Tempo de Aprender | Aprender com o Tempo
Para celebrar os 50 anos do Círculo Psicanalítico de Pernambuco, foi lançado em São Paulo, no último dia 9 de maio, o livro “Tempo de Aprender | Aprender com o Tempo”, Paulina Rocha, uma das organizadoras é também uma das fundadoras do CPP. Confira a resenha de Luca Couto.
TEMPO DE APRENDER | APRENDER COM O TEMPO
Antonio Ricardo Rodrigues Silva, Isabela Cribari, Lula Couto, Paulina Schmidtbauer Rocha (0rgs.)
Celebrar os 50 anos do Círculo Psicanalítico de Pernambuco é, ao mesmo tempo, reafirmar a permanência e renovar a relevância da psicanálise: não apenas como uma clínica viva, comprometida com o acolhimento e a escuta do sofrimento humano, mas também como um campo de conhecimento fundamental para a compreensão das complexidades, dos impasses e das transformações da contemporaneidade.
Foi com esse espírito que o CPP, Círculo Psicanalítico de Pernambuco, publicou o livro Tempo de Aprender | Aprender com o Tempo, lançado recentemente em São Paulo, no dia 9 de maio. A obra percorre a trajetória cinquentenária da instituição, ultrapassando a simples cronologia dos acontecimentos para refletir, de maneira crítica e aprofundada, sobre os desafios inerentes à transmissão do saber psicanalítico. Mais do que registrar uma história institucional, o livro interroga a necessidade fundamental de constituir espaços e representações institucionais éticos, sólidos e comprometidos com a formação psicanalítica, preservando a continuidade de uma tradição clínica e teórica em permanente diálogo com as transformações do tempo presente.
A organização do livro procurou refletir a própria essência da psicanálise em sua relação intrínseca com a temporalidade. No campo psicanalítico, o tempo não se reduz a um simples movimento retrospectivo nem a uma cronologia linear dos acontecimentos, mas configura uma experiência complexa, na qual passado, presente e futuro se interpenetram, se ressignificam e se transformam mutuamente. Nesse sentido, o livro reafirma que a narrativa do passado está longe de corresponder a uma fidelidade objetiva da memória; ela constitui, antes, uma elaboração ativa, seletiva e inconsciente, continuamente remodelada pelas exigências, pelos impasses e pelas interrogações do presente.
Houve, por parte dos organizadores, o propósito de conferir legitimidade e visibilidade às vozes daqueles que participaram da fundação e da sustentação da psicanálise no Estado de Pernambuco. Nesse sentido, o eixo central do livro constituiu-se a partir das inúmeras entrevistas realizadas com psicanalistas de diferentes gerações: desde os pioneiros do movimento psicanalítico pernambucano até os analistas mais jovens, todos reconhecidos por suas relevantes contribuições à clínica, à transmissão e à formação psicanalítica.
A escolha de uma metodologia centrada na transcrição das entrevistas com os psicanalistas constituiu, para os organizadores, um eixo fundamental para reafirmar a importância da história oral no processo de resgate da memória cinquentenária do CPP. Tal perspectiva revelou-se especialmente fecunda por permitir a preservação não apenas dos acontecimentos objetivos que marcaram a sua trajetória institucional, mas também das experiências subjetivas, dos afetos, dos impasses, das tensões e das formas singulares pelas quais diferentes gerações vivenciaram a construção da psicanálise em Pernambuco. Nesse sentido, os depoimentos ultrapassam a condição de simples registros memorialísticos e assumem o estatuto de testemunhos vivos de uma experiência coletiva, tornando visível que a transmissão da psicanálise não se realiza apenas por meio de conceitos e formulações teóricas, mas igualmente pela palavra compartilhada, pela experiência vivida e pela elaboração contínua da própria história institucional. A obra, assim, transcende a dimensão documental tradicional e transforma-se em um verdadeiro espaço de escuta da memória, no qual passado e presente se entrelaçam de modo permanente na constituição da identidade psicanalítica pernambucana.
