Os rios ainda não morreram
Maristela
Vendramel descreve de forma poética o impacto e a tristeza das
cenas de seca de nossos rios e da fumaça dos incêndios no Amazonas. Confiram:
OS
RIOS AINDA NÃO MORRERAM
Maristela
Vendramel Ferreira
Em
setembro de 2024 o rio Madeira registrou a maior estiagem da história. Ver a
imagem do rio Madeira seco foi um susto. Semanas depois, fotografias do rio Xingu
desidratado, outro susto. É difícil processar que essas fontes de água
Amazônica, imaginadas como inesgotáveis, estão minguando, sendo destruídas. A
geografia aprendida na infância, com admiração pelos nossos recursos hídricos e
verdes, é ameaçada pelo sistema de produção, ou destruição, neoliberal. O agronegócio
perverso queima, estripa a floresta e mata gozando lucros. O pulmão amazônico do mundo está asfixiado
com a fumaça da ganância.
Além
da indignação e tristeza por todas as consequências cruéis e imensuráveis dessa
destruição para vida das pessoas que vivem na região, sem chegar a refletir
sobre o impacto ambiental global, um sentimento de perda enorme se instala. Não
havia pensado que as referências geográficas do meu país, desde seus rios copiosos
até a caatinga nordestina, ressoavam internamente como geografias minhas.
O
rio Amazonas e seus afluentes são parte da minha geografia subjetiva. No mundo
onde me constituí os botos nadavam puerilmente nas águas até se transformarem
em lindos rapazes a conquistar as moças ribeirinhas e lhes dar filhos depois de
danças sedutoras. A Iara guerreira salvou-se de ser assassinada por irmãos
ciumentos e, banhando-se no rio Negro e Solimões, transformou-se na sereia
brasileira, a Iemanjá dos rios. Quanta esperança nessas histórias. Quantas
possibilidades imaginativas de transformação e lida com a vida.
Como
os botos e Iaras vão existir nessa Amazônia devassada? Como as pessoas vão
viver sem botos e Iaras? Herdamos essa riqueza de recursos naturais e
simbólicos por termos nascido no Brasil e estarmos imersos na cultura. Contudo,
essa abundância material e intangível está ameaçada. Nos roubam muito mais que
paisagem, ar, água e árvores. Violentamente extirpam nossas raízes subjetivas,
modificam as referências ambientais que nos constituíram e vamos ficando sem
chão.
Os
rios não estão distantes lá no Norte. Estão aqui, correntes de possibilidades. Desejo
passar para os meus netos a força dessa cultura viva, de raiz, tão rica e
abundante. Gostaria que os rios físicos continuassem a existir caudalosos, testemunho
material de nossa capacidade de preservar a vida, assim como os povos
originários e ribeirinhos.
O
sentimento de perda ainda ecoa em mim, mas recuso-me a usar a palavra luto. Surgem
em minha memória as fotografias da exposição Amazônia de Sebastião Salgado e,
com elas, a esperança. O trabalho
realizado pelo Instituto Terra, criado por Sebastião e Lélia Salgado, conseguiu
recuperar 700 hectares de floresta nativa e mais de 2000 nascentes do Rio Doce
devastadas por mineradoras. Foram 25 anos restaurando a Mata Atlântica e
permitindo que o curupira tivesse novamente uma floresta para proteger.
Os
rios ainda não morreram, existe esperança nas próximas chuvas, nas pessoas e, quem
sabe, em políticas públicas de vida. Há tanto trabalho a fazer para preservar
os rios dentro e fora de nós. Que o Amazonas conceda em mim a coragem de viver,
sonhar e lutar em tempos tão ameaçadores.
Maristela Vendramel Ferreira é psicanalista, aluna do terceiro ano do curso de Psicanálise, aspirante a membro do Departamento de Psicanálise e membro da equipe do Blog do Departamento de Psicanálise.
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