Os 21 dias que movimentaram este país. Para que não sejam esquecidos

Na companhia dos que com cidadania ocuparam as ruas, entenderam a urgência e a importância do momento, M. Laurinda faz um retrato destes 21 dias que mobilizaram o país. 

 

OS 21 DIAS QUE MOVIMENTARAM ESTE PAÍS.

PARA QUE NÃO SEJAM ESQUECIDOS

 1.     Violência só gera mais violência

Durante esta campanha, nas últimas semanas, assistimos a denúncias terríveis dos atos sistematicamente cometidos por parte de um dos candidatos; aquele que se apresenta como herdeiro do desgoverno de 2018-2022.

O primeiro debate transmitido pela Bandeirantes, deixou mais da metade do país perplexo e nauseado com o grau de cinismo e violência a que foi submetido, junto com o atual presidente deste país. Isso tudo sem que os organizadores do programa fizessem qualquer intervenção, o que só aconteceu depois de uma manifestação espontânea da plateia. Calar-se diante da violência, é como sabemos, ser conivente com ela.

Esta configuração tem antecedentes que marcam a origem deste país. A colonização, a escravização, o extermínio dos povos originários e a apropriação de suas terras. Mas, podemos fazer um recorte mais recente desses atos, recorrentemente denunciados, mas sem a devida punição. O que parece “legitimar” sua recorrência.

Quando no plenário, Jair Bolsonaro deu seu voto a favor do impeachment de Dilma Roussef, ele o fez em nome de Brilhante Ustra, o torturador que aterrorizou a presidenta quando de sua prisão e tortura. Ora, que Congresso é esse que aplaude tal discurso?

Como se omitir diante do que deveria ser imediatamente punido? Efeito de uma anistia negociada que impediu o julgamento dos responsáveis pelo golpe de 64 e pela ditadura que durou mais de 20 anos[1].

Posso selecionar diversas cenas de horror. Cenas que chocaram os ouvidos, os olhos, o corpo.

No segundo debate, entre uma sucessão de mentiras e promessas vãs de “vou fazer isso e isso e isso”, o candidato do PL referiu-se ao presidente, nesse momento candidato à reeleição, chamando-o de 9 dedos. 9 dedos! 9 dedos!

As palavras ecoaram no estômago de quem as ouviu e não as subestimou. Eu que trabalhei durante anos com pessoas que sofreram acidentes de trabalho desacreditei das palavras ditas.  

O presidente não deixou que isso fosse desconsiderado. Falou da dor adolescente de perder um dedo na prensa. Adolescente que precisou trabalhar precocemente para garantir o sustento da família. Realidade de grande parte de nossa população.

Em outro momento, quando questionado por que não voltou a favor do aumento da licença maternidade para 6 meses, o candidato do PL respondeu: “hoje, depois que me casei e tive duas filhas, não faria isso. Reconheci a importância da presença materna quando nasce um bebê”. Ora, isso não é legislar em causa própria?

E a fala dirigida a Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, a menina assassinada com uma bala de fuzil e cujo assassino teve a defesa do próprio candidato, chamando-a pelo nome da filha morta e ousando colocar em dúvida a identificação do assassino? O espanto diante da cena foi ecoado na reação da mãe: Ana Clara está morta!

Na véspera das eleições (24/10/2026), um homem branco, bolsonarista, conduziu um outro acorrentado (um jovem negro com a camisa 13 e tridente na mão) e anunciou com despudor: “Lula ladrão, satanás de capiroto. Lula ladrão, tá preso”. Tudo isso em praça pública, com todos os que passavam ao lado gozando da cena. O que dizer de pessoas que assistem insensíveis a essa violência? A essa explicitação impune de racismo? O que levou esse jovem negro a se submeter a essa humilhação?

Outras cenas de violência vêm ocorrendo no país, como se a impunidade estivesse garantida. Elas refletem o horror desavergonhado de parte deste Brasil, ou, posso dizer, “desta Terra”?

No dia da eleição o temido aconteceu: impedimento para a chegada ao local de votação; redução da frota de ônibus, recusa da gratuidade obrigatória, batidas em carros que tinham o adesivo do PT, restrição de vendas de passagens de certas companhias de ônibus e de aviação, denúncias de dificuldades de acesso a pessoas com mobilidade restrita, conluio perverso de poderes oficiais...

