Por mais (des)continuidades entre psicanálise e gênero: reverberações do evento “Psicanálise e Sexualidades: Multiplicidades e Espirais do Desejo”
É no ressoar do evento “Psicanálise e Sexualidades: Multiplicidades e Espirais do Desejo” e da leitura do livro da socióloga nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí “A invenção das mulheres: Construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero” que André Bizzi Junqueira escreve seu texto. Confiram.
POR MAIS (DES)CONTINUIDADES ENTRE PSICANÁLISE E GÊNERO: REVERBERAÇÕES DO EVENTO “PSICANÁLISE E SEXUALIDADES: MULTIPLICIDADES E ESPIRAIS DO DESEJO”
O evento “Psicanálise e Sexualidades: Multiplicidades e Espirais do Desejo”, realizado nos dias 22 e 23 de agosto último e organizado por Caio Romano, Christiana Paiva de Oliveira e Miriam Chnaiderman em parceria com o Departamento de Psicanálise, incluiu em suas mesas pessoas não binárias, trans, travestis, pesquisadoras/es, trabalhadoras sexuais e discutiu temáticas como masturbação, pornografia, puta-ativismo, a higienização da diferença, o controle dos corpos, os diferentes feminismos e o trabalho sexual. Na esteira de Preciado (1), diante de uma multidão de diferenças, muitas vezes tomamos corpos e sexualidades não normativos como objetos e não como sujeitos. Ou seja, será que os relatos ali teriam sido “escutados” como "objetos" de estudo e/ou de curiosidade, ou seria possível reconhecê-los como "sujeitos" produtores de teoria e saber?
Pode-se dizer que o discurso psicanalítico ainda é atravessado por um modelo europeu de diferença sexual, (d)escrito pela lógica binária de gênero - um pacto ficcional de civilização e colonização que ainda mantém a matriz da cisgeneridade, da primazia do falo e do complexo de Édipo. Nossas práticas e nossas teorias são atravessadas pela colonialidade, pelos discursos de raça, gênero e classe ocidentais, cis-normativos e hétero-centrados, o que contribui para que categorias como “mulher”, “raça” e “homem” sejam consideradas universais, e não construções históricas. Quando corpos tomados como objeto, povos primitivos, pessoas racializadas e dissidentes do cis-tema sexo/gênero passam a ser escutados enquanto sujeitos, as bases de nosso tão caro paradigma da diferença sexual não dão conta da multidão de subjetividades e corpos da contemporaneidade. Ao nos perguntar se “a/o subalterna/o pode falar”? Gayatri Spivak (2), nos alerta sobre nossa dificuldade desta escuta, que não deveria ser novidade, mas que insiste, como um velho babado novo. Inquietação inevitável, sempre que nós psicanalistas, estejamos atentas/os, escutando e reconhecendo existências diferentes das nossas.
E o que nos impede de escutar e reconhecer um corpo trans? Porque parece tão difícil livrarmo-nos das amarras coloniais em nossa escuta e do modelo ocidental de sexo/gênero da diferença sexual que mantem nossa visão binária de mundo? Diante das diferenças, topamos um outro arranjo possível? Com que fios tecemos nossa malha? Nosso véu da diferença permite ver e escutar além da lógica ocidental?
Thamy Ayouch (4) vem tentando responder a essas questões ao afirmar o caráter híbrido do discurso psicanalítico, na medida em que este é constituído a partir de fundamentos que também vêm do seu exterior, e exige que possamos buscar outros discursos. Não estaria justamente aqui o potencial subversivo da psicanálise?
Guilherme Terreri, nossa conhecida Rita Von Hunty, um dos convidados do evento, nos interrogou sobre as condições de nossa escuta, ao questionar até quando seguiremos nos desviando do que nos parece fora de “nossas” categorias. Para ele há uma urgência de um horizonte crítico e certamente mais híbrido na psicanálise.
Inspiradas/os por suas importantes digressões, alguns de nós do GT “Generidades: Identidades, Gênero e Desejo” presentes neste evento, nos dirigimos a ele em busca de possíveis leituras que dialogassem com o livro da socióloga nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí (5) “A invenção das mulheres: Construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero”, marco referencial no campo dos estudos de gênero.
Guilherme não só se colocou à disposição para nos dar uma aula sobre a temática dos estudos transculturais, como nos indicou bibliografias para uma aproximação do campo.
Marcada para dois meses depois, passamos a ler e discutir textos sobre os sistemas de exclusão do dispositivo colonial ocidental de subjugamento das sexualidades e das diferentes cosmologias em que não existe uma hierarquia de gênero. Na data agendada, entre tantas referencias, lembramos como a psicanálise é apresentada como uma “grande narrativa”, no sentido de Lyotard (6), que universaliza categorias historicamente situadas no contexto europeu do século XIX - em especial a dicotomia homem/mulher lida por suas diferenças biológicas e psíquicas – e ignora outras formas de organização social, como as da antiga Oyó (atual Nigéria), apresentada por Oyěwùmí, onde a diferença genital não determinava papéis sociais. Em seu belo trabalho, Oyěwùmí revela como as categorias de “gênero” e “raça” são dispositivos coloniais, que não só hierarquizam corpos como justificam o domínio de uns sobre outros, reforçados por vezes, por historiadoras/es e antropólogas/os e que ignoram outras cosmopercepções, como a dos povos Iorubá.
A crítica central à psicanálise não é apenas teórica, mas ética: ela falha na escuta. Ao categorizar antes de ouvir, reproduz a lógica colonial de impor significados, “lemos” aquilo que já está escrito. Isso contrasta com práticas orais em que “alguém pergunta e alguém responde”, um modelo dialógico ausente na tradição ocidental.
Quem interroga a psicanálise e a partir de onde ela responde? Se a visão é um sentido que pressupõe algo, que não vai além do “dobrar” da esquina, como desdobrar nossa escuta, com vistas para além do paradigma da diferença sexual?
André Bizzi Junqueira é psicólogo, psicanalista e membro externo do Grupo Generidades do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. É membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sandor Ferenczi e associado do Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psicanálise das Configurações Vinculares (NESME).
Preciado, B. (2011). Multidões queer: notas para uma política dos" anormais". Revista Estudos Feministas, 19, 11-20.
Spivak, G. C. (2010). Pode o subalterno falar? UFMG.
Ayouch, T. (2019). Psicanálise e hibridez: gênero, colonialidade e subjetivações. Curitiba: Calligraphie.
Oyěwùmí, O. (2021). A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero. Bazar do Tempo Produções e Empreendimentos Culturais LTDA.
Lyotard, J. F. (2009). A condição pós-moderna. Tradução de Ricardo Corrêa Barbosa. Posfácio de Silviano Santiago, 5.
Muito bom! São questões muito interessantes que o grupo generidades se depara, convocando a pensar paradigmas da produção de conhecimento. Teremos muito trabalho a frente!
ResponderExcluirMuito bom, André! Psicanálise caminhando firme pela autocrítica e ampliação. Adorei o seu relato, e vou atrás da Oyèrónkẹ́. Orgulho do depto!
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