Postagens

Mariupol e a Verdade Incognoscível

Hoje o blog apresenta mais um texto sobre a situação na Ucrânia. O autor, Ivan Martins , psicanalista e jornalista, baseado nos últimos acontecimentos, nos fala da dificuldade em saber qual a verdade dos fatos relatados e propagandeados nesta guerra e, de modo mais amplo e geral, no mundo atual.   MARIUPOL E A VERDADE INCOGNOSCÍVEL Você sabe o que está acontecendo em Mariupol? Eu não sei. Tenho tentado me informar em português, inglês e espanhol. Em busca de informação alternativa, descobri agências russas de notícias e sites americanos de militantes contra a guerra, mas, mesmo assim, não estou satisfeito. As notícias que recebo são frontalmente contraditórias entre si. Quem está mentindo? Quando? Não consigo saber. Segundo a mídia americana (e todo o resto da imprensa deste lado do mundo), a cidade portuária de Mariupol, no Leste da Ucrânia, é um local em que mais de 200 mil civis estão cercados e sendo massacrados por bombardeios diários das tropas russas. Por semanas, qu...

Davi e Golias

Nossa colega, Gisele Senne de Moraes , faz uma reflexão sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia. Dentre  uma série de considerações, ela nos lembra do conceito de autopreservação proposto por Silvia Bleichmar para compreender o que pode estar em jogo no conflito.                                                                                              DAVI E GOLIAS Dias antes da invasão russa sobre o território ucraniano, em meio a rumores de aumento de tensão, aceitei uma sugestão da Netflix e assisti ao documentário Winte...

Vidas Paralelas

Maria Laurinda R. Souza , colunista do Blog,  escreve sobre o filme  "Mães Paralelas", de Pedro Almodóvar, e sobre outras histórias e tragédias que não devemos calar.    VIDAS PARALELAS M. Laurinda R. Sousa Fevereiro/2022 Paralelas são retas que não se encontram, mas que, necessariamente, tem o mesmo sentido. “Não há história muda. Por mais que a queimem, por mais que a rasguem, por mais que a mintam, a história humana se nega a calar a boca” (p.186). Com essa afirmação retirada do livro de Eduardo Galeano De pernas pro ar (2011), no capítulo “A impunidade dos caçadores de gente”, Pedro Almodóvar encerra seu filme Madres paralelas . Em seu enredo, esse diretor tão criativo e transgressor (não é gratuito que sua produtora se denomine El Deseo ), nos apresenta várias facetas paralelas: A história pessoal de seus personagens, com seus amores e desencontros. A história de seu país com o que restou de verdade a ser dita e reencontrada. A história de uma ge...

Ao Chico, com açúcar e com afeto

Maria Silvia Borghese , professora do Curso de Psicanálise, endereça uma carta a Chico Buarque de Holanda no Blog do Departamento de Psicanálise.  Com açúcar e com afeto, sempre. AO CHICO, COM AÇÚCAR E COM AFETO. Oi Chico, tudo bem? Pensei muito – pensei e pensei – se deveria lhe escrever esta carta. Eu não conseguia me decidir, até me dar conta do que me movia, incomodava, provocava. O desejo de escrever vinha na verdade de emoções, sentimentos e angústias. Faltavam alguns passos imprescindíveis para que eu pudesse transformar o mal-estar, até corporal, em palavras. Por isso, começo dizendo logo de cara o que sinto: Chico, não deixe de cantar Com açúcar, com afeto. Estava assistindo ao documentário sobre Nara Leão, encantada pela mulher maravilhosa que ela foi. O caminho dela se enlaçava às minhas próprias lembranças, tristes e felizes ao mesmo tempo, nostálgicas e ansiosas pelo futuro. Nara nos prestou um serviço imenso ao abandonar a proteção de seu apartamento em Copacaba...

Entre sedução e inspiração: como situar o Eu? Sobre o II Colóquio Jean Laplanche Brasil

No final do ano passado não conseguimos publicar um texto escrito por Luiz Carlos Tarelho e pela nossa colega de Departamento  Ivy Semiguem Freitas de Souza de Carvalho sobre o II Colóquio Jean Laplanche Brasil: “Entre sedução e inspiração: como situar o Eu?” realizado em outubro de 2021. Ainda em tempo, vale a leitura do relato desse encontro que destaca as principais questões discutidas entre estudiosos de Jean Laplanche no Brasil.     ENTRE SEDUÇÃO E INSPIRAÇÃO: COMO SITUAR O EU? SOBRE O II COLÓQUIO JEAN LAPLANCHE BRASIL Luiz Carlos Tarelho Ivy Semiguem Freitas de Souza de Carvalho   Foi realizado nos dias 15 e 16 de outubro, em parceria com o LIPSIC, o II Colóquio Jean Laplanche Brasil, tendo como título “Entre sedução e inspiração: como situar o Eu?” O evento é uma iniciativa de estudiosos do pensamento de Jean Laplanche, que estão empenhados em dar continuidade à sua obra e a “fazê-la trabalhar”, como ele gostava de dizer. O tema do Eu foi escol...

Analistas podem defender posições Políticas publicamente?

Analistas podem defender posições políticas publicamente? Como posicionar-se frente a isso? Se ele se posiciona publicamente, submete seus analisandos a uma forma de invasão subjetiva, ou ao confronto de pontos de vista? A partir deste questionamento, Ivan Martins constrói um texto instigante e importante. Vale  conferir:    ANALISTAS PODEM DEFENDER POSIÇÕES POLÍTICAS PUBLICAMENTE? Toda vez que escrevo e publico alguma coisa de natureza política, (e tenho feito isso com frequência), sou obrigado a evadir uma questão que agora me proponho a enfrentar: como os pacientes se sentirão ao ter contato explícito com este aspecto das minhas ideias e da minha personalidade? Ao escrever sobre política eu não estaria, de alguma forma, rompendo um pacto de abstinência e invisibilidade, me oferecendo a eles como exemplo a ser seguido e admirado – ou, pelo contrário, como objeto de medo e raiva paranoicos, se eles pensarem de forma diferente de mim? Será que, como psicanalista...

Fala, homem! (Reflexões clínicas sobre os atendimentos de um grupo de escuta de homens)

O Blog publica um texto das psicanalistas Cristiane Gomes e Sabrina Arini , do grupo "Fala, homem!", contando suas impressões sobre a construção da masculinidade e sobre a escuta do sofrimento envolvida em um ideal de homem presente em nossa sociedade. FALA, HOMEM! (REFLEXÕES CLÍNICAS SOBRE OS ATENDIMENTOS DE UM GRUPO DE ESCUTA DE HOMENS) Por Cristiane Gomes e Sabrina Arini E o que falam os homens? Ou, melhor colocado, o que escutamos, enquanto psicanalistas, nesta fala? Como ruído de fundo, perpassando todo o discurso, uma surpreendente e flagrante fragilidade da posição masculina. O suposto sexo forte, escorado por seus inquestionáveis privilégios históricos, se revela permanentemente por um fio. Um integrante do grupo chega para o encontro visivelmente alterado, e relata o assédio que acaba de sofrer, de um outro homem, no metrô. Se diz afrontado: - Ele achou que eu não era homem? A masculinidade parece estar sempre em risco, precisando ser provada a todo m...