Uma intervenção grupal com líderes de comunidades ribeirinhas e quilombolas na região amazônica

O Blog abre espaço para os grupos de estudo, trabalho e pesquisa do Departamento apresentarem suas produções. Hoje publicamos o texto de Flávio Veríssimo, integrante do grupo Faces do Traumático, que nos conta sobre o belo trabalho de suporte e elaboração com diversos grupos de diferentes instituições e localidades do Brasil durante o período da pandemia. Confiram!


UMA INTERVENÇÃO GRUPAL COM LÍDERES DE COMUNIDADES RIBEIRINHAS E QUILOMBOLAS NA REGIÃO AMAZÔNICA

Durante a pandemia, vários grupos de trabalho do Sedes foram convocados a intervir em situações emergenciais que se configuraram por todo o país. Coube ao Grupo de Trabalho e Pesquisa Faces do Traumático realizar várias intervenções em montagens e configurações que foram se ajustando às diferentes demandas que nos chegavam, todas elas online e por meio de dispositivos grupais.

Abaixo listamos as sete ações realizadas pelo Faces do Traumático:

1)    Hospital público de Osasco: no início da pandemia, organizamos um grupo de apoio para a equipe que cuidava e dava suporte aos familiares dos pacientes deste complexo hospitalar, que por estarem no “front”, ao enfrentarem as incertezas e os riscos da COVID-19, começaram a apresentar sintomas de ansiedade e crises de pânico.

2)    Rede de Apoio Psicológico: Com cerca de 4 mil psicólogos de todo Brasil cadastrados, a Rede reuniu voluntários para atender online profissionais da área da saúde. O Faces do Traumático se organizou para oferecer grupos de supervisão para esses psicólogos.

3)    Comunidades ribeirinhas e quilombolas da região amazônica: fomos convocados pela associação que instala e mantém bibliotecas nessas comunidades, ao perceberem que seus líderes estavam angustiados diante das ameaças que a pandemia promovia aos seus povoados. Voltaremos a falar sobre esse projeto adiante.

4)    Residentes e alunos do quinto e sexto ano de uma faculdade de medicina da grande São Paulo: uma das colegas de nosso Grupo nos trouxe um pedido para que oferecêssemos espaço de escuta às angústias dos residentes e alunos que trabalhavam na linha de frente, e viam a si e às suas famílias em risco de vida. Diversos grupos foram formados para tratarmos dessas questões.

5)    Equipe da ONG: a mesma organização que nos procurou para acolhermos as angústias dos líderes comunitários da região amazônica, tempos depois nos solicitou um dispositivo que acolhesse as angústias da sua própria equipe;

6)    Violência policial e de Estado: por meio de uma das integrantes do nosso grupo, fomos procurados pela Defensoria Pública do Estado de SP para acolher os familiares de jovens mortos pela polícia em um massacre ocorrido num baile funk na periferia da capital. Este foi o mais longo de nossos trabalhos durante a pandemia, com 31 encontros online ao longo do ano de 2021, organizados em grupos operativos nos moldes pichonianos.

7)    Luto: em 2021, uma integrante de nosso grupo, membro de uma equipe de uma faculdade de medicina de São Paulo, propôs que organizássemos grupos de acolhimento que auxiliassem a grande demanda de enlutados pela Covid-19 – mais de 400 pessoas – que aguardavam atendimentos individuais naquela instituição. Foram organizados dois grupos que tiveram 8 encontros cada.

Ainda que estes trabalhos fossem diferentes entre si, seu caráter emergencial era comum a todos, e nos exigiu a elaboração de propostas rápidas sem que tivéssemos espaço para a sua escrita.

O projeto com os líderes das comunidades ribeirinhas e quilombolas realizado com 11 líderes comunitários de cinco estados diferentes da região amazônica - Acre, Pará, Maranhão, Rio Grande do Norte e Amazonas – nos exigiu cinco encontros a partir de junho de 2020, no terceiro mês de pandemia e foram coordenados por Cecília Galli e Myriam Uchitel - nossa coordenadora na época. Para atender a essa demanda, foi criado um subgrupo de trabalho chamado “Conexão Corona”, que também acolheu o projeto do hospital de Osasco e, tempos depois, outro grupo com os integrantes da própria ONG que nos convocou ao acolhimento dos líderes das comunidades.

Cabe assinalar que o atendimento destas pessoas em situações potencialmente traumáticas, afeta também aos que estão diretamente implicados neste trabalho. O efeito indireto desses traumas nos profissionais é conhecido como “traumatismo vicário”.

