A xícara, o café, o resto
O Blog do Departamento de Psicanálise publica hoje a escrita de nossa colega psicanalista Juliana Fagundes.

Assim devaneou. Quieta. Sem um
pensamento. E percebeu que a incompreensão era o atalho para . Preparou o café
com olhos repetidos. Só para sentir. Só para lembrar. O exercício era reviver o
instante da padaria. A xícara, o café, o resto. Pôs-se, então, na cozinha do
apartamento, a mexer com suavidade a bebida já pronta: uma volta, duas voltas…
A quentura do café exigia mais uma volta e meia, aproximadamente, quando de
repente a colher e o café, que circulavam na mesma direção, pareciam agora ir
em direções contrárias. O café girava para a direita. A colher, para a
esquerda. Tudo em desarmonia. Como quando tomamos banho numa praia sem ondas,
mas com uma correnteza forte demais, querendo nos levar para o fundo do mar ₋
enquanto nos esforçamos para ir para o rasinho. Para o seguro. Pausa. Pegou a
xícara nos dedos e experimentou o café num só gole, como se quisesse dar fim ao
caos. Mas quanto mais sentia descer o café dentro de si, mais reconhecia haver
um caminho desbordejado. Externamente. Foi assim que abeirou-se da própria
escrita, sentindo-se incoerentemente anônima e, portanto, autora de sua própria
verdade. Porque o que queria não estava ali no que contava, por isso deixava
correr a letra para fora de seus sulcos costumeiros. O que importava era se
familiarizar, de novo. E sempre. Com o infinito, palidamente interrompido. Será
que um dia voltaria a escrever? A pergunta lhe abriu para uma ideia
perigosamente prazerosa demais. E aceitou. Seguiria escrevendo até aquilo tudo
virar escrita. Levantou-se, fechou as janelas, colocou um disco só de Chopin, e
decidiu: a partir de hoje: viverei sozinha: e minha comunicação se dará somente
através de cartas. Eventualmente, claro, precisaria sair para fazer algumas
compras no supermercado. E atender alguns de seus pacientes. Mas teria uma vida
secreta. A vida acontecendo no seu apartamento. Pouca luz era desejável.
Todos os dias seriam assim.
Para que serve a escrita? Para quê, para quem?
Isso já não tinha mais a menor importância.
Passou a madrugada sem dormir, aguardando
a palavra amanhecer no apartamento. O tempo corria atento à espera de algum
movimento letral vindo das coisas. Tudo seguia em silêncio, sem novidades.
Andou pela sala como se buscasse capturar as suas próprias pegadas. Arrastava
de propósito os pés. E com tal força, que uma espécie de dor lhe ocasionou uma
esperança, finalmente. Chorava porque a saudade da escrita era grande. Buscou a
caneta para resgatar algumas sensações. Mas tudo era inútil. Nunca mais, então?
Observou que pela manhã havia barulho vindo da rua. Mas já não seria mais o
barulho a salvá-la. Tampouco a solidão. Teria que desistir de tentar encontrar
o estado perfeito para desabrochar seus dizeres, porque já não havia mais nada
a ser dito.
Lembrou do tempo em que as coisas
aconteciam. E tudo virava escrita. Mas também não podia passar a vida
recordando do passado como se as lembranças fossem todas maravilhosas, porque
sabia que havia desespero no ato de escrever. E ser arrancada da escrita tem
seus efeitos. Talvez para sempre. Acontece que no sábado entendeu a
radicalidade de ser sozinha, e teve a ideia de voltar a escrever para
sobreviver. Sabia que a escrita a deixaria mais isolada, por um lado. Mas para
quem estava já tão solitariamente perdida, escrever até que lhe pareceu uma boa
urgência. Mesmo sem a chegada da palavra, sentiu-se um pouco contente de cuidar
do seu apartamento. Como se fosse condição para recebê-la amanhã. Receber a
palavra. Começou por varrer os cômodos, limpar os móveis empoeirados, colocar
no vaso vermelho umas flores que comprou cedinho… Fez um delicioso almoço,
abriu o melhor vinho, usou o mais bonito vestido e tentou apreciar aquele
instante no qual ainda permanecia sozinha. Sentiu que precisava estar preparada
para o momento de sentar à frente do computador e escrever, escrever, escrever,
como antes. A verdade é que não queria a vida de antes, não queria a escrita de
antes. Queria sim estar mais preparada para o encontro. Por isso, a mudança
precisava ser brutal. Tratou de seguir desalojando as coisas do lugar. À noite
já se podia observar algumas transformações. Fechou a porta de entrada só para
abri-la em seguida, como se a própria moça fosse a palavra chegando. De pronto
avistou a enorme cadeira de balanço perto da janela… A mesa amarela agora no
centro da sala… Havia espelhos, quadros, bonequinha da Frida Kahlo. Tudo na
parede. Os sofás mudaram de posição, o tapete, assim como a escrivaninha. Dez
para as dez, resolveu tomar um demorado banho, lá pelas tantas foi para a cama.
Sem palavra nenhuma habitando seu corpo, mas, pela primeira vez, depois de
tanto tempo, havia entendido. E era isso. E tudo bem.
Mas não, não sabia inventar estória.
A semana começava com uma grande angústia, talvez por ter levado seu fingimento
longe demais. Quis chamar a escrita, mas não previu tão rápido adoecer. Agora
sabia que o nascimento da palavra vinha do seu estado febril. Algo dentro dela
se movia. Em busca, exatamente, do quê,
afinal?
Juliana Fagundes é Psicóloga (2007), pela Universidade da Amazônia; Psicanalista, tendo realizado sua Formação em Psicanálise pelo Centro de Estudos Psicanalíticos (2011) e pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae (2015); Mestre em Literatura e Crítica Literária (2019) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
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