Uma fresta de alegria. Um encontro

Ainda no clima de festa do lançamento do livro do Blog "Tempos Pandêmicos" que aconteceu no dia 25 de maio último, publicaremos na sequência alguns textinhos de autores que registraram suas impressões sobre este evento.

Confiram o texto de Laurinda "Uma fresta de alegria. Um encontro"


UMA FRESTA DE ALEGRIA. UM ENCONTRO 

Caros amigos. Caras amigas

Não estranhem se decidi lhes escrever esta carta.

Ando em tempos de recuperação dos modos antigos de viver. Um jeito desapressado que permita o tempo da alegria dos encontros.

Difícil dizer isto com um mundo atolado por bombas, por águas em demasia, por incêndios temerários, por tantos corpos ao relento; muitos já sem vida.

Mas, apesar disso, ou, justamente por isso, decidi lhes falar das frestas que permitem momentos de festas.

Convivemos, ainda, com os restos e sequelas dos fantasmas pandêmicos. Não foi só a necessidade de reclusão, tão penosa no início; foram as notícias sempre inquietantes de que a morte estava muito próxima. E no depois do horror, dos espectros, das covas que se multiplicaram, dos discursos daquele que sempre mente, chegaram os dias em que as portas se abriram. Então, um novo temor se anunciou: era o desaprendido dos toques, do chegar perto, do retomar a vida interrompida – que não se queria igual, mas que se temia repetida. Ensaios, tentativas, avanços, recuos.

A escrita, vocês sabem, é uma forma de sublimação, elaboração, mediação. Tantas palavras terminadas em AÇÃO. Uma demanda de Ato para enfrentar esses tempos sombrios? O BLOG foi sua melhor moldura, seu suporte necessário. Um arquivo precioso da memória. Um lugar onde guardamos lembranças dos “dias quase perfeitos” e outros nem tanto. Juntá-las em um livro, me pareceu “uma ideia genial”.

Chegamos, então, ao dia do Lançamento.

Vim cedo para a festa. Vocês ainda não estavam. Vi as mesas à espera dos autores. O espaço ao redor preparado para os convidados. O movimento da cozinha na lida com a recepção.  Na mesa da entrada, os livros oferecendo-se, sem pudor, para nova moradia. 

Precisei sair. Outro compromisso urgente me convocou. Na volta, a festa acontecia. Os espaços cheios de gente amiga. O barulho era das conversas, dos comentários de outras histórias a serem partilhadas, dos ecos da fala da Miriam. No ar, uma certa doçura, um encantamento. Celebração da sobrevivência, celebração dos encontros de vida.

Lá fora, para além da porta de vidro, um grupo fala da paixão. Paixão da leitura. Uma carta escrita em desagravo a Paul Preciado. Uma carta de amor.

E falamos das cartas que não se escrevem mais. Das cartas escritas quando as distâncias eram outras e a internet não existia. Cartas que quando postadas, já deixavam no emitente a aspiração do retorno. Onde o tempo não era volátil, não se deixava enredar no imediatismo de um click enviado sem a poesia da hesitação.

Foi por isso que julguei melhor falar deste nosso encontro, escrevendo-lhes esta carta. Leiam nas entrelinhas o que não consegui dizer. E me respondam, com uma certa brevidade, como foi pra vocês este Encontro.

Aguardarei com afeto a chegada do correio.

M. Laurinda R. Sousa é psicanalista e escritora. É autora de vários textos do livro do Blog “Tempos Pandêmicos”.

Comentários

  1. Laurinda, não pude estar no evento, mas através de seu texto pude sentir o
    perfume da beleza das palavras, que vc maneja tão bem.
    Obrigada

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