Até o último minuto, não havia respostas ao pedido de prorrogação, o que acabou acontecendo no bater do gongo, quando muitos já haviam voltado para suas casas. Uma conquista, é verdade. Mas, ficam perguntas: As urnas desligadas não podem ser reabertas. Algumas escolas já tinham fechado o acesso e não permitiram o ingresso dos que queriam votar. Algumas zonas já haviam começado a apuração. Os que esperaram por horas, voltarão? Criou-se o caos nesta eleição! Não à toa os militantes dos extremistas de direita pediram a seus adeptos que chegassem cedo às urnas. Assim se iniciam atentados à Democracia.

 2.     A retomada dos sonhos. dos projetos. do desejo.

Afirmei no parágrafo acima: “desta Terra”, parodiando uma menina portuguesa que rebateu falas xenófobas de André Ventura, (atual líder da oposição de extrema direita em Portugal), dizendo que as crianças que frequentam sua escola são de diferentes países e têm o direito de estar lá, porque são crianças e moram no lugar que incluem a todos: na Terra.

A explicitação desse direito, o da hospitalidade sem limites ao outro, ao estrangeiro, ao diferente de nós, que nos convida a estar com, também nos entusiasmou: Assistimos a uma movimentação alegre, jovial, preenchendo as ruas. Circularam Manifestos de muitas instituições, de grupos diversos, em defesa da Democracia, da Soberania Nacional, da riqueza deste país, dos direitos de demarcação das terras dos povos indígenas, da legitimidade de qualquer forma de ser, de qualquer prática e manifestação de crença religiosa e de qualquer tipo de amor.

Participamos da formação de um “exército” incansável, de um coletivo, uma organização do comum, em defesa de tudo que sombria ou descaradamente nos ameaçava com o retorno de um já vivido.

Partilhamos falas vindas de outros países. O mundo torcendo por nós. Sabendo que este país pode ser um exemplo de resistência ao imperialismo, à dominação da extrema-direita.

Aprendemos muito. Reconhecemos os riscos das redes sociais. Reconhecemos seu poder. Reconhecemos as interferências externas nos impulsos indevidos da rede. Reconhecemos a necessidade de sua regulamentação.

Conseguimos ouvir o alerta constante, também disseminado nas redes sociais, para a não-resposta a atos agressivos, às provocações. Isso foi uma conquista valiosa: um acordo coletivo para a não reprodução da violência.

Tivemos dias intensos de práticas de cidadania.

Uma aprendizagem que deve permanecer e se manifestar

              na ocupação das ruas para impedir o cale-se, a apatia, a servidão voluntária, a crueldade;

              na defesa ruidosa, com vozes de protesto, sempre que quaisquer direitos forem infligidos;

              na conquista das reações necessárias sem que sejam a expressão crua e atuada do ódio;

              na retomada dos sonhos, da capacidade de imaginar o que parece impossível.

Para que eles possam acontecer.

E aconteceram! Dia 25 de outubro, dia Nacional da Defesa da Democracia, Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito, pela quarta vez, presidente da República!

E a festa ocupou, novamente, as ruas.

M. Laurinda R. Sousa é psicanalista, escritora e colunista do Blog do Departamento de Psicanálise



[1] Veja-se o documentário: O Dia que Durou 21 Anos (2012), dirigido por Camilo Tavares.

Comentários

  1. Laurinda querida
    Mais uma vez, vc usa sua sensibilidade e sua retórica, para expor nossos sonhos e desejos!

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  2. querida amiga orgulho de ser brasileira e de ser sua amiga!! Vc escreveu a frase que é meu carro chefe: "O mundo torcendo por nós. Sabendo que este país pode ser um exemplo de resistência ao imperialismo, à dominação da extrema-direita." eu diria que

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  3. Cara Lau, seu texto é expressão por meio do uso das palavras do que vivemos desde a aprovação do impeachment dês guerreira Dilma Rousseff. É documento para que nunca esqueçamos de que a democracia foi conquistada por mulheres, homens - o povo brasileiro! - que se manifestaram nas cidades e no campo! Vencemos!
    “Viver é um ato político.”
    Muito obrigada ⭐️❤️

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