À minha eterna analista brilhante

Em seu texto comovente, Fernanda Galvão presta homenagem à sua analista Camila Munhoz e nos fala sobre a dor de sua perda.

 

À minha eterna analista brilhante

Fernanda Galvão

Eu andava no parque quando recebi a mensagem de que nossa sessão tinha que ser cancelada - “está tudo sob controle, é uma doença com a qual convivo há décadas, até semana que vem!”. É duro demais constatar que a vida realmente não dá garantias - o que sempre falávamos, quando eu tentava dar conta de certas angústias. A semana que vem não aconteceu.

Durante pouco mais de três meses senti o acolhimento de uma rede de psicanalistas que me mandavam notícias semanais, às vezes diárias. Enquanto isso eu esperava esperançosa pela volta das nossas sessões.

Em certo momento começaram a me sugerir procurar alguém pra conversar. Eu pensava nisso e logo desistia. A Camila era (e essa estranheza em falar no passado) uma analista brilhante, a mais brilhante que tive. Tinha a capacidade de amarrar a sessão de um jeito que transformava a maneira de ver certas coisas. Ela normalmente começava dizendo: “sabe Fernanda, fiquei aqui pensando…” e pluft, algo ali acontecia que me dava uma sensação de maravilhamento. Não queria, ou não estava pronta pra procurar outra pessoa. 

Passei a tentar elaborar aquela falta nas minhas supervisões, achava brechas pra falar dessa posição muito esquisita de analisanda e analista que fazem uma dança coreografada e que, no nosso caso, era sem beijos e abraços, nem muito olho no olho por conta do divã. Era um sorriso na entrada e um até semana que vem na saída.

 Como eu gostaria de ter abraçado ela. 

Apesar disso, de não termos tido esse contato físico mais carinhoso, minha admiração e carinho eram (são) gigantes. Não à toa larguei o Direito e comecei a estudar Psicanálise estando em análise com ela. 

A Camila tinha uma alegria e uma intensidade na maneira de viver que transbordavam na clínica. Pude observar isso em dezembro, na festa do Departamento de Psicanálise do Sedes. Ela dançava com uma beleza e um sorriso largo que chamavam atenção. Eu, de longe, olhava e pensava encantada: que sorte ter essa analista tão animada! 

Nesse tempo de suspensão de nossas sessões, comecei a ter notícias não só do seu estado de saúde, mas também de pequenos fragmentos da sua vida, dos quais não tinha acesso até então. Ela tinha marido, dois filhos, uma irmã. Ela vivia mesmo a vida intensamente, era forte e guerreira como parecia ser. 

Comecei a sentir necessidade de me aproximar dela de alguma forma. Pesquisei na internet e encontrei sua pesquisa de mestrado, que posteriormente virou livro, “A relação entre o psicanalista e suas teorias”. Comecei a ler os agradecimentos e fui identificando as pessoas que estavam encarregadas de mandar notícias: a amiga-irmã, a comadre, o amigo psicanalista. E no meio do texto, em algum lugar que agora não sei dizer especificamente, a frase “eu sempre me senti muito amada” me emocionou. A Camila era mesmo muito amada, o que ficou claro com aquela enorme quantidade de pessoas no dia do seu velório. 

Comprei o livro, e essa materialidade, naquele momento de falta, me trouxe algum conforto.

Os dias foram se passando até que soube da sua piora, um quadro gravíssimo. Fiquei atônita, sem saber com quem falar, mas precisando falar. Uma angústia enorme tomou conta de mim. Eu já estava certa do seu retorno. Aquela notícia foi como uma rasteira. Como assim? Ela não estava melhorando? Liguei para minha mãe, escrevi pra minha antiga supervisora e professora, pra minha atual supervisora. Precisava conversar com alguém. 

Desse dia em diante, fiquei ansiosa diariamente por notícias. Vieram algumas boas, que davam alguma esperança, mas o quadro continuava gravíssimo. Até que num domingo de manhã começo a receber mensagens de todas aquelas que me acompanhavam, com a notícia que repeti tantas vezes não conseguir acreditar. 

No velório pude de algum jeito colocar para fora todo aquele afeto represado de analisanda muito correta que não beijava, não abraçava e nem saía muito do ritual prescrito. Falei com seu marido, com seus filhos, sua irmã, com seus amigos, outros analisandos e ex analisandos. Pude contar um pouco de como ela era uma analista afiadíssima e de como foi importante para mim. E fui ouvindo sobre a Camila fora da posição de analista, uma versão com a qual eu fantasiava conviver futuramente.

A morte é inapreensível, ininteligível, da ordem do Real, daquilo que não encontra representação. Demora para cair a ficha, para de algum jeito assimilar e aceitar. Vem a sensação de vazio, de tristeza, de medo, de injustiça. 

Também vem junto as lembranças de certas falas, do tom das intervenções e interjeições - que continuarão comigo, sustentando a minha clínica -, do cheiro da sala: lavanda e gelol. 

Lembrei que durante esses anos de análise lhe fiz duas perguntas. Falando sobre a minha fobia de avião, perguntei se ela também tinha medo. Ao que ela rapidamente respondeu: “não”. E em outro momento, ainda esse ano, perguntei se ela tinha medo da morte. “Sim”. Não te dá um desespero em pensar nisso? E ela sabiamente respondeu: “Acho que desespero não é a palavra…”.

Desde que saí daquela despedida profundamente triste, uma música do Caetano Veloso vem na minha cabeça: 

Uma intensa luz

Que não se vê

Passa pela voz

Ao se calar

É a vez de uma estrela

Guarda o nome dela

Nosso coração é o seu lugar

Somos sempre sós

E ainda assim

Ela brilha em nós

Em ti, em mim

Nem bruta, nem bela

O silêncio é tê-la

A voz dessa luz, sem fim, sem fim

Nosso coração é o seu lugar, Camila. Você brilha em nós.

Repito como um mantra. 

A morte ilumina também a vida, o que pude perceber nesses últimos dias em que descobri e redescobri pessoas que de algum jeito estavam ligadas a ela. Nós nos falamos e escrevemos sobre nossos sentimentos, trocamos olhares carinhosos e abraços demorados. De alguma forma nesse compartilhamento sinto que conseguimos encontrar um pouco de aconchego. Afinal, o que é a vida senão os encontros? Sou muito grata pelo encontro com a Camila, minha eterna analista brilhante.

Fernanda Galvão é Psicanalista e aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae.

Comentários

  1. Que lindo, Fernanda...nais um convite às lagrimas, entre uma sessão e outra... mas a beleza é saída pra dureza, creio que a Camila concordaria. Obrigado por compartilhar.

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