O livro também apresenta, em sua essência, um projeto de formação psicanalítica profundamente marcado pela pluralidade, em consonância com a própria trajetória do Círculo Psicanalítico de Pernambuco desde sua fundação, em 1975. Tal pluralidade não se reduz à coexistência de diferentes correntes teóricas ou autores de referência, mas expressa uma concepção mais ampla de transmissão da psicanálise, comprometida com a abertura ao pensamento, à diferença e à complexidade da experiência humana. Essa característica do CPP manifesta-se também na diversidade de sua programação científica e na composição heterogênea de seu corpo institucional, no qual distintas perspectivas clínicas e conceituais coexistem em permanente diálogo. Trata-se, portanto, de uma instituição que reconhece que a psicanálise, em sua própria natureza, resiste a toda forma de homogeneização dogmática, exigindo da formação um espaço contínuo de reflexão, escuta e elaboração crítica.
A singularidade do projeto institucional do CPP encontra-se inscrita, de maneira viva, na história de seus fundamentos teórico-clínicos e éticos, preservada por meio das narrativas, experiências e testemunhos de seus fundadores e membros. Contudo, mais do que um simples exercício de rememoração histórica, este livro busca afirmar a permanência de um legado em constante transformação. A memória institucional aqui não aparece como um arquivo estático do passado, mas como um campo vivo de transmissão, no qual cada nova geração reinscreve, à sua maneira, os sentidos da experiência psicanalítica. Assim, o percurso do CPP revela-se como uma construção continuamente renovada, sustentada por novos protagonistas que, ao mesmo tempo em que herdam uma tradição, também a transformam, atualizando-a diante das exigências de seu tempo. A formação psicanalítica surge, então, não como um destino concluído, mas como uma travessia permanente e interminável, inseparável do movimento incessante de elaboração da experiência humana e do próprio inconsciente.
O livro do cinquentenário do CPP nos oferece elementos significativos para compreender a dinâmica de uma instituição psicanalítica em um país com a dimensão e a complexidade do Brasil. Por isso, ressalta a ideia de que somos sujeitos do tempo presente e de que as perspectivas que lançamos sobre o passado, os tópicos que elegemos investigar e a relevância que conferimos a determinados acontecimentos são frequentemente influenciados pelas inquietudes, pelos paradigmas, pelos valores e pelas problemáticas da sociedade contemporânea do século XXI.
O livro não almeja uma ilusória verdade factual e totalizante da história da instituição, mas acolher a sutil subjetividade das experiências, as múltiplas versões, as narrativas afetivas, as lacunas e, inclusive, as contradições presentes nos testemunhos dos psicanalistas. A história oral, os relatos escritos e os textos dos colegas psicanalistas propiciam acesso não apenas à diversidade dos fatos ao longo da trajetória da psicanálise em Pernambuco, mas também à maneira como essa trajetória foi sentida e vivenciada por aqueles que protagonizaram a edificação da psicanálise.
Os textos e as entrevistas reunidos no livro contribuem para revitalizar os conceitos e os encaminhamentos institucionais em torno do saber psicanalítico, ampliando as possibilidades de enfrentamento dos inúmeros desafios da contemporaneidade: clínicos, teóricos, éticos e políticos. Permitindo, assim, concluir que a trajetória do CPP dialoga com as transformações da sociedade brasileira e pernambucana: os anos da ditadura militar, o contexto da fundação de diversas instituições psicanalíticas no Brasil, o processo de redemocratização, o protagonismo das lutas das minorias, a defesa da ampliação da cidadania e a emergência de novas subjetividades.
Toda essa conjuntura das últimas cinco décadas transcorreu concomitantemente à crescente conscientização e mobilização de grupos historicamente marginalizados. A busca por direitos, o reconhecimento de novas identidades e a emergência de novas demandas sociais apontam para uma sociedade em constante mutação. Persiste um desejo coletivo crescente, representado por parcelas significativas dos movimentos sociais, que buscam a consolidação de um exercício mais amplo da cidadania brasileira.
Esse contexto deve catalisar a renovação e a atualização das instituições psicanalíticas, sem que se renuncie à premissa de que tal projeto demanda tempo, dedicação e um profundo investimento pessoal de todos nós.
Nesse sentido, o cinquentenário do CPP, celebrado pelo lançamento do livro Tempo de Aprender | Aprender com o Tempo, reafirma a importância de cultivarmos um ambiente plural no campo psicanalítico, no qual os diversos saberes sobre o humano e a sociedade estejam em constante diálogo, valorizando, assim, a transdisciplinaridade como elemento indispensável no percurso da formação de um analista.
