Água ou chá, rolex e os skatistas: breve relato sobre "Pai Mãe Irmã Irmão"

Sextou! E sextamos com o texto sobre o filme de Jim Jarmusch 'Pai Mãe Irmão Irmã ' escrito pela nossa colega Gisela Haddad que transmite seu entusiasmo com a linguagem desse diretor nesse filme em especial. 

ÁGUA OU CHÁ, ROLEX E OS SKATISTAS: BREVE RELATO SOBRE "PAI MÃE IRMÃ IRMÃO"

O cinema de Jim Jarmusch pode estar na gaveta dos preferidos para quem aprecia seu singular registro de certa banalidade da existência humana ou de sua arte em encontrar o extraordinário no cotidiano. Embora ele tenha anunciado que estava fazendo um filme “engraçado, sutil e quieto”, a ideia de apresentar três famílias que habitam cidades de países diferentes - New Jersey, Dublin e Paris - é genial. Quem sabe por que nos convide a perceber que, a despeito de culturas diferentes, a “família” como a conhecemos no Ocidente, está atravessada por questões similares, ou seja, pelo Zeitgeist ou o espírito dos tempos em que vivemos. São pais, filhos e irmãos que tentam (ou não) agarrar o fio que os une, ou “deveria” unir, enquanto buscam um lugar para si em um mundo que anuncia um “cuide-se como der”. Nesse sentido é interessante destacar o episódio dos “gêmeos”, o filho e a filha, que perdem os pais em um acidente de avião, e lembram a todo instante sua condição especial de “irmandade”, referindo-se a si próprios como partes de um “todo”. Eles nunca estarão “sozinhos”.

Não. Não é um filme silencioso, e sim permeado do começo ao fim por falas protocolares, como se folheássemos um livro ilustrado, que a cada página desenha o mosaico afetivo sobre os elos que resistem e os que se rompem no tempo ou no não-dito. Um retrato perturbador sobre as fissuras que permeiam as relações familiares, em que esse não-dito pode ecoar mais alto do que as palavras trocadas.

Mas ainda que haja a tentativa de subverter as narrativas tradicionais do cinema, estão ali a poesia do cotidiano, o tédio existencial ou os encontros casuais em momentos cinematográficos memoráveis, cenas familiares inesperadas, diálogos frugais ou pequenos desconfortos e/ou silêncios constrangedores.

Em sua maquete das relações parentais, ao escolher não seguir o óbvio, Jarmusch acentua os protocolos, os comentários aleatórios e triviais, e as peculiaridades de cada personagem. Isso fica escancarado ao escolher certas cenas que atravessam os três episódios, como a pergunta “água ou chá”, a presença do rolex ou o cuidado com as cores/vestimentas de seus personagens. E mais – um detalhe também genial - as três histórias se entrelaçam através de pequenas coincidências, falhas de comunicação e encontros inusitados. Sem esquecer da presença dos skatistas, que antes de cada episódio, se apossam das ruas e dançam em câmera lenta como se não houvesse carros, ou ainda da música "These Days" (Jackson Browne) na voz de Anika, que mantém o tom melancólico e intimista do filme.

Na enquete, muitos que assistiram ao filme saem com um certo mal-estar, como a questionar seu nonsense. Ao contrário, talvez o nonsense seja o ponto de partida se o intuito é radiografar as relações humanas em um mundo que parece se apresentar como distópico. Um vivas ao elenco maravilhoso que contou com Tom Waits, Mayim Bialik, Adam Driver, Cate Blanchett, Charlotte Rampling, Vicky Krieps, Indya Moore e Luka Sabbat. E a Jim Jarmusch que mantém sua independência criativa. 

Gisela Haddad é cinéfila e psicanalista.

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