Pranto para Samia Yusuf Omar (1991-2012)
“Corro
com ela. Aflita. Presa na poltrona do cinema”. Foi sob este impacto que M
Laurinda R. de Sousa escreveu este lindo, mas difícil texto sobre Samia e
seu destino. Confiram:
PRANTO
PARA SAMIA YUSUF OMAR (1991-2012)
Uma
corrente de vozes solidárias ecoa com força.
As
pessoas levantam-se. Se possível fosse,
correriam junto com ela.
Não
foi Samia quem subiu ao pódio dos Jogos Olímpicos de Verão de 2008, em Pequim. Chegou
ao final, mas a vitória foi dela.
No
retorno para casa, o aviso tantas vezes anunciado:
“Tome
cuidado; sua vida corre perigo”.
Samia
fez um longo percurso até chegar a Pequim.
Desde
pequena corria pelas ruas esburacadas de Mongadíscio, subia pelas calçadas que
abrigavam materiais à venda, entrava pelas vielas, enfrentava os gritos dos
vendedores espalhados nas feiras cotidianas, o assédio dos militantes locais;
muçulmanos que não toleravam essa menina mais veloz que o vento, mais veloz que
os outros companheiros da mesma idade. A melhor da Somália.
Naquele
lugar, corrida não era uma atividade própria para meninas; ganhar dos meninos
era imperdoável. Ali, o grande amigo, não a perdoou quando ela chegou antes
dele à escola. Sentiu-se humilhado.
Depois,
veio a trégua: a amizade mais forte. Quando ela venceu a competição nacional,
foi o primeiro a reconhecer: Samia era uma atleta. Ela sim era uma atleta. Ele
não, não era um corredor; um atleta, mas seria dali em diante seu treinador.
Encontraram
um lugar escondido. Toda a noite saiam esquivando-se das patrulhas que não
permitiam as saídas noturnas. Mogadíscio enfrentava uma guerra civil. Grupos
diferentes brigavam pelo poder.
País
sofrido: pobreza, desigualdades, ataques constantes, confrontos internos e com
os países vizinhos Líbia, Etiópia. As marcas da colonização inglesa e italiana
(vigente até 1960) com estupros, explorações, mortes, humilhações, tirania,
reproduzem-se nas lutas das principais facções que se reconhecem como “os
senhores da guerra”.
O
golpe mais duro veio com o acidente do pai. Uma bomba jogada no mercado em que
ele estava com os amigos numa mesa de bar. As milícias vieram em seguida. Fuzis
atirando em quem estivesse à frente. Uma bala feriu-lhe a perna. No hospital
superlotado, a amputação. O horror de não poder mais trabalhar. Trabalho
precário, carregando tralhas com um carrinho de mão.
Samia
recolheu-se, a tristeza no olhar do pai contaminou seus próprios olhos. Um pai
amoroso de quem herdara o sorriso confiante na vida. Um pai que lhe havia
prometido um par de tênis se ganhasse a primeira corrida local. Não pudera comprá-los,
mas lhe deu um bem precioso, um amuleto: uma tiara branca com o símbolo
vermelho da Nike. Deu-lhe, também, palavras doces: não abandone seu sonho.
Foi
a tristeza da filha que o chamou para a vida. Era preciso que ela o visse
andando novamente, retomando os amigos, circulando na praça. Samia voltou a
correr.
As
bombas estouraram novamente. Casas destruídas. Pedras amontoadas na rua.
Pessoas gritando. Correrias. O sorriso feliz do pai que acabara de comprar o presente
prometido desapareceu nos escombros. Samia não viu a alegria do pai carregando
a sacola com o par de tênis cobiçado; tão próximo de chegar, tão impossível de
alcançar.
Em
Pequim, antes da entrada no estádio, evidencia-se o contraste com o preparo dos
outros corredores. Novo gesto solidário: uma colega de quarto dá-lhe de
presente o calçado mais apropriado para a corrida.