Todo esse debate relativo ao lançamento do livro deve fomentar uma reflexão mais profunda sobre a contemporaneidade brasileira. Tal análise é sobremaneira necessária, porquanto atravessamos tempos sombrios. Uma sensação perene de incerteza perpassa a sociedade, enquanto velhos fantasmas ressurgem sob novas roupagens, agora potencializados pela dinâmica das redes sociais.
Quando negligenciamos a importância fundamental da alteridade e nos confinamos em nossas próprias bolhas de convicções narcísicas, incorremos no risco de empobrecer nossa experiência democrática e facilitamos a proliferação da intolerância, do preconceito e da fragmentação social.
Sendo assim, não há como uma instituição psicanalítica se abster de defender uma sociedade que cultive a alteridade e valorize a liberdade de expressão e o direito inalienável de cada sujeito de definir a fluidez de seu desejo no percurso de sua história de vida.
É com esse reconhecimento mútuo, nesse movimento silencioso do encontro, que constituímos um dos fundamentos mais sólidos para uma existência significativa. Assim, consideramos que a ética da psicanálise, ao priorizar a escuta do sujeito e a sustentação de seu desejo singular — frequentemente em conflito com as convenções sociais e as normas estabelecidas —, não pode prescindir da defesa intransigente dos princípios democráticos de liberdade e autonomia.
Um ambiente democrático que garanta a liberdade de pensamento e a possibilidade de questionar as tradições e as estruturas de poder constitui condição indispensável para o florescimento de uma psicanálise que não renuncie à sua vocação crítica diante da tradição e do conservadorismo.
Ao denunciar, ao longo de seus cinquenta anos de existência, os mecanismos políticos e culturais que sustentam a submissão, o preconceito, a desigualdade e a violência, o CPP tem se posicionado de forma resistente, contribuindo para o enfrentamento dos discursos autoritários e segregacionistas. Denunciando as variadas formas de opressão existentes no Brasil, como o racismo estrutural, a perseguição aos direitos dos povos originários, a misoginia, a homofobia, a transfobia e a exploração econômica, que marcam tão profundamente a realidade brasileira.
Nossa atual conjuntura social e política é caracterizada pela herança de um passado colonial baseado em uma missão “civilizatória” eurocêntrica e colonialista, responsável pela diáspora africana e pela desumanização dos povos indígenas e afrodescendentes. Houve também episódios mais recentes, como as pressões externas exercidas pelos Estados Unidos que, no pós-guerra, passaram a influenciar fortemente nossa cultura e contribuíram para a sabotagem da democracia brasileira em 1964.
Todo esse passado, que insiste em não se dissipar, ecoa com seus graves efeitos traumáticos sobre a vasta maioria da população brasileira.
A imperiosa necessidade de um compromisso ético da psicanálise com as questões sociais e políticas que nos são tão caras não decorre meramente de uma demanda externa, mas emana do próprio cerne da ética psicanalítica. Rememoremos que a queima dos livros de Sigmund Freud pelo nazismo não foi um ato isolado de censura, mas o reconhecimento, pelo totalitarismo nazifascista, do potencial de resistência inerente a um pensamento que ousa investigar as profundezas do desejo humano, as ambivalências do sujeito e a sexualidade.
Em suma, a celebração do quinquagésimo aniversário do Círculo Psicanalítico de Pernambuco, por meio deste estudo de sua história e do percurso de construção de seu projeto de formação psicanalítica, transcende um mero ato de confraternização. Constitui um exercício de autoanálise institucional, uma aposta na potência da palavra e da memória.
É um convite à reflexão contínua sobre o lugar e a função da psicanálise na contemporaneidade, contribuindo para a vitalidade de um campo que se sustenta em sua capacidade de se reinventar na escuta do singular e na interlocução com o presente, celebrando, assim, as questões e os saberes de seu tempo.
Lula Couto é professor, historiador e psicanalista associado ao Círculo de Psicanálise de Pernambuco. É membro do Coletivo Arcos 55 e do Ciclos da Vida e um dos autores de “Tempo de aprender, aprender com o tempo”.
Há muitos anos acompanho o CPP e a presença de Paulina Rocha e seus companheiros de jornada.
ResponderExcluirJornada essa comprometida com a Psicanálise ampla, que em teoria ou na clínica se mostram revolucionárias, tanto na sua concepção teórica ou em sua prática clínica.
Parabéns aos autores!
Ana Maria Siqueira Leal