.

Ao final da cerimônia, faz uma promessa que nunca cumpre:

- Amanhã deixo tudo na pia

Ninguém a ouve

 

VI. A caneca

Ele estava no chuveiro.

Ela virou-se na cama. Mais uma vez.

Ergueu com o braço esquerdo a manta jogada sobre o corpo.

Sentou-se na cama com os pés à procura dos chinelos.

Arrastou-se para a cozinha.

O cheiro do café chegou até ele.

Vestiu-se pensando nos roteiros de viagem que ela sugeriu, na noite anterior.

Mais uma vez.

Na cozinha, a mesa posta.

À frente dele uma caneca.

Lembrou-se da reação que teve na primeira viagem que fizeram.

Ela se encantara com a caneca. Deu-a de presente.

A caneca sobreviveu.

Eles?

Uma solidão partilhada.

 

VII. A busca

A menina pisa devagar nos escombros.

Olhar atento.

Vasculha ao redor.

Com um pequeno galho, pá improvisada, tenta levantar as pedras.

Ergue a ramagem da árvore caída.

Agacha-se.

Com as mãos esgaravata a terra.

Procura.

O quê?

Retira com delicadeza o corpo da pequena boneca.

Acalenta-a. 

Na rua deserta, só poeira e entulhos.

 

VIII. O guarda-sol

A bailarina chega à praça.

Caminha com a ajuda de um guarda sol transparente.

No corpo, um vestido longo de musseline

Estende um tapete oval bem no centro.

Delimita um espaço só para si.

Depois, liga o som de uma caixa que apoiara no tapete.

Abre o guarda-sol.

Rodopia com ele.

Bem se vê que o intuito não é a proteção do sol.

À distância, uma câmera registra seus movimentos

A música. A musseline do vestido. A transparência do guarda-sol.

A música. A musseline do vestido. A transparência do guarda-sol

musicamusselineguardasol

Tudo gira no tapete redondo.

As pessoas se aproximam. Formam um círculo ao seu redor.

A bailarina esvoaça no tapete redondo

Seu corpo é o volteio da musseline do vestido

musicamusselineguardasol

A câmera se aproxima do rosto da bailarina

Seus olhos são de vidro.

 

M. Laurinda R. Sousa é psicanalista, escritora e colunista do Blog do Departamento.


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