Em
outro momento, quando tenta sair de Mongadiscio, com o dinheiro guardado para
pagar os atravessadores que lhe permitiriam a passagem, o caminhão de
refugiados, sofre um ataque dos rebeldes da Líbia. Samia foge, corre nas dunas quentes
do deserto que se mostram enfeitiçadas, confundem os caminhos e levam-na de
volta à prisão da qual tentara escapar. Na saída da prisão, depois do
sofrimento, da tortura e do pagamento do resgate, uma alegria: a devolução do
seu amuleto; uma combatente entendera o valor daquela tiara.
Nada
disso impediu que ela continuasse. Manteve
o sonho da nova Olimpíada em 2012. Desta vez em Londres. Para isso havia que se
preparar melhor.
Mas,
o aviso dado pela voz amiga, insistia: Cuidado sua vida corre perigo.
Foi
o antigo companheiro das corridas da infância, Ali, quem lhe deu o dinheiro
para a fuga. Havia sido cooptado pelo exército miliciano e fazia parte dos que
combatiam os resistentes: Foi ele que lhe anunciou o crime: “Você precisa
fugir; correu sem o véu, corre perigo”. A família de Samia estava em um campo
de refugiados. As mulheres haviam sido proibidas de participar ou assistir
esportes. Ela não podia ficar naquele país.
Nova
fuga. Nova tentativa de travessia do Mediterrâneo. Desejo de chegar à Itália;
não ser repatriada. No barco precário, os 70 refugiados amontoados partilham o
medo das águas, dos ataques. O motor para de funcionar. O barco fica à deriva,
à espera de socorro. Samia é solidária com a companheira ao seu lado que não
aguenta a sede e a falta de água; quer desistir. Ela não. Está confiante. A tiara na cabeça, o
sorriso confiante no rosto; o mesmo sorriso do pai. Na tentativa de alcançar as
cordas de socorro, atiradas por um navio italiano, joga-se ao mar.
Corre
nas águas, como correu em Pequim.
Corro
com ela. Aflita. Presa na poltrona do cinema.
Meu
grito se confunde com os dos parceiros do barco dos refugiados. Inútil. As
ondas trazem à tona uma tiara branca com o símbolo da Nike. Seu corpo faz
companhia a muitos outros que, como ela, jazem no fundo do mar Mediterrâneo. Em
volta de nós os espectros dos atos e dos levantes que não fazemos. O silêncio
também é um crime verdadeiro.
Cena
final: Samia, criança agora, deita-se ao lado do pai, nas areias brancas de sua
terra.
Os
desejos não morrem. Precisam de atos para que se tornem realidade.
A Guerra civil na Somália, iniciada em 1991 e sem perspectivas de término, tem efeitos devastadores: mais de 300 mil mortos, fome, um milhão e meio de refugiados. Declarações de genocídio por parte da ONU. Um recorte impactante de muitos outros que povoam tragicamente nosso mundo.
Este
texto foi escrito sob o efeito do filme Samia (direção de Yasemin Samdereli.
Produção Itália, Alemanha, Bélgica), apresentado na 48ª. Mostra Internacional
de Cinema. É minha homenagem póstuma a Samia e a todas e todos refugiados(as)
que se aventuram tragicamente na busca por um lugar de hospitalidade. É minha
solidariedade aos que padecem nos escombros das guerras trágicas e cruéis de
nossos tempos.
Como
pano de fundo, os livros de Igiaba Scego (escritora italiana, filha de pais
somalis exilados) Adua e Minha casa é onde estou. Sobre a
colonização italiana ela diz: estupraram, mataram, depredaram, humilharam e,
sobre tudo isso, nada é dito. Resta o silêncio; como se nada houvesse
acontecido.
Maria Laurinda R. de Sousa é membro do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae e professora do Curso de Psicanálise. É autora de Violência e de Vertentes da Psicanálise, além de alguns livros infantis.
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