Sobre o desejo

Há desejo e há medo! Mas é preciso apostar, ter esperança. M Laurinda faz sua escrevivência.

 

SOBRE O DESEJO

Sábado, 3 de outubro.  Saí cedo de casa. 

Pela janela do metrô, observei o movimento. Em cada estação, um entra e sai de gente alvoroçada. Muitos carregavam bandeiras coloridas; convite aos votos na eleição que se aproxima.

Jovens, velhos, crianças, prepararam-se para o encontro na avenida. Da paleta de cores, tiveram o cuidado de escolher o que, para eles, traduzia a solidariedade de um coletivo. A esperança de que o terror vivido nos tempos da ditadura, o descaso com o sofrimento da pandemia, o desprezo pelos diferentes, as ameaças aos direitos fundamentais, não seriam esquecidos.

Uma família chamou-me a atenção. Três gerações: avô, avó, pai, mãe, crianças. Os mais velhos com camisetas vermelhas. As crianças, vestidas com a mesma cor. Os pais com lenços quadriculados de branco e preto, jogados sobre os ombros. Pensei em Gaza. Gaza que torceu por nosso futebol, que se solidarizou com nosso país. Um gesto de quem olha para fora de si; para o mais além. Pensamento que me anunciou a inquietação do momento.

Lembrei-me de Caetano e Gil que nos anos 90 também nos alertaram para o risco de um outro especular, ao repetir: O Haiti é aqui. Pense no Haiti. Reze pelo Haiti. O Brasil vivia uma situação de extrema violência, crises sociais, inoperância governamental.  Pensei no racismo, na desigualdade, na violência das milícias, nas vidas desconsideradas, excluídas, metralhadas. Nos índices de mudanças dos últimos anos e do tanto ainda para mudar. 

E segui. Acompanhei a caminhada. Encontrei amigos. Encontrei muita gente confiante na construção da Democracia.

No domingo, 4/10, muitos saíram em grupo pelas ruas. Outros, sozinhos, silenciosos. Colaram adesivos nos corpos. No alto de uma árvore, vi um passarinho carregando uma estrela. Passarinho e estrela eram vermelhos. Foi desejo ou delírio?

O final do dia, salpicou de tristeza o chão da cidade, sombreou uma parte do país.

Pensei no passarinho de penas vermelhas. Ele trouxe-me à lembrança uma outra cena. Uma cena relatada no meu livro Violência sobre a resposta sábia e criativa dada por uma criança à crueldade da tirania em que vivia seu país.

“Sofia tinha 5 anos. Seu pai estava preso; fora sequestrado pela ditadura argentina. Os desenhos que a menina levava para o pai eram, sempre, examinados. Um dia, a mulher que fazia o controle riscou o desenho das andorinhas e disse que era proibido desenhar pombas. Desde então, Sofia não desenha mais pássaros; faz pequenos círculos nos galhos das árvores. São os olhos dos pássaros escondidos”. 

Na segunda feira, dei-me conta que o desejo anunciado pelo passarinho, continuava Lá. Era preciso lutar para mantê-lo vivo.

M. Laurinda R. Sousa é psicanalista, escritora e colunista do Blog do Departamento de Psicanálise

Comentários

  1. Laurinda, nossa luta vai continuar, independente do resultado.
    A Esperança, última que morre!

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