Por isso, foram criados dispositivos internos que possibilitassem elaborações do que Bion chamou de “elementos beta”, isso é, representações-coisa, não simbolizadas e, portanto, não passíveis de serem integradas em cadeias significantes. Penso que estes dispositivos podem ser constituídos em duas configurações diferentes.

A primeira, que chamarei de “radial”, são dispositivos paralelos que incidem sobre os mesmos fenômenos – as supervisões, os próprios subgrupos de projetos, o trabalho de escrita, as apresentações. A segunda, que chamarei de “círculos de ressonância”, são dispositivos que englobam uns aos outros. No subgrupo “Conexão Corona”, por exemplo, as ressonâncias simbolizantes dos restos não simbolizados no próprio grupo de atendimento, ocorriam em primeira instância e, num segundo tempo, o subgrupo relatava as experiências no grupo Faces, onde periodicamente podiam ter um campo secundário de ressonâncias e significações.

De modo figurativo, proponho que se imagine a “estrutura radial” sendo uma forma solar, em que o evento potencialmente traumático ocupa o lugar central e os raios são os dispositivos de significação e elaboração. Já os “círculos de ressonância” seriam como um labirinto redondo, em cujo centro se encontra o potencialmente traumático e ao redor há anteparos com saídas, em que as ressonâncias vão sendo gradativamente significadas, a cada camada.

Gostaríamos de retomar as particularidades do trabalho do grupo com os líderes comunitários, uma experiência especialmente peculiar e pouco familiar, por ter sido realizado com pessoas que vivem realidades estrangeiras à nossa - seres metropolitanos que somos. Escutamos assim, populações e culturas que dificilmente teríamos acesso nas configurações “tradicionais” de atendimentos clínicos presencias. Ainda que os participantes desse grupo fossem da região amazônica, eram de Estados e circunstâncias diferentes, embora houvesse semelhanças importantes que possibilitaram o compartilhamento de angústias, e encaminhamentos para suas questões.

Embora o número de participantes não tenha sido constante (fosse pela sobrecarga de demandas que esses líderes recebiam, ou pelas dificuldades de sinal de internet dessas regiões), o grupo se mostrou um potente dispositivo não só para manifestar, testemunhar e compartilhar ideias e afetos, mas para pensar em ações efetivas que permitissem produzir mudanças nas difíceis situações que estavam vivenciando.

Em um primeiro momento, no início da pandemia, em que pouco se sabia sobre a transmissão do vírus da Covid -19 ou de como se proteger dele, esses líderes, apavorados com essa ameaça e com as muitas mortes, falavam sobre adoecimento, morte e luto.

Em um segundo momento, puderam ser pensadas ações a serem implementadas nas comunidades ribeirinhas e quilombolas, como a de se estabelecer uma comunicação entre os doentes internados, seus amigos e familiares, por meio de cartas deixadas na recepção dos hospitais, que atenuassem a solidão de quem estava internado. Também foram criadas formas alternativas de homenagens e despedidas aos mortos para contornar a inviabilidade dos rituais funerários presenciais, assim como a elaboração de cartazes com fotos dos mortos ou a implementação de hortas coletivas com plantas medicinais, valorizando recursos e saberes ancestrais que ajudassem a atenuar a escassez de medicamentos industrializados.

Num terceiro momento, o foco foi a sobrecarga que os líderes sentiam por serem responsáveis pela proteção e cuidados com suas comunidades. Foram então discutidas formas de socializar essas responsabilidades entre os membros de cada povoado. Nesta fase, mais íntimos uns dos outros e das coordenadoras do grupo, os líderes puderam se colocar mais subjetivamente e compartilhar seus temores e angústias pessoais.

A contribuição e a preocupação da ONG foram muito citadas, tanto pelo apoio individual oferecido desde o início da pandemia aos líderes que participavam do projeto (antes da pandemia, pela organização e manutenção das bibliotecas, que durante a pandemia se tornaram centros de apoio emocional, organizacional e logístico), quanto pelo apoio à população em geral dessas comunidades.

As respostas de gratidão foram registradas, tanto para a ONG quanto para nosso trabalho. Uma fala sintetiza este sentimento:

“A (ONG) deu um suporte com vocês, um suporte que a gente não tinha, temos que parabenizar. Foi muito importante, nos trouxe a crença de que se pode mudar, traz esperança à luta da gente. O que recebemos da (ONG) e de vocês é um tesouro”.

Flávio Veríssimo é psicólogo e psicanalista, membro do GTP Faces do Traumático do Departamento de Psicanálise e supervisor do Aprimoramento Clínico do projeto Favela de Psicanálise.

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