Sobre a merencória infância
Não será a poesia uma resposta possível a um mundo em que as mortes, a violência, nos emudecem e nos convocam a uma outra linguagem? A um outro fazer? M. Laurinda aposta que sim. Confira!
SOBRE A MERENCÓRIA INFÂNCIA
Eu não falo em civilização num local em que se matam
pessoas, matam crianças, matam meninas...
Isto é barbárie (Ministra Carmem Lucia)
Dados da UNICEF informam que desde outubro de 2023, cerca de 64 mil crianças foram mortas ou feridas na Faixa de Gaza.
João Cabral de Melo Neto, em A lição de poesia, faz uma certa ironia sobre o fazer poético, como se vinte palavras, sempre as mesmas, fossem o material de que se nutre o poeta: “... A luta branca sobre o papel/ que o poeta evita, / luta branca onde corre o sangue/ de suas veias de água salgada/...E as vinte palavras recolhidas/ nas águas salgadas do poeta/ e de que se servirá o poeta/ em sua máquina útil. / ... Vinte palavras sempre as mesmas/ de que conhece o funcionamento...”
Carlos Drummond de Andrade, em Procura da poesia, faz uma série de alertas sobre o que não deve ser o caminho do poeta e o convoca a chegar perto das palavras e das suas mil faces ocultas que o interrogam: Trouxeste a chave?: “Não faças versos sobre acontecimentos/...Não faças poesia com o corpo,/...Não recomponhas/ tua sepultada e merencória infância/...Chega mais perto e contempla as palavras/ Cada uma/ tem mil faces secretas sob a face neutra/ e te pergunta, sem interesse pela resposta,/ pobre ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave?”
Circula na internet um pequeno vídeo com um professor de crianças com necessidades especiais, na Tanzânia, que cuidadosamente se ajoelha diante delas, limpa seus sapatos, segura suas mãos carinhosamente e lhes diz: “Não importam os desafios que vocês tenham, minhas maravilhosas crianças, vocês são capazes. Vocês podem alcançar seus sonhos”. Terão as palavras esse poder?
Por que iniciar este pequeno texto com essas afirmações dispersas?
Não será a poesia uma resposta possível a um mundo em que as mortes, a violência, as guerras, a dessubjetivação, a eliminação de uma nova geração, nos emudecem e nos convocam a uma outra linguagem e a um outro fazer? Serão possíveis – ou suficientes - vinte novas palavras? Encontraremos a chave?
Fiz uma aposta. E faço um convite:
Chega mais perto.
Transgride o dizer do poeta
Busca no dicionário palavras
que impeçam o sepulcro da
merencória infância
Fala dela – da merencória infância –
com vinte ou mais palavras
Palavras que vociferem a violência
Dos estampidos em suas róseas faces
Dos rugidos de ossos nos escombros
Do que outrora foram cidades
Palavras pétreas, duras
Palavras putrefáveis
Palavras que possam dizer
Do horror, do suplício,
Da dor constrita
Do confrangimento
da queda dos corpos
Chega mais perto
Aproxima-te agora
da merencória infância
Diz-lhe com gestos de cuidado
Que estás à procura
de outras palavras
Palavras que rompam a cripta da
Merencória infância
Diz-lhe com leveza
Mas com toda certeza
Que procuras a chave e
Que vais encontrá-la
M. Laurinda R. Sousa é psicanalista, escritora e colunista do Blog do Departamento.
P.S. Agradeço a Eva Wongtschowski pela apresentação do vídeo sobre o professor da Tanzânia.
essas palavras me remeteram a uma imagem dos noticiários desta semana. Laurinda suas palavras contém essa verdade crua que negamos quando viramos a face para o outro lado sem querer ver (porque nos chocam) aquelas imagens de crianças morrendo para fugir da guerra da perseguição na tentativa inútil de buscar vida do outro lado do oceano. Tanta tristeza.
ResponderExcluirÉ preciso ver para poder imaginar e sonhar um outro mundo. Obrigada, Vera, pelas palavras e pela letura
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